loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
terça-feira, 31/03/2026 | Ano | Nº 6192
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Política

Política

Humberto Mendes: a “oficina do diabo”

Ouvir
Compartilhar

ARNALDO FERREIRA A antiga Cidade de Menores, que hoje se chama complexo Educacional Humberto Mendes, com mais de 30 anos de existência, ainda está longe de cumprir os objetivos de sua finalidade: ser uma instituição modelo para tirar crianças e adolescentes das ruas, garantir educação pedagógica e profissionalizante de alto nível. Com capacidade para abrigar até 60 crianças e adolescentes, a instituição se transformou numa ?oficina do diabo?. A única produção que existe em larga escala no local é o ócio. O termo ?oficina do diabo? vem dos monitores e de crianças e adolescentes internos na instituição. Eles a usam para explicar que ?a cabeça de pessoas desocupadas, ociosas, é campo fértil para aprender o que não presta?. No último dia 30, a reportagem da GAZETA DE ALAGOAS fez uma visita-surpresa ao complexo educacional. No local estavam a coordenação do complexo, monitores e cerca de 20 crianças e adolescentes. O coordenador do complexo, José Barros, e os adolescentes revelaram que atualmente 45 menores de 18 anos vivem no estabelecimento sob regime de internato. Mas qualquer criança e adolescente pode sair a hora que quiser, o portão fica sempre aberto. Crises A instituição já passou por diversas crises funcionais. Antes, abrigava crianças e adolescentes em situação de risco e menores infratores. O estabelecimento, criado para encaminhar e preparar jovens para uma vida digna, funcionava como um sistema prisional, onde havia, inclusive, ?sala de castigo? e menores torturados. ?A disciplina era imposta à base do porrete e de torturas. Entre os internos, havia pequenos bandos de jovens liderados por adolescentes mais violentos?, lembra um dos garotos que vive na entidade há mais de 10 anos e sempre fugia para escapar da violência patrocinada pelos colegas e monitores. ?Antes a Cidade de Menores era um circo de horror. Quando mudava o governo, reabriam as oficinas, melhoravam a comida, a manutenção. Mas pouco tempo depois voltava tudo à rotina, a instituição ficava abandonada?. Um antigo funcionário, que preferiu não ter seu nome publicado, lembrou que até políticos já passaram pela direção da instituição. Esses, segundo o servidor, utilizavam os poucos recursos disponíveis para manter a entidade em prol de seus interesses pessoais. Apesar da insistência, o servidor preferiu omitir a identidade do político que se aproveitou da instituição. Oficinas Para que se tornasse uma instituição modelo, os governos anteriores construíram, lentamente, oficinas de serigrafia, torno e mecânica, de eletricidade, pintura, vassoraria, padaria, artesanato, entre outras. Professores e servidores especialistas foram contratados para ensinar a crianças e adolescentes uma profissão. Há 10 anos, foi construída dentro do estabelecimento uma escola pública de Ensino Fundamental. A idéia era alfabetizar e ao mesmo tempo oferecer ensino profissionalizante, esporte e lazer aos jovens. Na teoria e no papel os projetos eram fabulosos. ?O problema começou na hora da aplicação dos recursos disponibilizados?, contam os adolescentes mais antigos. ?Às vezes, esqueciam até da alimentação da gente?. Para provar o que estavam dizendo, os meninos mostraram a situação das oficinas de mecânica, elétrica e serralharia trancadas a cadeado e alegaram que pouca coisa mudou. ?Neste momento, a gente poderia estar nas oficinas aprendendo uma profissão. Alguns de nós têm 17 anos e precisam ter uma profissão para não entrar no mundo da marginalidade?, confidenciou um adolescente, que também tem 17 anos e está apavorado com a possibilidade de sair da instituição e voltar à casa da família de sua madrasta sem profissão e sem emprego. Entre as oficinas e centros profissionalizantes, a que mais chama a atenção dos internos é a padaria. ?Antes, a gente aprendia e ajudava a fazer pão francês, pão doce e mandava toda a produção para ajudar na alimentação dos presídios, de escolas, de pessoas carentes e da gente mesmo. Há mais de um ano a padaria está nessas condições?, mostraram os cinco adolescentes. Os equipamentos da padaria são novos. Mas tudo estava empoeirado, enferrujando, coberto com teias de aranha. O pequeno módulo onde funciona a padaria estava com os vidros quebrados, o que comprova que o local estava fechado há muito tempo. Alojamentos Nos alojamentos, a imagem real do que é o complexo Humberto Mendes: camas de alvenaria, colchões velhos, faltam lençóis, cobertores, os banheiros têm graves problemas hidráulicos e a limpeza é precária, porque é feita pelos internos. Os jovens vivem mal vestidos e descalços. Na verdade, confidenciam, costumam ganhar roupas e sapatos, mas vendem para conseguir algum trocado extra. Os monitores mantêm a vigilância nos alojamentos para impedir que a droga circule e garantem que estão vencendo a batalha contra as drogas no complexo. Como não têm muito o que fazer, os jovens jogam bola, dormem até a hora das refeições ou passam o tempo vendo televisão. Ocupação José Barros, coordenador-administrador do Centro Educacional Humberto Mendes, explicou que a maioria das oficinas está fechada porque a instituição não pode desrespeitar o Estatuto da Criança e do Adolescente. ?O estatuto impede que