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Política

“Sou mais �til na lideran�a do governo”

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PLÍNIO LINS Em 1976 e 1977, uma forte repressão política abateu-se sobre as organizações clandestinas de esquerda em Alagoas, com prisões, tortura e mortes, atingindo principalmente militantes do Partido Comunista Revolucionário (PCR), que ?caiu? quase totalmente. O Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que também tinha forte presença organizada no Estado, conseguiu sobreviver praticamente inteiro, por sua tática de ?compartimentação? (cada núcleo de militantes desconhecia os nomes, e mesmo os codinomes, que compunham outros núcleos, muito menos os endereços). Depois da onda de repressão, o PCdoB tratou de recompor seus quadros. E o primeiro novato a ser recrutado, ainda em 1977 ? como lembra o presidente do partido em Alagoas, Eduardo Bomfim, que o recrutou ?, era um jovem magro, estudante de Direito da Ufal, chamado José Aldo Rebelo Figueiredo, que se destacava na militância do movimento estudantil. No ano seguinte, numa casa em Cruz das Almas, Aldo Rebelo concluiu, com um grupo de estudantes daqui e de outros estados, o novo estatuto para a reconstrução da União Nacional dos Estudantes, a UNE de tantas tradições, que havia sido destruída e proscrita logo após o golpe militar de 1964. O congresso de reconstrução da UNE foi realizado em 1979, em Salvador, e Aldo Rebelo tornou-se secretário-geral. No ano seguinte foi eleito presidente da entidade. Mudou-se para São Paulo, onde continuou a fazer política estudantil e, depois, política partidária. Em 1988, foi eleito vereador de São Paulo pelo PCdoB. Em 1990, elegeu-se pela primeira vez deputado federal. Hoje, aos 47 anos de idade, exerce o quarto mandato consecutivo na bancada paulista da Câmara, ainda pelo PCdoB, e se tornou figura respeitada no Congresso Nacional. Com a vitória de Lula na eleição presidencial, seu nome foi freqüentemente citado para ocupar o Ministério da Defesa, com apoio declarado de oficiais-generais das três Armas, que se afinam com suas posições nacionalistas e em defesa da soberania do país, pontos que são sempre caros aos militares. Mas acabou prevalecendo o argumento de que colocar um comunista no Ministério da Defesa pareceria uma ?provocação? brasileira nas delicadas relações internacionais logo após a vitória do PT. Aldo Rebelo foi então convidado por Lula para um cargo que o coloca no centro das decisões políticas do país: a liderança do governo na Câmara dos Deputados. Firmou-se na posição e, hoje, o menino que gostava de ouvir aboios de vaqueiros no interior alagoano é homem de confiança do presidente da República. Quando sobe à tribuna, fala em nome de Lula. Mas faz questão de não romper o cordão umbilical que o liga a Alagoas. Aldo Rebelo nasceu em Viçosa, na Zona da Mata alagoana. Seu pai, José Figueiredo, era administrador de uma das fazendas do senador e usineiro Teotônio Vilela (pai), que custeou os estudos do menino Aldo quando seu pai morreu. Rebelo sempre fala do velho senador com afeto, gratidão e saudade. Agora, nas férias parlamentares, o líder do governo embrenhou-se na zona rural de Viçosa para descansar. ?Estou no meio do mato, gosto disso aqui?, diz. Só sai de lá para rápidas visitas à casa da mãe em Garça Torta, bairro afastado na orla norte de Maceió, onde mata as saudades da comida caseira e do mar alagoano. Na última sexta-feira, por telefone, de Viçosa, Aldo Rebelo aceitou interromper o descanso da política e deu à GAZETA a entrevista a seguir. - O que tem representado para o senhor, como experiência política e pessoal, o exercício da liderança do governo na Câmara? - Tem sido uma experiência positiva, uma possibilidade nova de conseguir elevar a qualidade de vida do nosso povo e a defesa dos interesses do Brasil. Com a vitória do presidente Lula e a instalação do novo governo, abriu-se um novo horizonte para o avanço das lutas democráticas e a defesa dos interesses nacionais e dos direitos da população. - A delegação de atribuições, tarefas e mesmo de poderes aos vice-líderes é uma prática nova que o senhor tem adotado na liderança do governo. Ela dá visibilidade aos vice-líderes, eles gostam disso e a bancada aprova. Mas não há risco de dispersão na linha de conduta, ou seja, de cada vice-líder fazer e dizer o que quiser? - Não, não. Todos estão conscientes de que existe uma orientação política mais geral, que é aplicada por cada um. - A entrada formal do PMDB na base de sustentação congressual do governo facilitará o trabalho da liderança? - Já facilitou. O PMDB não é apenas um aliado que consolidou a base parlamentar. Ele ampliou a base política e a base social do governo, pela história do partido, pela representatividade e pela presença nacional. Afinal, o PMDB tem uma boa quantidade de governadores e o maior número de prefeitos no País. - E o rompimento do PDT de Brizola com o governo Lula? - É lamentável. O PDT integrava esse patrimônio comum brasileiro, de forças patrióticas e democráticas que tinham um