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Tr�s anos de seca levam 39 prefeituras ao desespero

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ARNALDO FERREIRA Os efeitos da estiagem, que completa três anos na maioria dos municípios da região semi-árida de Alagoas e avança para o Agreste, são devastadores. Agora, já são 39 municípios, cinco a mais, com decreto oficial de situação de emergência, revela a Comissão Estadual de Defesa Civil. As prefeituras e o Ministério da Integração Nacional, por intermédio do Exército, levam água em caminhões-pipa para matar a sede de mais de 300 mil pessoas que moram na zona rural das áreas castigadas. Um dos destacados cientistas do departamento de Meteorologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), professor-doutor Luiz Carlos Baldicero Molion, prevê que a redução de chuvas pode chegar até a 80% nos próximos anos. A Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), com base em depoimento dos prefeitos das áreas afetadas pela longa estiagem, revela que a agricultura tradicional do Sertão e Agreste inicia o ano no vermelho. As áreas cultivadas ano passado registraram perda total. Muitos agricultores comeram as sementes de milho e feijão distribuídas pelas prefeituras, para não morrer de fome. A Secretaria Estadual da Agricultura ainda não tem estimativa dos prejuízos no Semi-árido, mas já sabe que a situação é dramática. As comunidades indígenas, no desespero da seca, voltaram a pedir socorro, leia-se comida, para matar a fome de aproximadamente 500 famílias que vivem nas aldeias das tribos do alto Sertão. A administração do escritório da Fundação Nacional do Índios (Funai), de Alagoas e Sergipe, promete que nesta segunda-feira vai entrar em contato com o ministro da Segurança Alimentar, José Grazzeano, para tentar obter cestas básicas, a fim de atender as comunidades indígenas. O último e único socorro alimentar que chegou para os índios das áreas secas foi em novembro passado, depois que a GAZETA DE ALAGOAS veiculou uma série de reportagens mostrando o aumento da mortalidade infantil e de doenças nas comunidades indígenas vítimas da longa estiagem. Municípios O coordenador estadual da Comissão de Defesa Civil, coronel Paulo César Salles de Santana (também comandante-geral do Corpo de Bombeiros de Alagoas) acompanha a evolução da estiagem mediante relatórios técnicos semanais. ?A situação é assustadora nos povoados rurais dos alto Sertão. Nessa região, a água só chega levada por caminhões- pipa?, reconheceu o coronel Paulo César, acrescentando que o Exército ficou encarregado de coordenar a distribuição regular da água. A medida visa evitar politicagem neste período de eleições municipais e as ações dos que vivem em função da indústria da seca. A orientação de o Exército ajudar na distribuição de água vem do governo federal. O que chama a atenção do coronel Paulo César é que os efeitos da seca já chegaram a municípios do Agreste, como Palmeira dos Índios, uma região de microclima, com manchas de floresta. ?Em algumas regiões do Sertão a falta de chuvas completa três anos?, observou o coronel Paulo César. Na relação oficial encaminhada à Comissão Nacional de Defesa Civil e ao Ministério da Integração Nacional constam os seguintes municípios castigados pela estiagem e que estão em situação de emergência: Água Branca, Batalha, Belo Monte, Cacimbinha, Campo Grande, Coruripe, Carneiros, Coité do Nóia, Craíbas, Delmiro Gouveia, Dois Riachos, Estrela de Alagoas, Girau do Ponciano, Igaci, Inhapi, Jacaré dos Homens, Jaramataia, Limoeiro, Major Izidoro, Maravilha, Mata Grande, Minador do Negrão, Monteirópolis, Olho D?água do Casado, Olho D?Água das Flores, Olho D?