esses jovens trabalhem em atividades de risco, mesmo que seja em curso profissionalizante. Daí, tivemos de fechar as oficinas?. Barros, no entanto, negou que a ociosidade seja a principal atividade da instituição que comanda. ?A sala de informática está funcionando. Estamos com um programa de inclusão digital para crianças e adolescente. Os mais velhos estão aprendendo alguma coisa na oficina de eletromecânica, têm aulas de judô e outras práticas esportivas?. Porém, confirmou que o número de atendidos é restrito e limitado. ?Como as oficinas estão fechadas por causa do Estatuto da Criança e do Adolescentes, só alguns têm chance de aprender alguma coisa?, disse Barros. A escola está funcionando. Mas nem todos os internos estão matriculados, por causa da rotatividade que há na instituição. Transformação O que antes era a Cidade de Menores, hoje está dividido em duas instituições que funcionam na mesma área, num espaço que fica no prolongamento da Avenida Durval de Goes Monteiro. Na frente do imóvel funciona o Centro de Ressocialização de Menores (CRM). No centro, ligado administrativamente à Secretaria Executiva de Justiça, ficam os menores encaminhados pelo Juizado da Infância e da Adolescência, que se envolveram em atividades criminais. O regime no CRM é de internamento fechado, ou seja, uma espécie de prisão para menores. Já o Complexo Educacional Humberto Mendes é uma espécie de internato que recebe crianças encaminhadas pelos pais que não têm condições de atender os filhos e as crianças encaminhadas pelos conselhos tutelares. São crianças e adolescentes em situação de risco. Boa parte delas já passou por outras instituições de assistência. O complexo é subordinado à Secretaria Executiva de Inserção e Assistência Social. O titular da pasta, Carlos Ricardo Santa Rita, explicou que o Humberto Mendes tem limitações. ?A gente não pode andar de forma contrária ao Estatuto da Criança e do Adolescentes. Portanto, o funcionamento das oficinas tem de ser planejado para oferecer aos adolescentes uma oportunidade de trabalho, não podemos explorar os jovens?. Ricardo Santa Rita assegurou que um dos objetivos do governo Ronaldo Lessa (PSB) é transformar a instituição num centro de referência que vai assistir crianças e adolescentes e trabalhar com a família desses jovens. ?Muitas vezes, o problema é a família?. O centro recebe recursos federais da ordem de R$ 3,5; no custeio o Estado gasta R$ 50 mil. ?Não medimos esforços para garantir boa alimentação, roupas, colchões?, disse Santa Rita. O governador Ronaldo Lesas, depois de conhecer o problema do Complexo Humberto Mendes, exigiu mudanças radicais no tratamento às crianças e adolescentes e no seu funcionamento. Com a ajuda de dois técnicos da Universidade Federal de Alagoas, Cláudia Malta e Edmilson Veras, o centro ganhará um projeto e será reconstruído. Os meninos vão deixar de viver em alojamentos que parecem celas, sem grades, dos presídios. Serão construídas pequenas casas-módulos, o que vai ajudar a aumentar o atendimento a 300 crianças e adolescentes. O funcionamento será em regime de semi-internato. Alguns jovens poderão passar o dia na instituição e à noite voltar para casa. As oficinas, segundo Santa Rita devem ser reabertas até junho. ?O governo não tem condições de fazer tudo sozinho. Por isso, vamos buscar parceria com a iniciativa privada, Organizações Não-governamentais (ONGs)?, admitiu Ricardo Santa Rita, ao lembrar que, além do Poder Público, a sociedade também tem responsabilidade na construção de novas perspectivas para os jovens alagoanos. Apelo Ao conversar com a maioria das crianças e adolescentes do Complexo Humberto Mendes, a GAZETA DE ALAGOAS ouviu muitas histórias tristes, de crianças que fugiram de casa porque não agüentavam as sessões de espancamento dos pais, as cenas de alcoolismo, a miséria da família. Em comum, foi possível notar a vontade de todos de aprender uma profissão e ver as oficinas reabertas. Uma das histórias mais comoventes e que sensibiliza qualquer um é a de Maximillian Correia Félix, de 17 anos. Um adolescente de poucas palavras, que precisa de assistência psicológica e alimenta o sonho de um dia encontrar a mãe. Maximillian, ou Max, como costuma ser chamado pelos colegas, tem duas certidões de nascimento. Mas não sabe quem é a sua verdadeira mãe. Ele acredita ter nascido em Maceió. Logo que nasceu, sua mãe lhe entregou a uma senhora de nome Maria Luzia Correia. Sem ter condições de criá-lo, ela o entregou a outra família. Durante anos foi criado pelo pai adotivo, Olívio Félix da Costa, que o espancava muito, e depois fugiu para morar no Rio de Janeiro. Max disse que tem irmãos adotivos, Genivaldo, Geoni e Luci, filhos de sua madrasta, Maria Luzia. ?Depois de muito sofrimento, vivi anos perambulando pelas ruas, entrei e saí de instituições filantrópicas e hoje agradeço a Deus por não aprender as coisas da rua. Agora, meu maior projeto de vida é encontrar minha verdadeira mãe. Imagino que ela deve morar em Maceió?. Max pediu ajuda às emissoras de rádio e televisão de Maceió na difícil empreitada de encontrar a verdadeira família. Além desse projeto, Max sonha com a reabertura das oficinas do complexo. ?Tenho 17 anos, preciso aprender, logo, uma profissão para ter uma vida tranqüila e arranjar trabalho. É este apelo que faço às autoridades?, desabafou, cabisbaixo e com os olhos cheios de lágrimas.

Relacionadas