Política
Crime impune em 2002 gera medo em Coruripe
PLINIO LINS Na manhã de 15 de julho de 2002, o soldado PM Elias Francisco dos Santos, de 44 anos, lotado em Coruripe, saiu de sua casa, na periferia da cidade, para uma missão aparentemente de rotina: recebera ordens para ir, com hora marcada, prender um acusado de roubo em Feliz Deserto, município vizinho, no litoral sul de Alagoas. Pegou seu carro, saiu de casa e tomou a AL-101 Sul. Mal havia saído da área habitada, dois homens em uma moto o esperavam numa curva. Era uma tocaia. Dois tiros certeiros de revólver calibre 38 acertaram o soldado. Os dois pistoleiros fugiram, certos de que o ?serviço? estava bem feito. Não estava. O soldado Elias ficara gravemente ferido, mas ainda vivo. Mesmo sangrando muito, conseguiu dirigir o carro até a casa de um irmão, Ezequiel, também na periferia de Coruripe. Ezequiel o socorreu e conseguiu ajuda para levar o ferido para o Pronto-Socorro de Maceió. Ele ouviu do irmão a narrativa da emboscada. Elias identificara os dois pistoleiros, sabia os nomes deles e a quem eram ligados. Mesmo no desespero do momento, os dois irmãos concluíram que Elias havia sido retirado da cidade deliberadamente, com horário e itinerário definidos, para ser emboscado e morto. Era crime premeditado. Quem havia mandado matar Elias, e por quê? O soldado chegou ao HPS quase agonizando, mas ainda ficou vivo três dias. Morreu no dia 18, depois de receber, no hospital, uma estranha visita ? a do homem que hoje é acusado de ter ordenado sua morte aos dois pistoleiros. Inquérito parado O inquérito sobre a emboscada foi aberto na delegacia de Coruripe. Ezequiel, o irmão da vítima que ouvira o relato da emboscada e os nomes dos pistoleiros, prestou depoimento ao delegado Cícero Lima, encarregado de comandar as investigações. Contou tudo que ouviu do irmão e o que mais sabia sobre as atividades do soldado Elias e das pessoas que, segundo disse, estariam insatisfeitas com o trabalho do policial militar em Coruripe. Mas as investigações, aparentemente, ficaram nos depoimentos iniciais. Não houve testemunhas da emboscada, só o relato do soldado ao irmão. Ezequiel passou a ser o arquivo vivo do crime, e isso era um passo para se tornar arquivo morto ? a próxima vítima. A lei do silêncio, muitas vezes imposta na cidade de Coruripe, novamente se fazia presente: ?não vi, não conheço, não sei de nada?. E o inquérito ficou parado durante um ano e cinco meses. Silêncio e medo Em dezembro do ano passado, o delegado Mário Jorge Marinho, diretor-adjunto do Departamento Central de Polícia Civil, acumulando o cargo com o de diretor do Departamento de Polícia do Interior (Depin), decidiu que o assassinato do soldado Elias devia ser investigado com mais profundidade. Nomeou dois delegados especiais para comandarem as novas investigações: os delegados municipais de Palmeira dos Índios, André Avancini D?Ávila, e de Junqueiro, Antônio Edson. O delegado Avancini disse à GAZETA DE ALAGOAS que o inquérito está sendo tocado, mas admite que há dificuldades. A principal delas é a lei do silêncio. ?É difícil arregimentar pessoas dispostas a falar?, admite ele. ?Mas temos uma linha inicial de investigação. O delegado prefere não entrar em detalhes ?para não prejudicar as investigações?. ?Temos suspeitos, mas quero provas para apresentar ao Ministério Público. E estamos atrás delas?, diz Avancini. O motivo de tanta prudência do delegado é o mesmo que determina a lei do silêncio e a dificuldade de colher depoimentos. As pessoas têm medo de abrir a boca. Os acusados pelo irmão do soldado Elias são gente muito poderosa e temida em Coruripe. Proteção Ezequiel dos Santos, a testemunha-chave, teve que fugir de Coruripe e hoje vive escondido em algum lugar do interior nordestino. Ele foi localizado pela GAZETA e contou tudo que ouviu do irmão antes de Elias morrer (leia a entrevista na página seguinte). Na semana passada, Ezequiel foi aceito no Programa Nacional de Proteção a Testemunhas do Ministério da Justiça, segundo informações da polícia. A partir daí, Ezequiel deixa de existir e passa a ser outra pessoa: vai receber identidade nova, com outro nome, e viverá em segurança em outro local. A mulher e os filhos também mudarão de nome.