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“Lula est� deslumbrado com o poder e o PT despetizou”

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ARNALDO FERREIRA O Lula está deslumbrado com a Presidência da República. Suas viagens internacionais têm dois objetivos: vender o Brasil como um mascate e meramente pessoal. Quem afirma isso é um jornalista com mais de 50 anos de profissão e dono de um currículo político e literário como poucos brasileiros. Sebastião Nery garante que o PT amarelou, perdeu o discurso e considera a senadora Heloísa Helena como ?Heroísa?. Nery, com 20 anos, começou a trabalhar como jornalista; com 22 já era correspondente em Moscou. Viajou o País inteiro em campanhas de JK, em 55; de Lotti, em 60; Ulisses Guimarães em 73; na Campanha das Diretas em 84; de Collor em 89. Nesta entrevista à GAZETA DE ALAGOAS faz crítica a Bush e Lula. - O senhor começou sua história no jornalismo brasileiro em 1955? - Você falou de 1955, isto me traz boas lembranças. Esta foi a primeira vez em que saí do Brasil. Em junho de 55, a Força Aérea da Argentina bombardeou Perón, então fui a Buenos Aires, na minha primeira viagem internacional, cobrir a queda de Perón. Quer dizer, comecei o jornalismo na desgraça (risos). - O jornalismo brasileiro sobrevive da desgraça e isto não mudou? - Nós precisamos entender que a notícia é mais sinônimo da desgraça, do que de bem-aventurança. Quanto mais a crise é grave mais é notícia. - O poder não consegue viver com essa realidade do jornalismo e sempre tende a abafar as crises... - O poder tende a abafar porque quer que as coisas sejam mais tranqüilas. A sociedade nunca é tranqüila. De repente, explode uma crise, ninguém sabe de onde vem e aí o poder tem de enfrentar a crise. O poder geralmente pensa que liquidará com a crise, o País que está dentro da crise sabe que vai sofrer muito com os efeitos. - Por exemplo? - Imagine como deve estar a cabeça dos iraquianos. De repente um ditador, que a maioria iraquiana apoiava e 40% odiava, é preso de forma humilhante. Depois de ele comandar uma operação de guerra desastrada se entregou daquele jeito. Imagine o que o povo não está pensando. - Saddam vivia a ilusão do poder? - Acredito que, no fundo, Saddam estava pensando que se ficasse no Iraque poderia enfrentar resistência; quem sabe até de repente o Bush poderia enlouquecer, dar um tiro na cabeça e assim Saddam voltaria ao poder. Isto é a ilusão do poder. - Já esteve no Iraque? - Duas vezes. Estive lá interessado em estudos e pesquisas sobre os assírios, babilônios, medas e persas e tal...,fiz algumas matérias... Acho que aquele povo jamais engolirá os norte-americanos. - Como o senhor analisa o presidente Lula nestas viagens internacionais querendo mostrar um país moderno, mas que internamente não consegue fazer sequer a reforma agrária? - O problema do Lula é duplo: primeiro, acho correto que o presidente do Brasil fique viajando para ser o mascate do País. Mas quem conhece o Lula como eu conheço, desde 1976, sabe que por trás disso há uma coisa muito perigosa, que é uma coisa terrível de dizer mais precisa ser dita: ?A senzala não resiste ao perfume da casa-grande?. O Lula está num processo de deslumbramento pessoal. - Há risco de o governo Lula não completar dois anos? - Não. Isso não. O que estou dizendo é que o governo pode explodir e chegar a nada. - Como? - O Lula está absolutamente deslumbrado. O deslumbramento é tanto que ele não viaja pensando no Brasil. Viaja pensando nele. - Exemplifique? - Ele acha que a história tem o dever de punir a miséria que viveu em Garanhuns, a miséria que ele passou em Santos, a miséria que ele viveu em São Paulo. Acho fantástica a biografia do Lula. Mas ele não pode fazer da biografia um estandarte para cobrar do País um preço por isso. Lula precisa colocar os pés no chão, pensar mais no País e menos nele. - A oposição diz que este é o terceiro governo de FHC é isso? - Sim. O Lula ainda não começou a governar. Vai começar no dia primeiro de janeiro. Espero que comece bem. - Este é mais um governo neoliberal do País? - Este governo é extremamente neoliberal. O Antônio