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Sete mil fam�lias esperam pela terra prometida

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ARNALDO FERREIRA Frustração. Este é o sentimento que toma conta da maioria das famílias que vive em barracas de lona, nos 77 acampamentos dos movimentos sociais de trabalhadores rurais sem-terra de Alagoas. Famílias como a de ?seu? José Izídio da Silva Filho, 41, casado, que vive com a mulher e oito filhos num pequeno barraco de palha, de apenas um cômodo, sem banheiro e com cozinha improvisada, no acampamento ?Bolo?, às margens da BR-104, entre os municípios de Branquinha e Murici, distante 50 quilômetros de Maceió. Há mais de cinco anos ?seu? Izídio sonha com um lote da reforma agrária para plantar milho, feijão, macaxeira, inhame, criar galinhas, porcos. ?O dia em que eu tiver terra para plantar vai acabar o sofrimento e a miséria da minha família. Isto eu garanto?, sustentou o trabalhador rural, que conversou com a GAZETA DE ALAGOAS sentado num pequeno banco em frente ao seu barraco e cercado pela mulher e os filhos. ?Agora, que o doutor Mário Agra deixou o Incra a gente acha que o sonho da terra voltou a ficar distante?, lamentou Izídio, um dos coordenadores do acampamento ?Bolo?, administrado pela direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST/AL). Ele é um dos primeiros acampados. Antes de se agrupar às 240 famílias do seu acampamento, em 1998, ele trabalhou como cortador de cana nas fazendas da Zona da Mata. ?Colocava a mulher e até os filhos pequenos para cortar cana. Mesmo assim, a gente passava necessidade, vivia na miséria. O dinheiro que ganhava não dava para nada?. Em cinco anos de acampado, conta que viveu momentos difíceis: ameaças de pistoleiros, intimidações dos fazendeiros, sem ter trabalho para obter o mínimo de comida. Mas o sonho de ganhar a terra o anima a continuar no acampamento. ?No ano passado, nosso ânimo voltou porque o supe-rintendente do Incra [Mário Agra] prometeu assentar mais de mil famílias. Já estamos em janeiro e nada de terra?. Nem assim Izídio pensa em desistir ou sair do acampamento. Com relação à fome, revelou que a situação melhorou. Ele e a maioria das famílias acampadas estão inscritos no programa ?Fome Zero?. A inscrição feita pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária de Alagoas (Incra/AL), garante, mensalmente, os alimentos básicos para manter a família. MST Segundo dados estatísticos do MST, em seus acampamentos espalhados pelos 102 municípios há 5.800 famílias esperando que o processo de reforma agrária saia do papel. As famílias não escondem que acreditam nas promessas de Lula. Uma das coordenadoras estaduais, Terezinha Vital da Silva, salientou que a decisão do engenheiro Mário Agra de entregar o cargo gerou um clima de expectativa e apreensão. ?Ao que tudo indica, o ano de 2004 será de lutas e de pressão para que a reforma agrária seja tocada como quer o presidente Lula?, disse Terezinha. CPT Depois do MST, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) é a segunda força da luta dos movimentos agrários alagoanos. A organização é ligada ao setor progressista da Igreja Católica, que prega a Teoria da Libertação e em seus acampamentos tem pouco mais de 1.500 famílias em barracas de lona e palha. O movimento no Estado completa 10 anos e sua maior concentração fica entre os municípios do Litoral Norte e Zona da Mata. O coordenador estadual da CPT, Carlos Lima, contrariando os números oficiais do Incra/AL, que apontam 7.800 famílias acampadas, diz que mais de 10 mil famílias nos movimentos sociais vivem acampadas e esperam pela reforma agrária. ?Nosso sentimento com relação à política agrária do presidente Lula é de frustração?. Ao justificar seu ponto de vista, disse que ?em 2003 a reforma agrária fracassou?. Considerou que a saída de Mário Agra causará um enorme prejuízo ao processo. ?Mário Agra passou o ano de 2003 identificando os problemas, desarticulando os entraves, buscando áreas. Agora, até que se defina outro nome para substituí-lo, o processo ficará paralisado novamente?. Incra Os números oficiais do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), repassados à GAZETA DE ALAGOAS pelo Incra atestam por que da frustração dos movimentos de trabalhadores sem-terra. O presidente Lula e o ministro Miguel Rosseto, do Desenvolvimento Agrário, prometiam assentar 60 mil famílias, em todo o País. Com o contingenciamento (contenção) dos recursos federais para investimentos, o governo federal refez seus planos agrários e prometeu assentar 35 mil famílias. E fechou o ano assentando 13 mil famílias. Alagoas também sentiu o impacto do contingenciamento. Agra assumiu prometendo assentar 1.682 famílias. Mas só conseguiu assentar 170 famílias no Projeto Serrana, no município de União dos Palmares. Detalhe: o projeto Serrana foi criado em 2002. Agra garante que entregou o cargo por divergências com a sua tendência do PT: Democracia Socialista; e preferiu não atacar a política agrária de Lula. O superintendente em exercício do Incra, Jorge Tadeu, disse que a administração Mário Agra deixou 111 imóveis vistoriados. ?A maioria desses imóveis terá o desfecho de assentamento agora em 2004 e 2005?. O projeto ?Bebida? foi o único elaborado e concluído na gestão de Agra. Fica também em União dos Palmares e neste momento o processo está na fase de seleção de 70 famílias. ?O Incra tem um quadro de 66 servidores. Mas a maioria atua em atividades burocráticas. Para acelerar a reforma agrária, o órgão precisa ampliar seu quadro de agrônomos e cartógrafos para se juntarem aos quatro técnicos de agronomia e dois de cartografia, todos de nível médio?, revelou Jorge Tadeu. No ano passado, o Incra teve um orçamento de R$ 18,7 milhões. Deste montante, R$ 10 milhões deveriam ser aplicados na aquisição de imóveis para fins de reforma agrária. Mas o dinheiro não foi aplicado. Hoje, os 66 servidores do Incra também vivem um clima de expectativa e de frustração, com a saída de Mário Agra.

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