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“Meu irm�o morreu porque sabia demais”

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PLINIO LINS Ezequiel dos Santos foi aceito, na semana que passou, no Programa Nacional de Proteção à Testemunha do Ministério da Justiça. Ele é um homem acuado, marcado para morrer. Fugiu de Coruripe depois de vender todo o pouco que tinha lá. Vive escondido, com a família, em algum lugar do interior nordestino. Passa fome e privações. A GAZETA DE ALAGOAS conseguiu entrevistá-lo, marcando encontro em um ponto do Sertão. Ezequiel fala olhando para os lados. Às vezes sua voz fica embargada, os olhos se enchem de lágrimas ? parece revolta pela situação em que se encontra e vergonha de viver com medo. A seguir, os principais trechos de seu relato sobre o assassinato de seu irmão, o soldado PM Elias Francisco dos Santos, em julho de 2002, e as acusações sobre executores e mandantes do crime. - O que aconteceu no dia 15 de julho de 2002? - Os seguranças de João Beltrão mataram meu irmão, Elias Francisco dos Santos, soldado da Polícia Militar, em Coruripe. Ele foi baleado quando ia trabalhar. Foi às 8 horas da manhã. Os seguranças de João Beltrão estavam esperando por ele na beira da pista. Os dois abordaram ele e atiraram nele. - Quem eram esses seguranças? - Ele (Elias) falou que um se chamava Magro do Bigode e o outro Marquinhos. - O soldado ainda ficou vivo para falar? - Ficou. Só morreu três dias depois, no Pronto-Socorro de Maceió. Depois que ele foi atingido, ainda conseguiu chegar na minha casa, lá mesmo em Coruripe. Quando eu socorri, ele falou tudo. - Como é que você vive hoje? Onde você mora? - Eu não posso dizer, não. Eu estou corrido de Coruripe com minha família. Vivo escondido porque contei o que meu irmão disse a mim quando foi ferido. Eu saí de Coruripe para não morrer. - Como é que você soube que estava jurado de morte? Alguém mandou recado? - Os cabras mandavam ir lá atrás de mim. Eu sabia muito, e os cabras queriam me matar para eu não contar quem eram os homens que atiraram no meu irmão. - Esse crime nunca foi investigado? - Até aqui ninguém descobriu nada. - Não houve testemunhas do crime? - Tinha umas casas lá, onde os cabras estavam esperando ele. Isso foi de dia! Ele ia trabalhar em Feliz Deserto. Ele destacava em Coruripe, mas mandaram ele prender um ladrão em Feliz Deserto. Acho que foi de propósito. Tiraram ele de Coruripe, e no caminho os cabras já estavam esperando por ele. - Você sabe por que mataram o soldado Elias? - Ele estava descobrindo muita coisa lá em Coruripe. Coisas sobre drogas... - Drogas? - É. Tinha um traficante chamado Flavinho, que é amigo do Neno (Jesse James Viana Neto, policial civil e vereador em Coruripe). Esse Neno é o testa-de-ferro do João Beltrão. Esse Flavinho vendia maconha. O Elias descobriu outros cabras lá, que estavam roubando também, e todos esses cabras eram amigos do Neno. O Elias contou que prendeu uns ladrões, e um deles contou que o Neno tinha pedido uma carga de cimento. - Como assim? - O Neno tinha mandado eles roubarem uma carga de cimento, estava precisando. Quer dizer, eles estavam roubando com a autoridade do Neno, né? - Como é que o deputado João Beltrão entra nisso tudo? - Esses cabras fazem tudo isso lá (em Coruripe) porque o João Beltrão apóia muito. Quando esse homem não era nada, era de outro jeito em Coruripe. Depois que ele foi candidato a prefeito, passou pra prefeito, e depois que ganhou pra deputado, pronto. - Você conhece mais alguém que tem certeza de que foi morto por esse pessoal? - Conheço, teve um oficial de Justiça, era o... (tenta lembrar). Era filho do Tonho Cabelo Vermelho, eu estou esquecido do nome dele. E o outro irmão dele foi morto também. Ele ia se candidatar a prefeito de lá, sabia muita coisa, e mandaram matar o rapaz também. - E a polícia em Coruripe? - A polícia não faz nada. Eu mesmo fui ao secretário de Segurança ? esse agora não, o outro, antes dele ? e a polícia, lá em Coruripe, me disse que era melhor eu ir embora. Me viram vender tudo que tinha; vender não, dar de graça, para ir embora para não morrer. Os próprios policiais disseram pra mim: ou você sai ou vai morrer aqui. - Foi aberto inquérito? - Foi. Eu fui lá, dei depoimento na delegacia, dei na Secretaria, e até aqui não aconteceu nada. Saí de Coruripe, vivo sumido... - Como é que você está conseguindo sobreviver com a família? - Vivo apertado, com a mulher e cinco filhos, tudo passando fome e necessidade por causa desse povo do João Beltrão. Eu tinha alguma coisa, tinha o que dar pra família, e acabou-se tudo. Tem uma pessoa que leva umas cestas básicas lá onde eu estou. Eu passo fome pra não morrer. - E tem vontade de voltar? - Tenho, mas só se prender essa gente. O Neno é o principal, é o testa-de-ferro do deputado. Os outros principais são o Marquinhos ? que atirou no meu irmão ? e o Magro do Bigode, que estava com ele. - Tem algum Nailton? - Nailton... Parece que é um chamado Drodo. Também é outro assassino, o soldado me dizia isso. - O soldado Elias era um policial direito? - Era. Se ele fosse como muitos que tem lá, ele estava vivo. Se vivesse comendo dinheiro de um e de outro, estava vivo. - O Neno é o Jesse James, não é? - É, é policial civil. - Ele é vereador também, não é? - Nada, ele é suplente! Ele não foi eleito não. Botaram ele lá de vereador, mas ele é suplente. - Você sabe se o soldado Elias recebeu aviso de que estava marcado? - Ele recebeu ameaça, mas não parou de descobrir as coisas. Ele foi chamado lá na delegacia antes de acontecer aquilo com ele, porque ele andou prendendo umas pessoas. Foi falar com o delegado, que era o doutor Cícero Lima, e foi saído de lá também. - Se alguém for ameaçado lá, a polícia protege? - Rapaz, a pessoa que for ameaçada e for para a delegacia comunicar, quando o delegado bater o processo, aquele já morreu. - E a Justiça? - Uma vez eu fui falar com o juiz sobre um problema que teve lá, e o juiz perguntou se eu estava fazendo essa queixa da parte de quem. Se for fazer uma queixa contra alguém da parte do João Beltrão, ou contra algum desses que vivem fazendo desordem lá, ele vai chamar pra fazer acordo. Quando sai de lá, fica tudo do mesmo jeito. - Você está em Alagoas ou fora do Estado? - Não vou dizer o lugar, mas é aqui em Alagoas. Eu queria que o governo e o juiz lá de Coruripe fizessem justiça, que dessem segurança. Eu tenho um bocado de irmãos, mas é tudo fraco. Tenho um irmão policial militar em Maceió, e esse também vive espantado porque já quiseram matar. Se algum dos irmãos for morto, são os seguranças de João Beltrão que estão atrás de nós para matar. - O soldado Elias, quando foi baleado, ainda sobreviveu muito tempo? - Ele ainda foi levado para o Pronto-Socorro de Maceió. Ficou três dias internado. Morreu depois de uma visita que o Neno fez a ele. Disseram que foi um choque, não sei, choque filate... - Choque anafilático? - Isso. Foi isso que disseram.

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