Política
Alian�a que ap�ia Lula deveria ser feita tamb�m em Alagoas
RODRIGO CAVALCANTE Em 1977, o advogado alagoano Eduardo Bomfim ? na época já um líder de esquerda respeitado no Estado ? resolveu recrutar para a militância política um jovem acadêmico de Direito que dava seus primeiros passos na política estudantil. Foi assim que o viçosense Aldo Rebelo, atual ministro da Articulação Política e Relações Institucionais do governo Lula, entrou para o PCdoB. Na última quinta-feira, 27 anos depois, os papéis se inverteram e foi a vez de o atual ministro recrutar o secretário estadual da Cultura Eduardo Bomfim para assumir o cargo de secretário-executivo no ministério. Na prática, Bomfim será o segundo homem de uma pasta que tem por missão consolidar a união das forças políticas que dão sustentação ao governo, conciliando os interesses partidários do PT, PPS, PCdoB, PSB e, mais recentemente, do PMDB. ?Nossa função é delinear as estratégias políticas que viabilizem o projeto do governo Lula?, diz Bomfim, reconhecendo a dificuldade de aglutinar forças que, em seu próprio Estado, continuam desunidas. - Qual será, na prática, sua função no ministério? - Além de ser a pessoa que representará o ministro em viagens e eventos, meu papel, como secretário-executivo, será o de ajudar a traçar as estratégias políticas que darão suporte aos projetos do governo Lula. Cabe ao ministério conseguir articular as forças do Congresso Nacional, do Poder Judiciário e da Federação para fazer valer a linha política pensada pela presidência. Afinal, não há como dissociar a política de todas as áreas de atuação do governo. - Quando o senhor soube que ocuparia o cargo? - Dois dias antes da posse do ministro Aldo Rebelo, ele havia me dito que estava pensando no meu nome para o cargo. Mas, oficialmente, o convite foi feito na última quarta-feira. - E quem assume a Secretaria de Cultura do Estado? - A Secretaria de Cultura ficará com o PCdoB. Ao conversar com o governador Ronaldo Lessa, que soube do convite na viagem que fizemos juntos para a posse do ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, ele elogiou o trabalho realizado na secretaria. Mas também disse que ficava feliz com a minha indicação. Agora, cabe ao PCdoB definir o nome de quem vai dar continuidade ao trabalho no Estado. - Quais os nomes mais cotados pelo partido? Logo estaremos nos reunindo para tratar do assunto. Mas essa é uma decisão que tem que ser coordenada pelo presidente do PCdoB de Alagoas. O mais importante é assegurar a nossa política de inclusão cultural. Isso passa pelos projetos de democratização do acesso ao teatro, da busca do fortalecimento do nosso carnaval, enfim, da manutenção de nossa linha. - E os nomes mais cotados... - Não faltam bons nomes para o cargo. - Fala-se de Paulo Poeta, Ênio Lins... - Podemos contar com Paulo Poeta, Ênio Lins, Maria Ivone, Vinícius Palmeira, Marcelo Malta. É o partido que tomará essa decisão. - O senhor tem sido apontado como candidato a prefeito pelo PCdoB. Com o novo cargo no Planalto, seu nome ganha visibilidade. O senhor é candidato? - Desde que conquistei mais de 70 mil votos em Maceió, nas últimas eleições para o Senado, meu nome tem sido lançado como candidato a prefeito. Foram votos ganhos sem trios elétricos nem investimentos milionários. Foi então que o partido apresentou meu nome ao governador Ronaldo Lessa, que me escolheu para a Secretaria da Cultura do Estado. - O senhor, afinal, é candidato? - Desde que fui convidado pelo ministro, estou focando o meu pensamento num projeto de articulação política nacional. Agindo dessa forma, não poderia ser candidato. Seria incoerência. - O PT e o PSB andam de mãos dadas em Brasília. Em Maceió, estão distantes. Qual será a posição do PCdoB no meio desse confronto local? - Como secretário-executivo, me esforçarei para unir essas