Política
Minador do Negr�o � dominada a Ferro e medo
ARNALDO FERREIRA WILSON ARAÚJO - FOTO A cidade de Minador do Negrão, distante 169 quilômetros de Maceió, está dominada pelo medo de um novo confronto armado entre os integrantes da família Ferro. A segurança foi reforçada pela Polícia Militar. Desde a emboscada sofrida pelo deputado Cícero Ferro (PMDB) e seu motorista José Maria Ferro, no sábado, 31, que acusam o primo, fazendeiro José Nilton Cardoso Ferro, de tentar matá-lo, na cidade não se discute mais política e nem sucessão municipal. As autoridades admitem que as eleições de outubro terão de ter ajuda de tropas federais. Hoje, os moradores da cidade só saem de casa para trabalhar. Quando escurece, a maioria tranca as portas. As ruas, as praças centrais estão vazias. As missas e cultos evangélicos estavam suspensos a pedido dos fiéis. Os moradores da zona rural e dos sítios desapareceram. A venda no comércio caiu bastante. Até a sinuca de Cícero Oliveira, localizada no centro da cidade, fecha mais cedo por falta de jogadores. ?As pessoas andam assustadas. Até porque a maioria tem sobrenome Ferro?, revelou ?seu? Cícero ao conversar com a GAZETA DE ALAGOAS. O maior movimento na sinuca central é entre 18 horas e meia-noite. ?Desde domingo (dia 1o, um dia após o atentado) que a gente fecha antes das oito. Os meninos (jogadores) não aparecem mais. É o medo...? , brincou Cícero. O responsável pela delegacia, sargento PM Genivaldo Cavalcante Mendonça, adianta: ?O policiamento da cidade, a segurança das autoridades e de familiares mais próximos ao deputado Cícero Ferro foram reforçados por determinação superior?. O sargento tem 16 anos na PM e há dois meses atua como subdelegado em Minador. ?A cidade mudou muito depois do atentado. Todo mundo sabia da inimizade entre Cícero Ferro e o fazendeiro José Nilton. Mas ninguém imaginava que ?Zé Nilton? tentaria matar seu primo?, disse o sargento, arrematando: ?Em 16 anos de polícia, esta é a primeira vez que vejo uma cidade inteira com medo?. Ao ser questionado sobre que conselho daria para os dois lados da família Ferro, o delegado demonstrou que também tem medo. ?Conselho eu não dou a nenhum dos lados. As pessoas têm cabeça para pensar e sabem o que fazem. Eu não aconselho nada?. Autoridades O prefeito João Bosco Cardoso Ferro (PSDB) é primo de José Nilton Cardoso e de Cícero Ferro. Politicamente é ligado ao deputado. No dia 27 de janeiro, viajou de férias para passear em São Paulo e participar do casamento de um parente. Hoje acompanha a situação da cidade por telefone. Seus assessores garantem que a viagem estava programada e a família Ferro sabia. Bosco reassume a prefeitura nesta segunda-feira. O vice que está no exercício do cargo, Flávio Emílio Silva (PMDB), é genro do deputado Cícero Ferro. É um dos mais revoltados com o atentado. ?Todo mundo sabe que José Nilton é um bandido. Este não é o primeiro crime e nem é a primeira vez que ele cria um clima de terror na cidade. Se ele voltar a Minador, só Deus sabe o que vai acontecer?. O prefeito em exercício afirmou que ?a cidade está arrasada. Ninguém vende nada, as pessoas não saem de casa... Todo mundo tem medo que José Nilton e seu bando voltem para novos ataques?. Flávio Emílio negou, entretanto, que a família de Cícero Ferro esteja preparando um revide. ?Não vamos partir para vingança. Acreditamos na polícia e na Justiça, e mesmo assim a família cobra a prisão de José Nilton, seus filhos Waldeck, Wando, Wagner e do sobrinho Jackson e dos pistoleiros que participaram da emboscada?. Entre os nove vereadores da cidade, apenas três fazem oposição ao grupo do deputado Cícero Ferro que comanda a prefeitura. O conflito está ligado à disputa pela prefeitura. Cícero Ferro inviabilizou a candidatura do primo José Nilton (PFL), trabalhava a candidatura da sua esposa, Eladja Ferro, e ficou com controle do PFL. A GAZETA tentou falar com o presidente da Câmara, vereador Jacó Cardoso Ferro (PFL). Mas desde o atentado ele não fica na cidade. Jacó é irmão do prefeito João Bosco; também é cunhado do fazendeiro José Nilton e pai de Jackson Cardoso, que é caçado pela polícia como acusado de participar da emboscada junto com os primos Waldeck, Wando e Wagner. Jacó lidera a oposição, formada pelos vereadores Emílio Barros (PSB) e Ailson Monteiro Silvestre (PFL). Os três vivem na zona rural do município ou entre Maceió e Palmeira dos Índios. Seus familiares e amigos próximos evitam revelar o paradeiro deles. O medo é tanto que um dos políticos da base de apoio do prefeito, o vereador Helton Henrique Tenório Bulhões (PMDB), três mandatos, não permitiu sequer que a reportagem da GAZETA entrasse na sua casa para não se comprometer com nenhum dos lados. ?Aqui todo mundo vive tenso. No meu caso, sou amigo dos dois lados e só tenho a lamentar a situação?. Ele disse desconhecer, inclusive, qual era a posição dos colegas sobre o atentado. ?A Câmara está em recesso e a maioria dos colegas viajou?. Morando a poucos metros da casa dos colegas da oposição, Helton disse: ?Olha, eu não sei de nada. Procura lá adiante que as pessoas informam o nome do presidente da Câmara e onde ele mora?. Minador do Negrão é uma cidade das famílias Cardoso Ferro, Araújo Ferro e Barros Ferro. Entre si, elas têm divisões políticas e divergências profundas. A origem familiar está no sertão e agreste pernambucano. Os Ferro controlam a política, o comércio, a agricultura, a pecuária e evitam falar sobre o assunto. A proprietária do único supermercado da cidade, Juliane Cardoso Ferro ? cunhada de José Nilton ? tratou de se livrar da imprensa: ?Não tenho nada para declarar. Não sei de nada e não vou falar nada?. A maior loja de produtos agropecuários é de Clécio Araújo Ferro. ?Não dá para negar que a cidade vive um clima de preocupação e medo. Este clima acontece por causa das inimizades entre uma parte da família. Acho que tudo isso é por causa das disputas políticas?, admitiu. No mercadinho mais popular, a empresária Lourdes e seu filho Lúcio Cardoso Ferro, quando viram a equipe da GAZETA, não deram nem tempo para ser entrevistados. ?Olha, podem voltar daí. A situação é muito difícil. Não me perguntem nada e não façam fotografia da minha casa. Não me criem mais problemas?, disse Lúcia Cardoso Ferro.