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Padres entram com a for�a da f� nas elei��es

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ARNALDO FERREIRA Do altar, de olho nos fiéis e nos palanques. Esta é a política da Igreja Católica no Brasil, particularmente no Nordeste, que acompanha com preocupação o avanço dos evangélicos nos parlamentos pelo País afora. ?O padre no Interior é conselheiro, médico, parteiro, agricultor, trabalhador rural, vaqueiro, político e agora quer estar no poder para ajudar a promover as transformações sociais?, admite um dos padres mais populares do sertão e agreste alagoanos, Eraldo Cordeiro, 43 anos, 15 de sacerdócio. Ele afirma que pertence à ala de padres que quer a união da fé com o poder. Eraldo é pré-candidato a prefeito em outubro, no município sertanejo de Água Branca, sua terra natal, distante 302 quilômetros de Maceió. Apesar da popularidade, a candidatura enfrenta fortes resistências em setores da própria Igreja e, segundo o padre, é repelida pelo poder econômico dos ?coronéis? da região. Divisão Em Alagoas, os padres, até então um dos elos entre os eleitores, o poder econômico e o coronelismo, estão divididos. Um segmento quer ganhar o poder para acabar com o clientelismo, reforçar a luta pela reforma agrária e priorizar ações que se acomodam no campo da esquerda. Outra corrente quer continuar com o poder político de indicar candidatos a prefeito e a vereador que assumam compromisso com as causas que representem a hegemonia do catolicismo. Um exemplo do seguimento que exerce o poder político, sem fazer parte dele, acontece no município de Batalha, que fica na divisa entre Sertão e Agreste e tem a marca histórica do poder dos coronéis. O pároco da cidade, Jesevel Mendes, nas eleições municipais de 2000, reuniu os candidatos e definiu que Francisco José de Oliveira, conhecido como Chico Douca, seria candidato majoritário e Hermani Pereira de Melo, o vice. A maioria dos 9.432 eleitores de Batalha acatou a composição feita pelo padre, que está na cidade há 23 anos. Para a eleição deste ano, o município tem cinco pré-candidatos a prefeito: Hermani Pereira (PTC), Quinca Douca (PSB), Paulo Dantas (PMDB), Aloísio Rodrigues Melo (PDT e Adelmo Rodriges, o ?Neguinho Boiadreiro?. Mas o padre Jesevel avisa: ?Até março, vou chamar os cinco concorrentes para a gente definir a candidatura única, e fazer triunfar a paz no município?. A região vive sob o risco de confronto entre as famílias que disputam o poder local. Situação semelhante a do padre Jesevel acontece na maioria dos 102 municípios alagoanos. São os padres que indicam os candidatos da Igreja a prefeito e a vereador. Os indicados geralmente se elegem. Porém, há uma facção da Igreja que discorda do método e alega que isso termina favorecendo a manutenção do coronelismo, pela relação com os políticos profissionais. Como um partido, a Igreja está dividida entre fazer ?coligações? e ter candidatos ?próprios?. Nesse último caso, religiosos defendem abertamente o lançamento de padres candidatos a prefeito e a vereador. Este lado que defende padres exercendo mandatos é o setor progressista, ligado ainda à ?Teologia da Libertação?, o movimento que atormentou a Igreja conservadora no Brasil durante muitos anos. O padre Eraldo é um dos principais representantes dessa tendência. Eraldo, na verdade, já está no poder e hoje ocupa o cargo de secretário do Sertão do governo Ronaldo Lessa (PSB). No meio das disputas políticas que envolvem a Igreja e o poder econômico estão os 2. 822.621 alagoanos. A maioria se diz católica. Política e fé No interior do Estado, os alagoanos não escondem a devoção ao Padre Cícero, hoje uma espécie de santo popular, ainda não reconhecido por Roma. A fé deles é flagrante nas residências, nas sedes dos poderes das cidades e nas fazendas. O ?milagreiro e padrinho? de ricos e pobres, duas vezes prefeito e vice-governador do Ceará, tem seu lugar cativo nas orações e inspirações de quase todos os 152 padres que se dividem nas três dioceses: a de Palmeira dos Índios, que congrega as igrejas do Sertão e Agreste, além de reunir 40 padres sob a liderança de Dom Fernando Iório; a de Penedo, que administra as paróquias do Baixo São Francisco e Litoral Sul, com mais 40 padres, coordenada por dom Valério Breda; e por fim a Arquidiocese de Maceió, que congrega as paróquias da Grande Maceió, Litoral Norte e Zona da Mata, tem 72 padres e está sob o comando do arcebispo dom José Carlos Melo. Raros são os padres que contestam a ação política e de fé que Padre Cícero ainda exerce sobre os nordestinos e particularmente os alagoanos. Como Padre Cícero, só Frei Damião de Bozzano tinha o mesmo trânsito fácil entre a fé e a política eleitoral. A eles pertence a devoção dos milhares de romeiros que vivem também na capital de Alagoas. Romeiros No Sertão e Agreste, os romeiros (seguidores do Padre Cícero Romão) vêem o padre Eraldo como um conselheiro fiel, um devoto do Padre Cícero que está sempre ao lado das beatas, dos agricultores, dos trabalhadores rurais e dos vaqueiros. Mas na hora em que são questionados sobre eleições municipais, os romeiros demonstram prudência em revelar suas preferências. Eles confirmam as ligações com os políticos e fazendeiros, que desde a colonização dominam a região. São esses supostos ?líderes? os donos dos caminhões-pipa, que ?ajudam? famílias com doações de cestas básicas nos períodos de longa estiagem e alugam caminhões ?pau-de-arara? para levar caravanas de romeiros até Juazeiro (CE) nas festas de padre Cícero. Eles também doam recursos financeiros e animais (vacas, porcos, bodes) para os leilões das paróquias. Nos períodos eleitorais, em troca, os ?benfeitores? indicam suas preferências políticas, que raramente são contrariadas. Um dos romeiros de Padre Cícero, o trabalhador rural Reginaldo Cícero dos Santos, 28, confirma que muita gente votou em padre Eraldo quando ele foi candidato a deputado estadual na eleição de 2002 e ficou como primeiro suplente do PT. ?Eu mesmo gosto muito do padre Eraldo. Mas não votei nele porque minha família tem compromisso político em Mata Grande?, explicou. O compromisso é com um conhecido político que anualmente oferece caminhões para transporte de romeiros. Outro devoto, Cícero José dos Santos, 68, agricultor, disse que votou num deputado sertanejo reeleito. ?Minha mulher e dois filhos votaram no padre Eraldo na eleição de deputado. Só não votei nele porque dei a palavra ao deputado de que votaria na sua reeleição, e cumpri o compromisso?. A beata Gildete Maria de Menezes, 53, não consegue esconder a emoção e as lágrimas quando expressa sua opinião sobre a carreira política de padre Eraldo, que agora quer ser prefeito: ?Ele é tão parecido com meu ?padinho Ciço?. É nosso conselheiro, nos ensina a palavra de Jesus e do bem. Os pobres, os agricultores, todo mundo entende suas missas?, disse Gildete. ?Acho bom que ele entre na política. Eu moro em Pariconha, mas tenho família em Água Branca e vou pedir a minha família para ficar com padre Eraldo?, acrescentou. Nem todos pensam assim. O romeiro Manuel dos Santos de Almeida, 53, de Água Branca, gosta do padre Eraldo, mas observa: ?Lugar de padre é na Igreja e nas comunidades. Não pode se meter na pouca-vergonha da política?.

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