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RECEIO ERA PREFEITO OBSTRUIR INVESTIGAÇÕES

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Marcelo Crivella chega ao presídio de Benfica para ficar à disposição da Justiça carioca
Marcelo Crivella chega ao presídio de Benfica para ficar à disposição da Justiça carioca -

A desembargadora Rosa Helena Guita fundamentou a prisão preventiva dos acusados argumentando a necessidade de preservação da ordem pública e para a conveniência da instrução criminal. Sobre o último quesito, a desembargadora afirma que Crivella e o ex-tesoureiro Mauro Macedo indicaram que “pretendem colocar todos os obstáculos à apuração dos fatos”. De acordo com a juíza, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão, o prefeito entregou o celular de outra pessoa afirmando ser seu, com a ajuda de Macedo. Na decisão, ela também desconstrói o argumento de que, encerrada a gestão de Crivella, não haveria mais risco à ordem pública. Isso porque, afirma a magistrada, “o voraz apetite pelo dinheiro público não se limitou à atual gestão” do prefeito, podendo se repetir em futuros cargos. Ela lembra que o colaborador Edimar Dantas, ex-funcionário do doleiro Alvaro Novis, afirmou que, por determinação da Fetranspor, efetuou o pagamento de propinas a Crivella quando ele era senador, em 2010 e 2012, totalizando R$ 450 mil. “Ou seja, há muito o atual prefeito recebe propinas. É possível afirmar, portanto, diante do seu propósito de permanecer na vida pública, que tal prática perdurará”, escreveu Guita. A desembargadora também afirma que os contratos firmados mediante o direcionamento fraudulento das licitações permanecem em vigor, “o que confere aos integrantes da organização a expectativa de continuarem recebendo os percentuais pactuados com os empresários a título de propina”.

RAFAEL ALVES

Na administração atual, a Riotur foi a principal área de influência do empresário Rafael Alves, pivô da investigação. O órgão é responsável por organizar o desfile no Sambódromo, espaço no qual o empresário, ligado a escolas de samba, transita com facilidade. A empresa também organiza as festas de Réveillon.

Segundo relatos, apesar de não ter cargo na prefeitura, Alves se comportava como se fosse o verdadeiro presidente da Riotur. Ele tinha uma sala na sede de empresa municipal, ficava rodeado de seguranças na pista da Sapucaí e distribuía para amigos coletes destinados aos que trabalham na supervisão do desfile. Na decisão em que autorizou as prisões, a desembargadora Rosa Helena Guita afirma que, durante a campanha de Crivella em 2016, Rafael abordou diversos empresários oferecendo vantagens em contratações junto à futura administração. Também diz que o empresário chegava ao cúmulo de dar ordens ao prefeito, “colocando-se na posição de ‘credor’ perante ele”. “Após a eleição, o prefeito Marcelo Crivella fortaleceu a posição de Rafael Alves na administração, dando-lhe trânsito livre para negociar com empresários a venda de vantagens junto à prefeitura, sempre mediante pagamento de vultosas quantias à título de propina”, escreveu na ação. A desembargadora afirma que, embora se apresente como empresário, as empresas de Rafael são inoperantes, “o que leva à conclusão de que ele vive do crime, ou melhor, da corrupção, do uso indevido da verba pública”. “O seu trabalho é arrigementar empresários interessados em vantagens junto ao setor público, propor benefícios ilegais e, uma vez ascendendo ao poder pela eleição do candidato por ele apoiado, sentar no governo, mandar no governo e viver das comissões a ele pagas pelo empresariado corrupto. É o que faz. Vive disso. Veste terno e gravata para assaltar os cofres públicos”, escreveu Guita. Rafael Alves foi doador de campanha do PRB, antigo nome do Republicanos, desde 2012. Tanto a sigla como Crivella receberam do empresário R$ 745 mil nas eleições de 2012 e 2014. Na eleição de 2016, quando Crivella foi eleito, ele não aparece como doador na prestação de contas do prefeito. Mas segundo relatos feitos à Folha, atuou como arrecadador para a campanha. Após a vitória, ganhou um afago: foi convidado por Crivella para uma viagem a Israel. Em setembro, por 24 votos a 20, a Câmara Municipal do Rio rejeitou pela quinta vez a abertura de processo de impeachment contra Crivella. Naquela ocasião, o pedido de afastamento foi protocolado pelo PSOL, com base nas investigações do “QG da propina” envolvendo Rafael Alves. No último ano, Crivella e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se aproximaram e se tornaram aliados. Os filhos Carlos Bolsonaro e Flávio Bolsonaro se filiaram ao Republicanos, partido do prefeito, que também passou a abrigar apoiadores da família. Bolsonaro e os filhos ainda não se manifestaram sobre a prisão de Crivella. Em meio a um forte déficit fiscal na administração municipal, o prefeito foi algumas vezes a Brasília pedir ajuda financeira ao governo federal. Bolsonaro apoiou a campanha à reeleição de Crivella e pediu votos para o bispo licenciado da Igreja Universal em suas transmissões ao vivo nas redes sociais. Também permitiu que o prefeito utilizasse sua imagem na propaganda eleitoral televisiva. Com a ajuda de Bolsonaro, Crivella tentou se cacifar como o principal candidato do campo conservador, mas o alto índice de rejeição que acumulava impulsionou sua derrota para Eduardo Paes, que teve 64% dos votos válidos no segundo turno. Nas últimas semanas de campanha, o prefeito radicalizou o discurso com ofensas e acusações sem provas.

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