Política
Anaconda mapeia o crime em Alagoas
ARNALDO FERREIRA A GAZETA DE ALAGOAS teve acesso, com exclusividade, a documentos da operação Anaconda. A operação foi desencadeada pelo serviço de inteligência da Polícia Federal (PF), com apoio da Procuradoria da República e Justiça Federal, e resultou no indiciamento de 18 pessoas, entre elas juízes, advogados, delegados e agentes da própria Polícia Federal. Dez envolvidos estão presos. Tudo teve início em Alagoas, quando a PF começou a investigar o delegado Jorge Luiz Bezerra de Lima, considerado até então um dos homens mais atuantes na Supe-rintendência da PF no Estado. O serviço de inteligência da PF manteve os telefones fixos e celulares do delegado Bezerra monitorados desde o ano de 2000. Assim, paralelamente, o serviço de inteligência conseguiu montar um mapa de crimes envolvendo personalidades de setores políticos e empresariais de Alagoas. Tudo é mantido sob rigoroso sigilo e controle da direção nacional da Polícia Federal em Brasília e Alagoas. Há indícios apontando que a operação Anaconda pode resultar em outras atividades policiais do serviço de inteligência da PF contra tais personalidades alagoanas, que estariam envolvidas com crimes eleitorais, contra o patrimônio e o erário, e até em intimidações a comunidades do interior. Fontes da equipe de delegados da Polícia Federal de Brasília confirmaram à GAZETA DE ALAGOAS que ?a Anaconda pode gerar novas ações operacionais em Alagoas e em outros estados, onde a quadrilha desmantelada teria ramificações e atuações?. Porém, essas ações, se estiverem realmente em curso, ainda não chegaram ao conhecimento do superintendente interino da PF/AL, delegado Arisvaldo Menezes. ?Tudo que a operação Anaconda tinha de fazer em Alagoas já foi feito. O caso agora está com a Justiça Federal e tramitando em São Paulo?, disse o delegado, sem fornecer maiores detalhes. Entretanto, policiais e delegados operacionais em Alagoas não descartam nada e adiantam apenas que a Anaconda ainda não acabou. ?Tudo pode acontecer?, dizem. As fontes mantêm o clima de suspense que até hoje tira o sono e chama a atenção de muitas pessoas que já tiveram algum tipo de ligação com o delegado Jorge Luiz Bezerra de Lima. Atualmente, os resultados da operação Anaconda estão consignados em 54 volumes de dois imensos processos: um de improbidade administrativa e outro de ação civil pública por formação de quadrilha, supostamente liderada pelo juiz federal titular da 4a Vara Criminal de São Paulo, João Carlos da Rocha Mattos, que está afastado das funções e preso numa das celas especiais da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. O delegado aposentado da PF, hoje advogado, Jorge Luiz Bezerra de Lima, é apontado como ?um dos elementos principais da intermediação de ações da quadrilha? e está indiciado nos dois processos. Ele também está preso. Porém, desde o dia 2 de fevereiro, encontra-se internado no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, sob escolta. O delegado se aposentou depois de colocar quatro pontes safena. Depois que o escândalo estourou e houve o afunilamento do processo que se encontra na fase de depoimento das testemunhas de defesa, seu estado de saúde se agravou e ele teve de ser internado, revelam familiares, amigos e advogados de defesa. Início da Anaconda Depois de ter sido procurado pelo então delegado de Repressão às Drogas da PF alagoana, Jorge Luiz Bezerra, o agente federal, também de Alagoas, José Elison Machado Pacheco revelou a outros policiais e delegados, em conversas informais, suas suspeitas de que um dos colegas, delegado, teria ligações com a venda de sentenças para empresários e políticos de Alagoas, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros estados. As suspeitas intrigaram o serviço de inteligência da PF, que ?apertou? Elison. Jorge Luiz, que até então tinha inimizades dentro da cúpula da PF, a partir das declarações de Elison, sem saber, passou a ser monitorado pelos próprios colegas. Antes mesmo de ser investigado, alguns federais não escondiam as suspeitas