Água Grande, Olivença, Ouro Branco, Palestina, Palmeira dos Índios, Pão de Açúcar, Pariconha, Piranhas, Poço das Trincheiras, Santana do Mundaú, São José da Tapera, Senador Rui Palmeira e Traipu. O último município a requerer decretação de situação de emergência em virtude da longa estiagem foi Belém, distante 118 quilômetros de Maceió, com uma população superior a seis mil habitantes. O coronel Paulo César explicou que a Comissão Estadual de Defesa Civil só reconhece a situação de emergência depois que o prefeito solicita uma avaliação técnica, alegando que o município enfrenta dificuldades para atender às necessidade básicas da população em função de problemas ambientais, neste caso a longa estiagem. A decretação de situação de emergência permite ao município fazer compras ou providenciar socorro com recursos próprios ou federais, dispensando procedimentos burocráticos, dentre eles licitações. ?Quando o quadro se agrava a situação de emergência passa para estado de calamidade. Isto significa dizer que o município já não consegue socorrer sozinho a população que corre risco de vida e aí a União entra para, efetivamente, garantir a sobrevivência das pessoas em suas comunidades. Nós temos municípios em situação gravíssima, mas não chegamos ao ponto de decretar situação de calamidade?, frisou o coordenador da Defesa Civil, coronel Paulo César. Índios Assim como os prefeitos pressionam a AMA e o governo do Estado em busca de socorro, os caciques e as lideranças indígenas voltaram a cobrar uma posição mais efetiva em favor das comunidades do Sertão e Agreste. No sertão alagoano vivem mais de 400 famílias distribuídas em aldeias das tribos geripancó, kalancó, katoquim, kuiupancá, kuruazu, localizadas entre os municípios de Água Branca e Pariconha, na região do alto Sertão, próximo ao Vale do Moxotó, uma das áreas mais quentes de Alagoas, que fica distante 300 quilômetros de Maceió. Nesta região, as lavouras de milho, feijão, algodão e as culturas de subsistência foram dizimadas. O solo está tão quente que até a vegetação típica do Semi-árido não suportou a alta temperatura. No Agreste estão cerca de 250 famílias das aldeias das tribos xucurus-cariri, em Palmeira dos Índios, e karopotó, no município de São Sebastião. A situação é mais grave na região sul de Palmeira dos Índios. A maioria dos açudes secou e falta emprego nas fazendas da região. Como a agricultura tradicional das aldeias indígenas (milho, feijão, mandioca) foi praticamente destruída pela seca, alguns índios estão deixando as comunidades para vender artesanato em feiras livres dos municípios dos estados vizinhos de Pernambuco e Sergipe e na maioria das grandes cidades alagoanas. A revelação é do curandeiro da aldeia ?Cafurna de Baixo? da tribo xucurus-cariri, José Francisco da Silva, pai de cinco filhos. Ele estava, na última quinta-feira, no centro de Maceió, em frente à Igreja do Livramento, comercializando cascas e raízes que usa para tratamento de doenças. ?Com a venda de casca de ipê-roxo, arueira, jatobá e murici consigo até vinte reais por dia, o que dá para ajudar no sustento de minha família, que ficou lá na aldeia?, disse o curandeiro. Quando está na capital, José Francisco tem dormida garantida na sede da Funai, localizada na Rua da Praia, na Praça Sinimbu, a menos de cinco minutos do centro comercial. Também na Funai consegue uma refeição por dia. Outro que vive da venda de artesanato nas cidades é o índio Kandaú Cardoso, casado, três filhos, da aldeia Canto também da tribo xucurus-cariri. ?Trabalho como agricultor nas fazendas dos posseiros. Mas agora, com a seca, o jeito é vender artesanato?. Kandaú, no entanto, disse que a situação é mais difícil para os índios do Sertão. ?As famílias das aldeias bebem água suja, passam fome e tem muita gente doente, fraca por causa da seca?. O administrador em exercício da Funai Alagoas e Sergipe, José Heleno de Souza, assegurou estar atento ao drama das tribos do Sertão e Agreste e prometeu que nesta segunda-feira