Política
PT decide sobre expuls�o de Helo�sa e tr�s deputados
ARNALDO FERREIRA Dezoito anos depois de expulsar três deputados por terem contrariado uma determinação do partido, o PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve repetir a punição sumária na reunião de sua Executiva nacional que começou nesse sábado e termina neste domingo, em Brasília. Na berlinda, três deputados e uma senadora que, assim como os colegas no passado, se recusaram a seguir a orientação partidária. Heloísa Helena (AL), João Fontes (SE), João Batista Babá (PA) e Luciana Genro (RS) serão julgados neste domingo por terem votado contra a reforma da Previdência proposta pelo Governo. O último caso de expulsão do PT foi em 1985, durante o Colégio Eleitoral para eleger indiretamente o sucessor do General João Baptista Figueiredo. O partido fechou questão e determinou que nenhum de seus oito deputados federais participasse da eleição indireta que levou Tancredo Neves à Presidência da República. Bete Mendes (SP), Airton Soares (SP) e José Eudes (RJ) participaram da votação e receberam a punição máxima. Inquisição A senadora Heloísa Helena (PT/AL) declarou à GAZETA DE ALAGOAS que fará sua auto-defesa e lutará até o último minuto para não ser expulsa. ?Farei a defesa oral e sem conhecer os termos das acusações feitas a minha atuação parlamentar?, lamentou e acrescentou que ?Só tenho conhecimento de coisa semelhante, um julgamento desse tipo, durante o Tribunal da Santa Inquisição?. Heloísa diz estar preparada para ser queimada viva. A senadora não escondeu que está com o coração partido por estar sofrendo uma ameaça de expulsão do partido que lhe projetou como parlamentar. Ela sabe que sua situação é bastante difícil. ?Mas o que estou fazendo é seguir o que aprendi com o meu partido. Defendo os mesmos princípios políticos que aprendi, com coerência. Repito, não tenho motivos para deixar um partido que trabalhei duro para construir?. Sobre o seu futuro partido, promete só falar depois de definir a situação com o PT. Histórico Heloísa Helena era militante do PCdoB. Depois da campanha de Lula para presidente, em 1989, se filiou ao diretório municipal/Maceió do Partido dos Trabalhadores. Na ocasião, era professora do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), membro do Sindicato dos Enfermeiros. A sua ficha de filiação fora abonada pelo então presidente do diretório municipal, Ricardo Coelho - hoje delegado Regional do Trabalho. ?O PT de Alagoas foi fundado em 1980, por Tutmés Ayran, Pedro Luiz, Zé Gomes, Adelmo dos Santos, Mário Anabuke e outros companheiros. Heloísa entrou 10 anos depois, quando o partido estava estruturado?, lembrou Coelho. Heloísa ganhou projeção em 1992 quando foi vice na chapa de prefeito do então ex-deputado Ronaldo Lessa. Em 94, o PT a lança como candidata a deputada estadual. Ela se elege. Dois anos depois PT e o PSB rompem a aliança e Heloísa e Kátia Born se enfrentam na disputa pela prefeitura de Maceió. Heloísa amarga a sua primeira derrota política. Em 98, PT e PSB se aliam novamente, agora com Ronaldo candidato ao governo do Estado e Heloísa na única vaga para o Senado. Os dois se elegem e derrotam velhos caciques da política alagoana, liderados pelos ex-governadores Divaldo Suruagy, Guilherme Palmeira e Manoel Gomes de Barros. Mas a aliança dos dois partidos durou menos de um ano. No ano passado, por pouco não aconteceu o primeiro confronto eleitoral entre Heloísa Helena e Ronaldo Lessa pela disputa do governo do Estado. A senadora não acatou a orientação do diretório nacional e de Lula de manter aliança em Alagoas com o PL, PTB e outros partidos de centro e assim justificou sua desistência de participar da eleição para o governo do Estado. A partir deste momento, ela começa a adotar uma política de oposição às orientações da direção nacional do PT. ?Há mais de um ano a senadora vem construindo a sua saída do PT. Ela não apoiou e nem participou da campanha presidencial de Lula, em seguida foi a primeira a fazer oposição ao governo e ao partido. Se não quer mais o PT, que saia?, desabafa Coelho, que lamentou a saída da ?companheira?. ?Heloísa é uma parlamentar de valor. Mas o PT não é uma entidade personalista. O partido é coletivo?, destacou Ricardo Coelho. Diretório estadual O presidente do diretório estadual, deputado Paulo Fernando dos Santos - Paulão, preferiu não fazer prognóstico. Mas avaliou que a saída de qualquer membro do PT é ruim. ?A senadora é valorosa. Mas a construção do Partido dos Trabalhadores é uma história de muitos brasileiros, quando Heloísa entrou no PT o partido já existia?. Paulão observou que o PT nasceu, em 1980, ?Heloísa era uma criança?. Destacou que ela teve uma importante participação na construção do PT de Maceió. ?Mas não dá para dizer que foi ela quem inventou a roda ou teve um papel decisivo na construção do partido?. Destacou que tão importante como a senadora tem Lula, José Dirceu, José Genoíno, Nilmário Miranda entre outros que conheceram os porões da ditadura e enfrentaram de frente o autoritarismo militar. ?Eu, Heloísa e outros companheiros mais jovens ajudamos a construir o PT. Mas não passamos pelos porões da ditadura?. Nacional No cenário nacional há certeza de que Heloísa estará fora do partido até domingo. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) diz que 50 dos 81 integrantes do Diretório Nacional do PT devem votar pela expulsão dela. Mesmo assim, acredita que até este domingo - quando acontecem reuniões para decidir o destino dos radicais - ainda é possível mudar o resultado da votação. Suplicy conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva há duas semanas, antes de ele viajar para o Oriente Médio, e relatou ao presidente o comentário do senador Pedro Simon (PMDB-RS) de que Heloísa Helena é hoje para o PT o que Teotônio Vilela representou para o País durante o processo de redemocratização. Ele pediu, ainda, generosidade de Lula para com a senadora. O presidente argumentou que foi Heloísa quem escolheu ficar contra o partido e o governo. Lula disse a suplicy que ?gostaria que ela fosse prefeita de Maceió para ver como é difícil governar?. Suplicy, então, teria respondido: ?Se ela ficar no partido, quem sabe não ganha a eleição e você tem o seu desejo realizado?. O diretório do PT no Distrito Federal (DF) apóia a expulsão dos parlamentares rebeldes. O presidente do diretório do DF, Wilmar Lacerda, argumenta que o ato será em defesa da democracia interna e da disciplina partidária. ?Estamos numa encruzilhada: ou damos agora um exemplo de disciplina, inclusive para os outros partidos, ou estaremos autorizando todos a agir por conta própria?, enfatizou Lacerda.