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Política

“Sofro por n�o disputar a elei��o para a Prefeitura de Macei�”

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RODRIGO CAVALCANTE Na sala de embarque no Aeroporto de Brasília, em meio a políticos e executivos de terno, fica fácil identificar a senadora Heloísa Helena de jeans, camiseta branca, cabelos longos e óculos de aro redondo na fila do vôo para Maceió. Mais de três meses depois de ser expulsa do Partido dos Trabalhadores, ela diz que se sente aliviada em não fazer parte da sigla no momento em que a oposição busca conquistar assinaturas para instaurar uma CPI para investigar o caso Waldomiro. ?Se estivesse no PT, imagine o tumulto que iria causar ao assinar essa CPI?, diz a senadora, que falou à GAZETA DE ALAGOAS durante o vôo Brasília-Maceió sobre suas decepções no PT, o governo Ronaldo Lessa, as eleições municipais e de como está vendo a disputa eleitoral pela Prefeitura de Maceió. Mais de três meses após a sua saída do PT, o que mudou na sua rotina? Tenho que repetir a velha frase de que Deus escreve certo por linhas tortas. Apesar de toda a turbulência que me machucou profundamente, me sinto tranqüila ao avistar, de longe, o bloco dos desmascarados passar. Se ainda estivesse no partido, estaria passando por outro tumulto, assinando o requerimento de CPI para investigar o caso Waldomiro e lutando contra o vergonhoso balcão de negócios montado para legitimar a velha e conhecida promiscuidade entre o Palácio e o Congresso. Estou, enfim, aliviada. A senhora não acha que, durante esse processo, gastou muito mais tempo em debates ideológicos do que com projetos pragmáticos para beneficiar Alagoas? Se o desenvolvimento de Alagoas dependesse de alianças escusas com o poder federal, o Estado estaria bem desenvolvido. Até mesmo porque Alagoas sempre teve representantes no poder, até mesmo na presidência, e isso nunca foi revertido em desenvolvimento. Quando defendi os servidores públicos, no ano passado, contra o embuste da reforma da Previdência, estava defendendo também os interesses dos alagoanos. O setor público é a única referência para os pobres alagoanos que não tem acesso à saúde, educação e outros serviços básicos. Na política, contudo, ser pragmático parece ser sinônimo de entregar pequenas obras em currais eleitorais para beneficiar os interesses de alguns. Quais outros projetos no Senado a senhora está envolvida? Estamos trabalhando muito na região do São Francisco, para garantir o abastecimento de água para a população, animais de criação e irrigação. Tenho me dedicado também a lutar pelo perdão de dívidas de pequenos e médios produtores rurais que estão vivendo uma situação miserável. Como a senhora se sente fora da disputa pela Prefeitura de Maceió? É uma situação de sofrimento pessoal. Gostaria de estar à frente do Executivo e tive que abrir mão dessas candidaturas por causa da imposição do diretório nacional do PT. De certa forma, não foi uma escolha sua? Não. Nas eleições estaduais, fiquei de fora pela definição nacional de uma política de alianças nefasta. E agora, de forma ardilosa, o partido retardou a minha expulsão para que eu perdesse o prazo da filiação partidária e não pudesse me candidatar. Sexta-feira, João Lyra, Marcos Vieira, Cícero Almeida, Paulão? Em quem a senhora vai votar? Em nenhum desses que você citou, incluindo o candidato do PT (Paulão), que de forma traiçoeira me apunhalou pelas costas. Então, a senhora vota nulo? Não, até porque espero que sejam apresentadas outras candidaturas para que eu possa definir meu voto. Espero, por exemplo, que o Régis seja candidato. Votaria nele. Caso ele não seja candidato, a senhora não apoiará ninguém? Por enquanto, não. Tenho profundas divergências com esses candidatos, incluindo os do PSB. Mas a senhora trabalhou, por exemplo, com o Marcos Vieira? Tive a oportunidade de conviver com ele como vice-prefeita e reconheço nele determinados atributos, como competência e disciplina. Entretanto, não votaria nele até por que acredito que a Prefeitura de Maceió está se tornando uma capitania hereditária do PSB. Isso dá um caráter de continuismo da pior