volta a entrar em contato com a professora Mônica Rodrigues, assessora do ministro José Grazzeano, quando pretende cobrar socorro alimentar para as famílias indígenas. ?Já mantivemos contato com a assessora do ministro Grazzeano. Ela deverá nos informar sobre quando chegam mais cestas básicas para tribos da região atingida pela estiagem prolongada?. A última ajuda alimentar que o Ministério da Segurança Alimentar enviou para Alagoas foi em outubro passado. Cerca de 2,600 famílias das tribos de Alagoas receberam 2.650 cestas básicas. Havia uma promessa de chegar mais alimentos até dezembro. Mas a Funai garante não ter recebido nada de Brasília. Dessalinizadores Há cinco anos, o professor-doutor Luiz Carlos Baldicero Molion montou no Sertão e Agreste equipamentos dessalinizadores (que retiram o sal da água salobra) que têm custo estimado em R$ 98 mil. O equipamento tem capacidade de produzir água potável de baixo custo, retirando o sal da água encontrada em abundância no subsolo do Semi-árido. A idéia era acabar com a dependência dos carros-pipa dos políticos que se aproveitam da indústria da seca para manter seus currais eleitorais. A tecnologia foi espalhada pelo Nordeste, mas terminou desprezada. Hoje, estima-se que três mil equipamentos se encontrem abandonados nos municípios nordestinos, cerca de 200 deles em Alagoas. Molion considerou o caso grave porque o fenômeno ?El Ninho? acontece no pacífico e provoca a redução de chuvas em fases ciclícas, como no período de 1992/93 e 97/98. ?Estamos para viver uma nova fase crítica. A redução de chuvas pode ser de 70% a 80% e aí os dessalinizadores podem abastecer a população com água boa e de custo reduzido?, acredita o cientista. Além disso, o Programa Fome Zero planeja instalar um milhão de cisternas no semi- árido nordestino, para reduzir os efeitos da falta de água potável. As cisternas terão capacidade para armazenar 16 mil litros (16 metros cúbicos) com o custo total de R$ 1,6 mil por unidade. O professor Molion defende que os governos recuperem os três mil dessalinizadores para fornecer a água necessária para manter os reservatórios (cisternas) cheias, evitando prejuízo maior. ?É um dever cívico dos governos se empenharem para recuperar esses equipamentos (dessalinizadores) e capacitar pessoal para que os mantenham em atividade. O sistema, se bem mantido, é barato, confiável, produz água boa nos anos de seca e cumpre seu papel social no Sertão?, afirmou Luiz Carlos Molion. AMA A presidenta da Associação dos Municípios Alagoanos, prefeita do município de Feliz Deserto, Rosiana Beltrão (PSB), por intermédio de sua assessoria, divulgou na sexta-feira que a situação é dramática no Sertão. ?Na maioria dos povoados não tem mais água. Tem gente bebendo água contaminada para não morrer de sede. A bancada federal precisa ajudar os prefeitos e as populações do Semi- árido?, apelou. Rosiana Beltrão vai convocar, a partir de segunda-feira, os parlamentares da bancada federal e deputados estaduais do Sertão para, com os prefeitos, discutirem o problema da seca. Ela quer ir a Brasília na próxima semana pedir socorro aos ministérios da Segurança Alimentar e da Integração Nacional. ?Os prefeitos do alto Sertão estão desesperados. Eles gastam parte de suas receitas comprando alimentação básica para atender os flagelados e não conseguem suprir a grande demanda de pessoas necessitadas?, explicou a presidenta da AMA. Na região da bacia leiteira e parte do baixo Sertão, a líder dos 101 prefeitos observou que os pequenos produtores estão perdendo parte da criação de gado. ?Os açudes estão secos e o pouco de palma forrageira (uma espécie de cacto que serve para alimentar o gado em período de longa estiagem) não é suficiente para abastecer os pequenos criadores?, alertou Rosiana Beltrão.

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