Política
Dom Val�rio: Lugar de padre � na Igreja
ARNALDO FERREIRA O bispo dom Valério Breda, da Diocese de Penedo, que congrega as paróquias dos municípios do Baixo São Francisco e 40 padres da região, é radicalmente contra padres se filiarem a um partido político e disputar mandatos eletivos. Diz estar convencido de que lugar de padre é na Igreja e longe da política partidária. ?A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se posiciona claramente contra essas candidaturas, um tanto esdrúxulas. Cada um deve atuar dentro do seu âmbito. O padre não é talhado para fazer opções partidárias. A menos que se retire da opção religiosa?. Caso o padre não queira se retirar da vida religiosa, dom Valério defende que ?o bispo da diocese a que pertence o padre candidato deve demiti-lo?. Ao condenar o envolvimento de padres na disputa eleitoral, dom Valério avaliou que ?uma opção partidária significa se aliar a uma parte da população e colocar a outra parte na oposição. Isto bate de frente com a missão própria do religioso?. O bispo de Penedo explicou que a missão do pároco é ajudar a formar consciências e sustentar o caminho diário do povo cristão. ?O padre tem uma ação política, mesmo sem ser partidária, porque tem em suas mãos o poder da administração, o poder que vem da missão sacerdotal. Com este poder, ele pode transformar a sociedade muito mais que qualquer tipo de mandato de prefeito ou deputado?. Ao analisar a situação de padres que se elegeram deputados em vários estados, dom Valério disse que ?muitas vezes o padre político, ao invés de converter a política se deixa subverter por ela. Este é um péssimo sinal. Quando se envolve com o poder político, este poder começa a dominar a pessoa e ela não consegue mais viver na liberdade, longe da política partidária ou eleitoral?, acredita. Para deixar sua diocese afinada com o que diz ser a recomendação da CNBB, dom Valério pretende, até meados de fevereiro, realizar um encontro com os 40 padres das paróquias para repassar as orientações superiores. ?Nós não fazemos opção partidária?. Porém, o bispo faz política. Ele confessou que vai orientar os padres a cobrar dos candidatos de suas paróquias ?o respeito à democracia, o legítimo debate político, sem baixaria e ataques pessoais?. O bispo de Penedo disse que alguns candidatos da região do Baixo São Francisco o procuraram em busca de apoio e orientação. ?Nós discutimos certos projetos com alguns candidatos, sempre em favor da opção dos mais necessitados. A gente defende a tese da CNBB de os políticos construírem um mutirão para superação da miséria?. Aos católicos, o bispo recomendou: ?Os fiéis não devem ceder à tentação de um certo cansaço. Quando se luta, os resultados não são conforme o esperado. A esperança deve ser sempre renovada?. Ele quer que os padres cobrem dos candidatos compromissos que gerem trabalho e renda, e não soluções paliativas ou assistencialistas. Os padres, afirmou, devem continuar a defender a importância de cada voto no processo eleitoral. ?A Igreja, há anos, alerta o povo para não vender o próprio voto. O voto é um bem que se identifica com a própria pessoa. A pessoa não pode se vender, se transformar numa mercadoria?. Além disso, o bispo defende a necessidade de os fiéis ficarem atentos e lutarem para que as eleições municipais de outubro aconteçam com lisura e transparência entre os diferentes candidatos. ?Os políticos devem permitir que aconteça o espetáculo da democracia?. Aos eleitores recomendou: ?O povo tem de analisar a vida, a postura e a prática de cada um dos candidatos a prefeito e a vereador de seus municípios, para escolher o melhor?. Padre candidato Nem todos os bispos pensam como dom Valério Breda, que é contra a candidatura de padres no processo eleitoral. Foi o que disse à GAZETA, na última quinta-feira, em Delmiro Gouveia, o padre Eraldo Cordeiro. Ao resolver disputar a prefeitura de Água Branca pelo PSB, ele diz ter recebido uma bênção forte: ?Minha candidatura é abençoada pelo bispo de minha Diocese, dom Fernando Iório. Ele também é um dos religiosos que me inspiraram a fazer mais pelo povo do Sertão, por intermédio da política partidária?. Dom Fernando Iório, bispo de Palmeira dos Índios, tem sob sua administração as paróquias do Sertão e Agreste e 40 padres, dentre eles o próprio Eraldo, pároco de Delmiro. A GAZETA tentou falar com Iório, porém sua assessoria disse que ele estava doente e