Política
O deputado disse: n�s vamos morrer
O motorista José Maria Ferro tem 39 anos, é casado e pai de um filho de 15 anos. No último domingo à tarde, ele recebeu a GAZETA DE ALAGOAS para contar sua versão da emboscada. Ocupando o apartamento 418 do Hospital Arthur Ramos, José Maria esteve o tempo todo acompanhado dos parentes. No fim da tarde, um grupo de amigos e familiares fez uma corrente de oração no quarto, todos de mãos dadas. Rezaram pela recuperação dele e do deputado Cícero Ferro. O motorista levou quatro tiros. Um na mão direita, um no ombro esquerdo, outro no braço esquerdo e mais outro na altura do peito, do lado esquerdo, que atravessou e saiu pela axila. Fora de perigo, ele conversava normalmente e andava com facilidade no quarto do hospital. O motorista recebeu alta ontem e deixaria o hospital à noite. A coragem do motorista e sua habilidade ao volante foram essenciais para salvar a vida do deputado Cícero Ferro e a sua própria. José Maria trabalha como motorista do parlamentar há dois anos. Antes, ficou oito anos numa empresa de transporte de valores. Nesse trabalho, teve treinamento de direção defensiva e táticas para escapar de situações de perigo. ?Eu agradeço primeiro a Deus e depois um pouquinho da minha experiência de trabalho para conseguir escapar?, contou. No meio do tiroteio, já ferido e abaixado dentro do carro, o deputado Cícero Ferro gritou: ?Zé Maria, a gente vai morrer!?. Os dois ficaram com a cabeça abaixo do painel, enquanto o motorista dirigia o carro, praticamente sem ver nada. ?Levantava a cabeça um pouco só para ver um pedaço da rua e fazer a manobra?. Contradição Ao chegar ao Hospital Arthur Ramos, na manhã de sábado, o deputado Cícero Ferro disse que reagiu ao ataque na estrada e havia trocado tiros com os pistoleiros. A informação foi revelada por ele aos deputados Antonio Albuquerque e Francisco Tenório, que, juntamente com vários outros parlamentares, estavam no hospital à espera dos dois feridos. Na troca de tiros, um ou dois homens que emboscaram o deputado teriam sido feridos. A polícia fez uma busca em hospitais do interior e de Maceió, na tentativa de checar se havia alguém ferido à bala. Não encontraram ninguém nessas condições. Na entrevista à GAZETA DE ALAGOAS, José Maria Ferro disse que ele e o deputado estavam desarmados, o que contraria a primeira versão divulgada pelo próprio deputado. Para a polícia, houve a reação com troca de tiros. O deputado estaria usando uma pistola. Ferimentos Um dos tiros que atingiram o deputado Cícero Ferro destruiu sua arcada dentária inferior. Ele chegou a engolir alguns dentes, segundo contaram seus parentes dentro do hospital. Outro tiro, que atingiu a perna esquerda, também fez um estrago grande. ?Cuidado com a minha perna. Eu acho que a minha perna está quebrada?, disse o deputado, ao ser socorrido em casa. Mesmo com ferimentos, os dois estiveram o tempo todo conscientes. Ao chegarem no hospital de Palmeira, o deputado deu um recado aos médicos: ?Não é para cuidar só de mim não; socorram o José Maria, foi ele que salvou minha vida?. No caminho para Maceió, Cícero Ferro conversou o tempo todo. Os dois feridos estavam na mesma ambulância. ?Ele perguntava se eu estava bem, eu dizia que sim?, conta o motorista. ?Zé Maria, eu estou com gosto de papel na boca, estou com a boca ressecada?, comentava o deputado para o motorista, dentro da ambulância, ao lado da mulher. ?Eu olhei para ele e pensei que ele não ia escapar, ele estava branco?, relata José Maria. O parlamentar também recomendou coragem à mulher. ?Não chore não, salve a gente?, disse ele, ao entrar em casa ferido, logo depois do tiroteio com os autores da emboscada. (CG)