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Dom Thom�s da CPT: “Tr�gua a�Lula tem prazo para acabar”

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MARCOS RODRIGUES A Comissão Pastoral da Terra (CPT) trouxe para a sua 14ª Assembléia Estadual, realizada semana passada, um dos fundadores do movimento agrário e seu atual presidente. Dom Thomaz Baldoíno, 81, goiano, ordenado bispo para atuar na diocese de Goiás, em 1967, integra a Ordem de São Domingos, uma das mais críticas da Igreja Católica, a mesma que abriga Frei Betto. Ele recebeu a GAZETA DE ALAGOAS após uma palestra aos militantes da CPT, onde demonstrou acreditar no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas considera contraditória sua postura, em relação às questões sociais. ?Ao passo em que o governo acata a pressão dos movimentos agrários e cria uma agenda com o Plano Nacional de Reforma Agrária, faz a política do Fundo Monetário Internacional (FMI)?. Quando foi o surgimento da CPT? Foi em 1975 durante o regime militar. E foi em resistência ao regime que naquele momento desenvolvia uma repressão enorme contra os trabalhadores rurais. Inclusive, soubemos depois que o golpe aconteceu porque eles acreditavam que deviam desmantelar as organizações do campo porque por ali podia entrar o comunismo internacional no País. Movimentos como o das ligas camponesas de Francisco Julião deram essa identidade. Mas por que a igreja passou a se preocupar com esses movimentos a ponto de criar uma pastoral exclusiva para tratar das questões agrárias? Foi por conta da repercussão da violência internamente. Os bispos perceberam isso através de suas comunidades. Aí a CPT surgiu exatamente como um apoio, uma defesa. Uma missão samaritana de socorrer os caídos. E como diz José de Souza Martins, a igreja mudou o cenário, no que diz respeito ao campo. A CPT surgiu no encontro de Medelin (Colômbia) com a visão de ver o trabalhador na condição de sujeito e destinatário de sua própria luta. Isso não foi fácil, mas conseguimos advogados que conseguiam fazer pobre ganhar causa. Foi um fato histórico. Aí a resposta foi o assassinato dos advogados. Além disso, também demos apoio técnico. A pastoral parte também de um princípio ? que o povo tem naturalmente ? que é a fé. E ainda a leitura popular da bíblia, que deu a mística que é importante para o povo enfrentar as maiores dificuldades. E a resistência dos setores conservadores a essa interpretação social da bíblia? Isso foi depois. Porque nos anos 70 a igreja já tinha passado por um processo de conversão. Tudo era coerente com a igreja daquela época. Era a igreja de Dom Hélder Câmara. A resistência veio com o atual papado. Mas aí já estávamos consolidados. Foi assim por exemplo com o Conselho Indigenista Missionário (Cime). Mesmo com as resistências, estávamos ali promovendo um despertar. O Cime conseguiu inclusive promover a união dos representantes de todas as tribos do País, que antes se consideravam inimigos e de repente estavam em paz numa assembléia. Como o senhor vê a questão agrária no País? A CPT tem uma sobrevida ainda por conta das desigualdades? Não só por isso, mas porque os movimentos sociais pegaram a chave do saber. Eles não estão aí às tontas. O método Paulo Freire está vivo nas escolas dos movimentos. Quanto à luta agrária, ela se fortalece na correlação de forças com os empresários rurais, que hoje são identificados como Agronegócio. E quanto a relação com os governos? Bem, o governo Lula acredita e respeita os movimentos. Já o governo de Fernando Henrique, e também a mídia que vendia os movimentos em manchetes negativas, nos tratavam como bandidos. Acho que agora a correlação de forças, pelo menos neste sentido, mudou. Como o senhor vê a participação do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) como mediador entre os movimentos e o governo? Ele é indispensável. Se um governo um dia falar em extinção do Incra, temos que cair em cima. Em todo lugar tem os maus elementos. O Incra é um instrumento importante. Falta o governo fortalecê-lo, ao invés de fazer o que fez FHC, que o sucateou. Já o Ministério da Reforma Agrária é um instrumento compensatório. Vale lembrar que ele surgiu por conta do massacre de Eldorado dos Carajás. O ex-ministro Raul Jungman me dizia que era o ministro de oito cadáveres. Por isso, defendo o fortalecimento do Incra. E o Plano Nacional de Reforma Agrária. Qual a reflexão que o senhor faz dessa proposta? Se o ministro mantiver o que está no plano, acho que vai avançar. Os movimentos estão se sentindo dentro do plano. Nós achávamos até que o governo poderia isolar os movimentos. Então como os movimentos conseguiram se incluir? O Fórum Nacional de Reforma Agrária reuniu todos os movimentos. Com isso, ganhamos força. E quando pensávamos em fazer uma grande marcha o presidente surpreendeu a todos e compareceu em nossa reunião reafirmando o seu compromisso com a reforma agrária e com a paz no campo. Depois, o próprio presidente do PT, José Genoino, confirmou que nós fomos quem conseguimos pressionar o governo. E as contradições dos vários movimentos que compõem o Fórum não prejudicam o andamento das discussões? O Fórum é uma Arca de Noé. São 32 entidades que debatem de forma intensa, mas descobriram que só têm força com união. Nós da CPT somos uma espécie de mediadores porque não temos nada a perder, afinal não podemos esquecer que somos uma pastoral, ou seja, movidos pela fé. De forma que hoje é até gostoso ir às reuniões. Mas já tivemos sessões de brigas. Quando a temperatura sobe nós é que acalmamos. O resultado é que estamos crescendo e amadurecendo. Todos de uma maneira geral têm no sangue a experiência da morada na lona e dos enfrentamentos nas ocupações. Tudo isso são pontos que nos aproximam. E o gesto de Lula em colocar o boné do MST? É porque a reforma agrária está na sua cabeça? Lula é operário. O boné assenta muito bem na sua cabeça, fato que não pode ser o mesmo se fosse na cabeça de FHC, nem do Serra, Deus me livre! A mídia criticou porque faz o jogo da elite. E os conflitos vão parar? Como podemos interpretar essa trégua dos movimentos? Os conflitos continuam ocorrendo, numa prova de que os movimentos estão vivos. Quanto à trégua, é um crédito importante, mas estamos todos com agenda para as ações. Estamos esperando o governo fazer sua parte. Mas o armamentismo dos empresários do agro- negócio está presente. Até a União Democrática Ruralista (UDR) reviveu; logo ela, que parecia não ter mais ossos. (risos). Mas a trégua tem data para acabar. E o governo sabe disso. Se tem meta, tem que ser cumprida. E haja terra. Qual a estratégia da CPT para este ano? É um ano de teste. Queríamos que ela fosse o macroprojeto do governo e da mudança. Mas de qualquer forma está aí e o nosso pessoal aceitou. Mas se os movimentos perceberem que não anda, levantaremos a bandeira do projeto alternativo. Até agora estamos na mesma trincheira com o governo. Nos sentimos vitoriosos com Lula. Quando a trégua vai acabar? É nesse semestre. O pessoal está até pensando em ter uma espécie de seminário. Mas vai haver um momento em que todas essas forças componentes vão se reunir para avaliar, e em conseqüência disso vão atuar. O governo acena para os movimentos sociais, mas também paga os juros da dívida. Isso não é uma contradição? Sim, isso é a principal contradição. Porque aí ele continua fazendo a política do FHC. Acho que isso é a espinha dorsal e isso contradiz a reforma agrária e a coloca como uma política secundária, mas isso pode mudar, porque só Lula pode fazê-la.

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