Política
Tapera volta a ser reduto de pistoleiros de aluguel
ARNALDO FERREIRA São José da Tapera - Os crimes de encomenda, o medo dos pistoleiros, a mortalidade infantil e o desemprego estão de volta, e de forma assustadora, a este município do alto sertão alagoano, distante 208 quilômetros de Maceió, que era uma espécie de laboratório para implantação dos programas sociais do governo FHC. Até 2000, Tapera tinha o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País e a mais alta taxa de mortalidade infantil: a cada mil crianças nascidas vivas, 47 morriam antes de completar um ano de vida. Dona dos indicadores sociais mais negativos, Tapera foi o reduto do último coronel do Sertão, deputado Elísio Maia, que morreu aos 85 anos, ?de velhice?, há dois anos, em sua fazenda, ?Torrões?, hoje com aparência de abandonada. Sem o ?coroné? mais temido, a cidade é sem segurança, sem lei, onde até mulheres são vítimas de jagunços que voltaram a dar as cartas na região. Há duas semanas, os pistoleiros mataram Waldeane dos Santos, 38, e sua filha, Valneza, 16. O crime, revoltou a população que até hoje fala sussurrando sobre os assassinatos de pessoas indefesas e pobres. As primeiras investigações e os moradores da cidade indicam que o duplo homicídio foi encomendado pela mulher de um importante comerciante da cidade. Ela descobriu que o marido presenteou a adolescente com uma bijuteria de porcelana. Para evitar que o marido tivesse um caso com a jovem, a suspeita contratou um dos pistoleiros que perambulam pela cidade para executar mãe e filha. O crime aconteceu numa região vizinha. Há uma semana, outro crime voltou a abalar Tapera. O estudante e trabalhador rural Josivan Costa dos Santos, 25, foi emboscado e morto a pauladas também por cinco pistoleiros. Josivan foi morto por vingança, porque há duas semanas brigou com vizinhos. A estudante Josivânia Costa esteve na delegacia e apontou cinco suspeitos de matar seu irmão. Mas saiu de lá revoltada: ?Tapera voltou a ser uma terra sem lei. Os pistoleiros trouxeram o terror?. Na zona rural, a seca que completa três anos e dizimou as lavouras tradicionais de milho, feijão e algodão, junto com os pistoleiros e grupos de assaltantes; infernizam a população. Alguns dos mais perigosos assaltantes de ônibus interestaduais encontraram em Tapera o esconderijo perfeito, revelou um dos líderes políticos da zona rural, Francisco Prudêncio, conhecido como ?vereador Chiquinho?. Ele foi um dos muitos moradores que citaram Elísio Maia com saudosismo. ?No tempo do coronel Elísio esses bandos de ladrões e de pistoleiros não existiam. O coronel não deixava isto acontecer. Os criminosos voltaram a assustar todo mundo?. A motocicleta, principal meio de transporte dos agricultores, é o alvo preferido da cobiça dos bandos. Os ataques dos assaltantes ocorrem da mesma forma que as ações dos pistoleiros: emboscadas em áreas da zona rural. A história da pistolagem em Tapera é antiga. Geralmente, acontecia em períodos eleitorais e ficava restrita aos grupos rivais. Nos anos 30, o bando da Lampião trabalhava para políticos que dominavam a região. Em 1985, Tapera ganhou destaque nacional depois da Chacina que ocorreu na Churrascaria Brasília, o presidente do PMDB local, João Alves, e mais dois dirigentes do partido morreram metralhados. Três militantes saíram gravemente feridos, mas sobreviveram. Em 30 de julho de 1995, o prefeito Ênio Ricardo foi fuzilado numa emboscada. A mulher, Edneuza Ricardo, não se intimidou e continuou o trabalho do marido. Hoje é prefeita em segundo mandato. O último assassinato aconteceu na quinta-feira, logo depois de a reportagem da GAZETA DE ALAGOAS deixar a cidade. Dois pistoleiros, numa moto, assassinaram o comerciante Alonso da Silva, 38. O crime aconteceu a poucos metros da delegacia de Polícia e, segundo a população, esta foi uma demonstração de força dos pistoleiros, que não temem nada. O procurador-geral da prefeitura, Jânio Cavalcante Gonzaga, na última quinta-feira, respondia pela prefeitura porque a prefeita estava em Maceió, em busca de recursos para pagamento de servidores. Ele enumerou os problemas mais graves da administração municipal. ?A violência e os crimes de pistolagem refletem bem a insegurança da cidade, que tem uma delegacia funcionando precariamente?. Destacou que, apenas no mês de outubro, cerca de 20 pessoas foram assassinadas. ?A pistolagem aterroriza todos na cidade?. O segundo maior problema de Tapera é a volta do crescimento da mortalidade infantil, admitiu o procurador Jânio Cavalcante, que concedeu entrevista ao lado da secretária municipal de Administração, Fabiana Fontes. Os cemitérios da cidade confirmam a previsão de mais de 40 mortes de ?anjinhos? entre mil nascidos vivos este ano. A secretária Fabiana Fontes acrescenta que o município recebe água tratada, da Casal, cerca de três vezes por mês. Na zona rural a água chega por meio de carros-pipa. Um outro efeito, tão danoso quanto a estiagem prolongada que provocou perda total da agricultura tradicional, é a queda estimada em 40% da receita. A arrecadação com o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef) soma, em média, R$ 800 mil. Por causa disso, a prefeitura alega não ter condições de manter o hospital municipal, que consome mais de R$ 100 mil/mês. ?Se a gente não firmar convênio com a Secretaria Estadual de Saúde, o hospital pode fechar?, prevêem o procurador municipal e a secretária de Administração. ?A prefeitura é o maior empregador. A folha tem mil servidores, a maioria ganha salário mínimo?, disse a vereadora Maria Iraldete dos Anjos (PSDB). A população depende dos programas sociais do governo federal, que ajudam quatro mil famílias. Famílias como a de ?seu? Manoel Afonso Monteiro e de dona Maria Aparecida, que dos 15 filhos que tiveram, restam oito. Os outros sete morreram de fome. O casal recebe R$ 50 do ?Fome Zero?. ?Seu? Francisco Vieira de Oliveira, oito filhos, há dois anos não colhe nada na lavoura. ?A água que bebemos vem dos açudes. Recebo R$ 30 de ajuda do governo. Se não fosse isso, mais uma das nossas crianças tinha morrido na seca deste ano?. O município espera que o governador Ronaldo Lessa leve para lá o programa do leite, como prometeu. O programa vai distribuir 500 litros de leite às famílias que ainda não fazem parte dos programas federais. SÃO JOSÉ DA TAPERA População: 27.608 habitantes, 20 mil moram na zona rural. Eleitores- 16.022 mil. Distância de Maceió ? 208 quilômetros. Economia: Produção de milho, feijão e algodão e repasses. IDH- Subiu cinco posições do último lugar que ocupava até 2000.