impedido de dar entrevista. Já padre Eraldo sabe que uma parte da Igreja não concorda com sua decisão de disputar a Prefeitura de Água Branca. ?Prefiro evitar essas discussões internas por meio da mídia?. Entretanto, revelou que em Alagoas ?a nossa Igreja, historicamente, sempre foi mais conservadora?. Ao citar episódios recentes, disse que nos anos 60 sua Igreja evitou que Francisco Julião entrasse no Estado com a Liga Camponesa. ?A Igreja se antecipou à luta agrária e, para evitar que a Liga Camponesa entrasse em Alagoas, abriu as sacristias para que fossem criados os sindicatos dos trabalhadores rurais?. Mas a Igreja, segundo Eraldo, só conseguiu conter a luta agrária até 1980. ?Junto com os padres italianos Aldo, de Colônia Leopoldina, e Luiz Cabral, da Zona da Mata, criamos a Comissão Pastoral da Terra (CPT), hoje coordenada por Carlos Lima?, revelou. Lima não apóia o padre Eraldo na política, apesar de dizer que gosta do fundador da CPT. ?Durante muitos anos a Igreja se dedicou a ensinar, a preparar as classes populares a rezar e a fazer caridade. Se manteve conservadora e nunca reagiu contra os latifúndios, que conseguiam esta passividade com doações generosas para as paróquias. As coisas funcionavam como traçou Thomaz de Aquino (o teólogo da Igreja da Idade Média) dentro da teologia da essencialidade: ?As coisas são como são?. Mas há 20 anos as idéias começaram a mudar?, acredita Lima. ?A própria Igreja passou a cobrar transformações, distribuição de renda, justiça social e vamos ter que ocupar espaço para ajudar nesta transformação?, defendeu. Padre Eraldo, além de ser um pesquisador de Padre Cícero, diz que é um devoto fiel. ?Padre Cícero foi o primeiro a defender uma Igreja Católica Nordestina, preocupada com o perfil do sofrimento da região, da seca. Ele era profundamente inteligente, enfrentou as grandes secas do Ceará e desafiou a Igreja?. Eraldo disse, também, que Padre Cícero não se prendia só à questão religiosa. ?Estava ligado às questões sociais, contra os latifúndios e fez a reforma agrária com as terras que ganhou?. Militância Até 2002, padre Eraldo era filiado ao PT. Foi candidato a deputado estadual e conquistou 17.600 votos. Teve como principal cabo eleitoral a senadora Heloísa Helena (sem partido), que participava dos seus comícios e caminhadas pelo Sertão. Recentemente, ele se filiou ao PSB para se candidatar a prefeito de Água Branca. ?No Sertão, as pessoas não se preocupam com o partido. O que importa aqui é a pessoa e sua capacidade de chegar ao povo. As pessoas olham para o candidato?, ensina o representante do Senhor. Apesar de ter vários seguidores no município onde quer ser prefeito, o padre sabe que não será fácil vencer a eleição na sua terra natal. ?Vou enfrentar um dos homens mais ricos do Sertão, o prefeito de Delmiro Gouveia, Luiz Carlos Costa (Lula Cabeleira), que também quer disputar a Prefeitura de Água Branca?, reconheceu Eraldo, que concedeu entrevista defronte da sua paróquia, encostada à Prefeitura de Delmiro. ?Cabeleira? O prefeito Luiz Carlos Costa, além de ser um dos homens mais ricos do Alto Sertão, é considerado forte eleitoralmente e tem grande prestígio entre os parlamentares das bancadas federal e estadual. O governo do Estado também prefere tê-lo como aliado. Lula Cabeleira se apresenta com correntes e medalhas grossas de ouro enroladas ao pescoço e nos braços, onde mantém seu relógio de ouro maciço. Seu telefone não pára. Do outro lado da linha, geralmente, há políticos em busca de algum tipo de apoio. Sua filha, Ziane Costa, considerada seu braço direito nos negócios, é sua sucessora política e em dois mandatos já foi presidente da Assembléia Legislativa. Hoje, compõe a Mesa Diretora e comissões parlamentares. A reportagem encontrou o prefeito de Delmiro em sua fazenda, que fica na entrada da cidade e é protegida pelo quartel da Guarda Municipal, que fica, literalmente, na sua porteira. O prefeito fala pouco e geralmente usa frases curtas nas entrevistas. Mas confirmou que em outubro vai enfrentar dois padres: ?Em Água Branca, vou disputar contra o padre Eraldo. Dizem que ele é candidato. E aqui em Delmiro vou tentar eleger meu sucessor Marcos Costa (PMDB), que disputa com o padre (na verdade ex-padre) Manoel Euclides, do PT. Acho que o povo está do nosso lado; estou tranqüilo?, garantiu. Em Delmiro, Lula estava filiado ao PMDB, trocou de partido e disputará em Água Branca pelo PP.