Política
Peritos n�o identificam ossadas de cemit�rios clandestinos
ARNALDO FERREIRA MÁRIO LIMA Os 30 crânios e restos de corpos encontrados nos últimos cinco anos em cemitérios clandestinos de Maceió, Marechal Deodoro e de outros pontos de Alagoas continuam sem identificação e jogados num depósito de materiais imprestáveis do prédio que abriga o improvisado Instituto Médico Legal (IML) Estácio de Lima. Nem com a ajuda do setor do laboratório de Biologia Molecular e de Exames de DNA, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) foi possível identificar as ossadas, hoje marcadas com numeração. ?Faltaram parâmetros para identificar as ossadas através de exames de DNA?, afirmou o atual diretor do IML, médico- legista Luiz Fernando Barros. ?As pessoas que tiveram seus parentes desaparecidos foram ao instituto e forneceram elementos para exames comparativos, mas ficaram frustradas. Os exames deram negativo?, explicou o diretor do IML. Com 17 anos de experiência em Medicina Legal, o médico Luiz Fernando considerou ser pouco provável a identificação das ossadas. Os exames de DNA foram feitos no laboratório da Ufal porque os laboratórios do IML foram transformados em dormitórios dos plantonistas. Até hoje os governos não investiram nas condições operacionais do Instituto. Os exames para tentar identificar as ossadas foram coordenados pelo geneticista Luiz Antônio Ferreira, o mesmo que foi convocado na semana passada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República para acompanhar as escavações feitas no Araguaia, Mato Grosso, onde estariam enterrados supostos guerrilheiros brasileiros da década de 60. Nas escavações nenhum corpo foi encontrado até sexta-feira. Luiz Antônio justificou suas dificuldades para identificar os restos encontrados em cemitérios clandestinos, alegando que as ossadas estavam muito misturadas. A tese de Luiz Antônio foi reforçada pelo ouvidor- geral da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Pedro Montenegro, ex-coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Alagoas. ?É quase impossível identificar aquelas ossadas encontradas em cemitérios clandestinos da periferia de Maceió e dos municípios vizinhos. Primeiro, a coleta dos restos aconteceu de maneira inadequada; segundo, faltam elementos comparativos e, por fim, está tudo misturado dentro daquele prédio onde está o IML?, avaliou Pedro Montenegro, ao criticar, ainda, que ?na verdade Alagoas nunca teve um instituto de Medicina Legal, apesar do esforço dos profissionais que trabalham naquele prédio?. O ouvidor da Secretaria Especial de Direitos Humanos lembrou que o Estado já recebeu, durante o governo Geraldo Bulhões, cerca de R$ 2 milhões para construir um instituto de Medicina Legal moderno. ?É preciso esclarecer onde foram parar os recursos financeiros que o governo federal mandou para a Secretaria de Segurança Pública construir o IML. O Estado tem de punir exemplarmente os envolvidos no desvio da finalidade dos recursos?, recomendou. Entretanto, nem tudo está pedido. Apesar da confusão no recolhimento dos restos humanos, foi possível fazer estudos antropológicos e ficaram definidos sexo, idade presumida, causa da morte e estatura das vítimas. Mas a identificação cadavérica permanece indefinida, admitiu o legista Luiz Fernando Barros. Crise Para caminhar pelos corredores do prédio onde funciona o IML é preciso muito estômago: o mau cheiro está por todos os lados. A geladeira, na qual cabiam cerca de 20 corpos, foi substituída por uma menor, onde cabem apenas três corpos, mas está adaptada para guardar o triplo da capacidade. No prédio não há estufa para guardar os corpos que chegam em estado de putrefação, resultado: o mau cheio exala por toda a vizinhança. ?Quando a única geladeira quebra, aí a coisa piora?, reconhecem os servidores da repartição. As salas onde haveria os laboratórios de análises químicas, reagentes, agora foram improvisadas como dormitórios. O diretor do Instituto, Luiz Fernando Barros, confirma que as paredes dão choque em dias de chuva, por causa das infiltrações. ?Faltam equipamentos para exames de toxicologia, anatomia, patologia, histologia, laboratório fotográfico, informatização. Mas estamos otimistas, porque há um compromisso do governador Ronaldo Lessa em construir o instituto de Medicina Legal?, disse o diretor do IML. Hoje, o instituto conta com o apoio técnico do laboratório da Universidade Federal de Alagoas. Ao ser questionado sobre do que o IML precisaria imediatamente, o médico Luiz Fernando Barros não fez rodeio: ?O IML precisa de um IML Chegamos a um ponto em que não dá mais para fazer investimentos paliativos. Mesmo assim, estamos confiantes?, repetiu. Vizinhança Apesar das condições precárias de funcionamento do Instituto Médico Legal Estácio de Lima, os moradores vizinhos têm opiniões divergentes. A senhora Ranúsia Costa do Nascimento, 72, moradora mais antiga da Rua Dias Cabral, residente na casa de número 59, disse que ?se o IML sair para outro lugar vou sentir falta. Aqui sempre tem movimentação na rua e como geralmente há muitos policiais, esta rua termina sendo um dos lugares mais tranqüilos de Maceió?. Depois que ficou viúva, dona Ranúsia mora com a única filha e a neta. A sua única reclamação é o mau cheio. ?Os mortos não fazem mal a ninguém. O problema são os vivos. Às vezes o mau cheiro é forte, quando chegam os corpos podres, incomoda um pouco. Mas a gente tranca a casa toda e até se acostuma?, brincou dona Ranúsia. Já o senhor Carlos da Silva Araújo, 40, que trabalha e mora vizinho ao prédio do IML, considera a área como uma das mais tranqüilas e pacatas da capital. ?O que se precisa no instituto é de uma geladeira maior e uma estufa para guardar os corpos que chegam em adiantado estado de putrefação. Este último problema se resolve também com produtos químicos. Mas sou testemunha de que os médicos e seus auxiliares tratam os mortos com dignidade. Agora, faltam condições técnicas para os profissionais trabalharem?, disse Carlos Araújo. Mas o servente de pedreiro José Antônio dos Santos, 38, defende: ?Antigamente se justificava o IML funcionar nesta área do centro de Maceió. Mas hoje, não. O bairro está repleto de residências, tem um conjunto de apartamentos, acho que o instituto precisa ser transferido para um lugar mais afastado da cidade. Tem dia que a fedentina é tanta que é impossível comer alguma coisa?. Seu José mora perto do instituto há 14 anos e diz que ainda não se acostumou com o mau cheiro. A senhora Cláudia Borba, moradora da casa 71, diz que nunca entrou no IML. Para ela, não faz diferença a permanência ou a transferência. ?Como sempre há policiais tomando conta do prédio, acho que a permanência é até positiva. O problema é o mau cheiro. Mas não é sempre?. ?Duda Calado? O diretor-geral do Centro de Perícias Forenses (órgão que controla os institutos de Medicina Legal, de Identificação e de Perícia Criminal), o perito criminal Ailton Villanova, reconheceu como justas as reclamações dos moradores com relação ao mau cheiro. Admitiu, inclusive, que a repartição não tem estufa para resolver o problema. Porém, tranqüilizou os moradores ao garantir que ainda este ano o Estado vai construir seu Instituto de Medicina Legal. ?O IML de Alagoas vai se chamar Duda Calado e estará numa área mais apropriada?, adiantou Villanova. ?O governador Ronaldo Lessa vai fazer uma homenagem ao médico- legista que idealizou a modernização da Medicina Legal no Estado?, destacou Villanova, que era amigo de Duda Calado.