forças em nome de um projeto nacional. Ou seja: o ideal, em todo o País, seriam candidaturas de consenso entre o PSB, PT, PPS, PCdoB e PMDB. - Mas se não houver o consenso? - A partir do momento em que aceitei o cargo, minha atividade como militante político tem que levar em conta um projeto nacional. O que posso afirmar é que, em Alagoas, o PCdoB continua com o governo estadual. - Que nota o senhor daria ao governo Ronaldo Lessa? - Eu avalio o governo Ronaldo Lessa positivamente. Apesar de ter herdado um Estado quebrado e de ter que enfrentar uma crise que vem afetando o Brasil e o mundo, o governo estadual tem conseguido resistir. Eu diria que esse governo pode ser considerado bom. - De zero a dez? - Nota 8. - Como o senhor avalia a expulsão da senadora Heloísa Helena do PT? - Como tenho grande amizade pela senadora Heloísa Helena, não gostaria de fazer considerações sobre esse tema, até porque diz respeito a assunto interno do próprio PT. Mas acredito que os líderes de esquerda têm que compreender que o governo Lula teve que desarmar várias bombas deixadas pelo governo FHC. Havia um clima de terror provocado pela direita, que dizia que o governo do PT seria uma república sindicalista. O próprio José Serra dizia que, quando a esquerda ganhasse a eleição, haveria uma fuga de capitais que quebraria o País. Isso fez com que o governo tivesse como prioridade a consolidação da estabilização. Mas é fácil notar que a visão que o governo tem do papel do Estado é bem diferente da visão do governo FHC. É uma visão de Estado que quer retomar o desenvolvimento por meio do planejamento, investimento em infra-estrutura e em setores estratégicos de tecnologia de ponta. Nesse primeiro momento, o governo teve que assegurar a responsabilidade econômica, o que terminou fortalecendo uma certa ortodoxia. - Mas essa ortodoxia não veio para ficar? - O Brasil está mudando, mas essa mudança não passa apenas pela nossa política interna. Não dá mais para pensar o Brasil sem pensar o mundo. E, nessa direção, o governo tem dado passos concretos, deixando de lado a subserviência tradicional. A atual política de reciprocidade com os Estados Unidos é uma prova disso. Sem essa nova estratégia externa, o Brasil não se firma internacionalmente. A aproximação com a China, com a Índia e com o Mercosul é crucial para que conquistemos nossa autonomia. - Como um militante comunista se sente dentro do governo do PT? - Continuo sendo marxista, alguém que acredita no socialismo, mas creio que atualmente somente é possível adotarmos o keynesianismo (política econômica idealizada no século XX pelo inglês John Maynard Keynes, que acredita na possibilidade de conciliar a economia de mercado com o bem-estar social). Temos uma dívida social herdada há quatro séculos que temos de começar a saldar por meio de uma política de inclusão social. E o governo está dando passos para isso. - Tanto o senhor quanto o ministro Aldo Rebelo são alagoanos. O que os alagoanos podem esperar do ministério? - Nossa tarefa em Brasília é nacional. Não se trata apenas de privilegiar um Estado, mas de pensar todo o projeto político do País. Mas é claro que, como alagoanos, podemos dar uma atenção especial aos interesses do Estado, desde que esses interesses sejam legítimos. De certa forma, um alagoano é sempre um embaixador do seu Estado. - O senhor gosta de viver em Brasília? - Como fui deputado federal, estou acostumado a viver em Brasília. No período em que fui constituinte, tive a oportunidade de conviver com inteligências de todas as tendências, como Florestan Fernandes, Afonso Arinos, Delfim Neto e Roberto Campos. A Constituinte foi um verdadeiro segundo curso de Direito em meu currículo. Por isso mesmo, guardo boas lembranças da cidade. A diferença é que, agora no Executivo, terei que ficar mais lá do que aqui. E eu sou um homem litorâneo.