sobre os sinais de enriquecimento ? incompatíveis com os proventos de delegado da PF ? que Jorge Bezerra ostentava, com bens invejáveis em Alagoas e São Paulo. Nesta fase, tudo não passava de suspeitas tratadas discretamente, porque a esposa de Bezerra, a advogada Cristina Bezerra da Silva, trabalhava na Superintendência da PF/AL. Ela também se aposentou e atua hoje como advogada. Numa reunião fechada com delegados da inteligência, foi decidido colocar em curso um plano de investigação de todos na PF, mas tendo como alvo principal Jorge Bezerra. Consta no processo nº 2003.061.00.036130, que tramita na 25ª Vara Civil do Fórum Pedro Lessa, da Seção Judiciária do Estado de São Paulo, iniciado por causa da instauração do inquérito Civil Público nº 15/2003, que a ação começou a partir de informações obtidas pela direção de Inteligência do Departamento da Polícia Federal. A maioria dessas informações não pode ser divulgada porque corre em segredo de Justiça. As que podem ser reveladas dão conta de que o delegado Jorge Luiz Bezerra estaria corrompendo policiais federais, no intuito de receber informações privilegiadas sobre inquéritos em tramitação na Superintendência da PF no Estado de Alagoas, com o objetivo de ?extorquir? empresários, políticos e outras autoridades. ?Jorge Luiz atuava, em concerto com outros agentes lotados na Polícia Federal, em ações delituosas relativas a tráfico de influência, corrupção ativa e passiva, prevaricação e outros crimes?, conforme consta no processo comandado pela desembargadora federal Terezinha Cazerta, do Tribunal Regional Federal da Terceira Região (SP) e assinado também pelo juiz federal Djalma Moreira Gomes. Para desmontar o grupo acusado pela Procuradoria da República de improbidade administrativa e formação de quadrilha, foi autorizada pela Justiça a realização de interceptação e monitoramento das conversas telefônicas das linhas fixas e celulares dos envolvidos, no âmbito de medida cautelar, ajuizada na Quarta Vara Federal da Seção Judiciária de Maceió, autuada sob o nº 2003.80.00.002311-7. Ainda com base na Lei nº 9.296/96, que determina a estrita observância dos requisitos sobre o pedido de interceptação de conversas telefônicas, foi deferida e sucessivamente prorrogada a quebra do sigilo telefônico, conforme a necessidade da investigação. Em todos os pedidos de quebra de sigilo, foram ouvidos membros do Ministério Público Federal de Alagoas. A princípio, as interceptações telefônicas tinham o objetivo de identificar uma rede criminosa e as vítimas de extorsões em Alagoas. Porém, chegou-se a uma situação jamais pensada pelas autoridades federais do Estado. Daí, inevitavelmente, o caso foi levado à cúpula do Ministério da Justiça e da Polícia Federal. Os episódios de Alagoas passaram a ser considerados como ?fichinha? e se revelava assim uma rede criminosa, muito bem articulada, com grande mobilidade e atuação permanente nos estados e com uma espécie de QG em São Paulo. Basicamente, o grupo estava composto por pessoas dos quadros do Poder Judiciário e da Polícia Federal Em razão dos indícios de participação de juízes federais da seção de São Paulo nas atividades delituosas, foram encaminhados os autos ao Tribunal Regional Federal da Terceira Região, naquele Estado. Através de requerimento do Ministério Público Federal, instaurou-se o inquérito nº 533, autuado sob o nº 2003.03.00.048044-6, para prosseguimento das investigações, até então secretas e sigilosas. As novas diligências, segundo os procuradores da República Isabel Cristina Groba Vieira e José Roberto Pimenta Oliveira, em denúncia oferecida no dia 9 de dezembro de 2003, confirmaram ?inapelavelmente a prática do crime de formação de quadrilha, bem como outros crimes praticados pelos 19 integrantes da rede criminosa?. ?Os diversos ilícitos criminais realizados pela desmascarada quadrilha se caracterizam em atos de improbidade administrativa, que urgem ser eliminados, dada a sua extrema gravidade e imensa repercussão no seio social?, afirmam os dois procuradores federais em suas denúncias.