Pallocci (ministro da Fazenda) é o homem da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). Ele é médico, mas está no ministério para cumprir as metas e todo o roteiro da Febraban. O Pallocci é um Mailson da Nóbrega (ex-ministro da Fazenda do governo Sarney) com um pouquinho mais de caráter. Só isso. - O PT também mudou? - PT foi vermelho no começo. Depois, no processo desta última campanha, amarelou. Isto ficou claro com aquela carta aos brasileiros. - Mas este não é jogo da política eleitoral? - Hoje, o único projeto do PT e se parecer com o PSDB. O PT despetizou totalmente. - O PT está de olho na reeleição? - Está de olho na reeleição e na eleição deles. O José Genoíno (presidente do diretório nacional do PT) só pensa qual é a eleição que vai disputar em 2006, o José Dirceu (ministro da Casa Civil) também não sabe ainda o que vai fazer. Quer dizer: todos eles estão pensando nos seus projetos pessoais. O PT, que era um estandarte, virou uma gazua, um instrumento usado para abrir portas fechadas. O medo que tenho é que diante desses fatos o Lula perca a perspectiva de Brasil. - Pelo que o senhor diz, a senadora Heloísa Helena está certa nas críticas contra o ex-partido? - Inteiramente. Heloísa é coerente. Como é que você passa 20 anos no partido defendendo os pontos programáticos, depois o partido chega ao poder e no primeiro ano os dirigentes fazem tudo ao contrário do que diziam. Por que ela teria que mudar o seu discurso? Temos de fazer uma homenagem a senadora: era preciso que aparecesse alguém e foi bom que apareceu o Chico Oliveira e esta mulher alagoana. - O que deve acontecer daqui para frente? - Vocês verão o grande número de pessoas do PT que engoliram o primeiro ano e se em 2004 o partido não mostrar seus projetos transformadores essas pessoas vão começa a vomitar. - Em 2004 pode acontecer um levante interno no PT? - Não. Não é um levante. As pessoas vão chegar a um ponto em que não vão agüentar mais. E aí eu destaco novamente o papel da senadora Heloísa Helena, neste processo todo ela foi a ?Heroísa?. - Por que Heroísa? - Ela se martirizou para enfrentar a contradição. Eu conheço bem o PT do Rio de Janeiro, apoiou Heloísa, exceto a Benedita (ministra da Ação Social, Benedita da Silva) que é outra bela deslumbrada como o presidente Lula. - O senhor ajudou o Lula de alguma forma? - Como disse, eu o conheço desde 76, fiz a campanha dele agora, apoiei, votei, mas ele me surpreendeu demais. O Lula está desbundado. - Está arrependido? - Não porque eu não iria votar no Serra (ex-ministro e senador José Serra PSDB-SP) - Por que não o Serra? - Porque eu descobri que o Serra era o candidato do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Lula é o candidato da Febraban. Como a Febraban é nossa, prefiro ser, sacanamente, nacional (risos). Eu prefiro um sacana da Febraban a um sacana do FMI. - Do jeito que vão as coisa como é que podem ficar os brasileiros? - Olha, vivemos num país fantástico. O Brasil tem uma perspectiva enorme. Acho que temos chances de começar a crescer em 2004. - Cadê o discurso do FMI? - É lamentável, mas não há mais nada. Há previsão de crescimento? - Lembram dos discursos de Lula em fevereiro e em março quando prometia que o Brasil iria crescer 3,5%? Não vai crescer nada, o crescimento deve ficar em torno de 0,3% é o que está divulgando o noticiário econômico nacional. Até 2007, a nossa economia está voltada para pagar os juros da dívida internacional. - De Juscelino a Lula a revolução para melhorar a vida dos brasileiros não veio, não virá e qual a previsão de futuro? - Não vamos ser pessimistas. Eu assisti ao discurso de Juscelino Kubitschek no dia 9 de março de 1952, lançando a pedra fundamental da cidade industrial de Belo Horizonte, onde um grupo alemão dizia que iria construir uma indústria e ali Juscelino implantou o projeto que mais tarde se transformou na cidade de Contagem, transformando Minas Gerais no segundo Estado industrial do País, assim construiu o seu projeto político, ganhou as eleições presidenciais, então fiquem certo este País não anda para trás.

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