ideal comum. - Depois da vitória de Lula, o senhor teve seu nome indicado para o Ministério da Defesa, inclusive com apoio de oficiais generais das três Armas. Agora vem aí a reforma ministerial, e seu nome tem sido citado para dividir com o ministro José Dirceu as tarefas políticas no ministério. Existe, de fato, essa intenção no governo? - Que eu saiba, não. Fico lisonjeado com essa lembrança de me citarem para funções ministeriais, mas o comando político do governo está em boas mãos. Creio que sou mais útil ao governo Lula exercendo a liderança do governo na Câmara. - A reforma vai ser só para acomodar o PMDB no governo ou deverá haver um enxugamento de ministérios? - Creio que não. O presidente Lula já manifestou há algum tempo a intenção de promover a reforma, mas não disse a abrangência nem quais os ministérios que serão alvos da reforma. - O senhor é um político alagoano, com sólidas ligações com nosso Estado, mas é um deputado da bancada paulista, representa os interesses de São Paulo. Numa discussão como, por exemplo, a da reforma tributária, os estados produtores, como São Paulo (que o senhor representa), defendem a cobrança do ICMS na origem, o que lhes interessa. E os estados consumidores e pobres, como Alagoas, querem a cobrança no destino, onde os produtos e serviços são consumidos. Como o senhor se sente e se posiciona em questões como essa, que misturam aspectos afetivos e decisões políticas? - Eu penso que acima dos interesses dos estados está o interesse do Brasil. Isso contempla tanto os interesses de São Paulo quanto os de Alagoas. O governo tem consciência dos graves desequilíbrios regionais, que devem ser combatidos. Se para isso for preciso enfrentar aspectos localizados, seja em Alagoas ou em São Paulo, e contrariar interesses, no caso de São Paulo, eu assumo isso com tranqüilidade. - Como tem sido a relação da bancada alagoana com a liderança do governo em relação às demandas do Estado ? no Orçamento, por exemplo? - Tem sido muito boa, de cooperação. Eu procuro ajudar a atender os pedidos do Estado de Alagoas, como líder do governo e como alagoano. - Há condições de dar atenção especial a reivindicações de Alagoas como o Canal do Sertão, o Aeroporto, o saneamento de Maceió, o Centro de Convenções e outras obras que necessitam de recursos federais? - Temos aí também a questão da recuperação da área das lagoas Mundaú e Manguaba, que é um problema importante. Eu tenho me empenhado em dar força a todas essas reivindicações. Tenho dito aos deputados e senadores de Alagoas que vou procurar ajudar o governo federal a cumprir todos os compromissos assumidos anteriormente com o nosso Estado. São obras necessárias para todo o povo alagoano. - O senhor é o relator do projeto de lei sobre biossegurança, que inclui a polêmica questão dos transgênicos. Seu relatório já tem uma espinha dorsal? Qual é ela? - O relatório vai buscar apoio em cima de quatro princípios: a defesa da ciência e da pesquisa, a defesa da saúde e da segurança da população, a proteção do meio ambiente, e o apoio à agricultura e à economia do país em geral com base no avanço da biotecnologia. - Haverá condições de se chegar a um relatório que apazigue ambientalistas, cientistas e agricultores? - É possível, sim, e esse tem sido o meu esforço. Tanto os ambientalistas quanto os produtores rurais têm preocupações legítimas e interesses que devem ser levados em conta. - O projeto de lei, de sua autoria, que defende o idioma brasileiro contra os estrangeirismos, tem defensores apaixonados e contestadores ferozes, não raro irônicos. Em que fase de tramitação o projeto se encontra e qual a sua expectativa quanto à aprovação? - Eu estou otimista. O projeto passou por todas as comissões. Já passou e foi aprovado pelo plenário do Senado e agora só falta ser votado no plenário da Câmara. - A votação pode ser este ano? - Sim, acho que sim. - O senhor passa as férias parlamentares descansando aí em Viçosa, sua terra natal. A cidade reivindica um reconhecimento público mais efetivo do fato de que Zumbi morreu na Serra dos Dois Irmãos, em Viçosa, e se queixa de que todas as atenções culturais estão voltadas para a Serra da Barriga, em União dos Palmares, onde ficava o quilombo. Viçosa, afinal, vai conquistar esse reconhecimento? - Acho que as comemorações em União dos Palmares são plenamente justificadas; afinal a capital do Quilombo dos Palmares é a Serra da Barriga. Historicamente, não há mais dúvidas sobre a importância de Viçosa; há o reconhecimento de que Zumbi morreu aqui, nas imediações da cidade, e isso já é uma referência histórica para Viçosa. - O senhor já tentou viajar de Viçosa à vizinha Mar Vermelho, outra beleza de cidade? - Já viajei, sim. - A estrada é de barro. Talvez Mar Vermelho seja a única cidade de Alagoas sem acesso asfaltado. Haveria como conseguir uma ajuda federal para resolver o problema? - Pois é, mas Mar Vermelho não é a única. Pindoba, por exemplo, também não tem acesso por asfalto. É uma necessidade evidente, uma reivindicação legítima.

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