espécie que termina em ramificações no Tribunal de Contas e outros poderes. E o candidato Sexta-Feira? Não quero falar sobre outros candidatos. Até por que nem conheço o trabalho dessas pessoas. Como a senhora avalia o governo Ronaldo Lessa? O governador sabe que eu estou à disposição dele para ajudar Alagoas. Até porque pode existir outro parlamentar que lute tanto por Alagoas como eu, mas não há parlamentar que lute mais do que eu pelo Estado. Quanto ao governo Lessa, há pelo menos dois pontos que fazem com que essa administração se torne cada vez mais parecida com os governos passados. O primeiro é o fato dele ter promovido a legitimidade política e contábil do processo das chamadas letras podres do Estado de Alagoas. O segundo ponto é a constatação de que se fez um novo acordo com os usineiros. Se é para fazer esse tipo de concessão, qual a diferença desse governo em relação aos outros? É possível governar sem fazer concessões? Não compartilho da idéia fatalista de que, para administrar, é necessário fazer concessões éticas para se obter maioria. Do que adianta ter a maioria sobre uma base de sustentação artificial? Quem precisa do silêncio das casas legislativas desse país são aqueles que têm medo da fiscalização de seus atos. As pessoas argumentam, por exemplo, que Lula precisa da maioria no Congresso. Maioria para aprovar as duas fraudes políticas e técnicas que são a reforma da Previdência e a reforma Tributária? Seria mais cômodo ter apoiado os projetos de FHC. Quando o projeto é bom, não é necessário comprar ninguém, tal é o desejo da sociedade de aprová-lo. Praticamente todos os partidos de esquerda no Ocidente que chegaram ao poder tiveram rachas internos. No fim dos anos 70, por exemplo, o líder espanhol Felipe Gonzáles provocou uma cisão no PSOE ao exigir que o partido abandonasse seu estatuto marxista. A senhora não esperava que algo parecido acontecesse no PT? Nesses países, a situação foi bem diferente. Respeito as organizações de esquerda que fizeram revisões internas. No PT, isso não aconteceu. O governo não propôs mudar o estatuto, preferindo desrespeitar as resoluções da base mais importante do partido que é o Encontro Nacional. Com isso, ele traiu as resoluções apresentadas por ele mesmo. É triste acompanhar o trabalho dos senadores que formam a base de sustentação do PT sendo formada pelos mesmos que apoiaram FHC e que, no passado, atacaram a honra de Lula. Enfim, ele traiu o socialismo democrático. Ao longo da história, regimes ditos socialistas nunca foram democráticos? Infelizmente, a experiência dos chamados países socialistas se baseou numa interpretação fraudulenta do marxismo. Temos que aprender com essas experiências, mas devemos aprimorar a democracia e reformular alternativas. Como um governo como o de Lula poderia aplicar essas idéias na prática? Rompendo com o FMI, escolhendo parceiros comerciais importantes para que o Brasil não seja apenas um exportador de matéria prima, valorizando o setor produtivo e taxando o capital especulativo. Quanto mais o capital especulativo for taxado, melhor. Isso não provocaria uma turbulência econômica? Ninguém precisa cair nessa chantagem do mercado. Até porque o mercado mente. Lula tinha a obrigação de ao menos ter negociado com os credores internacionais condições melhores para o Brasil. O presidente da Argentina, com muito menos respaldo, conseguiu renegociar um acordo com o FMI mais favorável. Alguns dos seus inimigos dizem que a senhora já recebeu verbas para campanha de setores que a senhora critica, como o dos usineiros. Afinal, a senhora nunca recebeu? (Interrompe) Não, não, não, não. Essa acusação é de uma canalhice. Por que ninguém apresenta sequer um indício para provar isso? As pessoas não podem simplesmente fazer essas acusações levianas sem ter provas. Alguém acha que se eu tivesse rabo preso na política alagoana ou brasileira teria autoridade para gritar como eu grito? A senhora então tem controle sobre todo o financiamento de sua campanha? Não haveria nenhuma lógica no fato de alguns desses grupos financiarem minhas campanhas. Somente se eles fossem masoquistas. E nenhum desses grupos é formado por pessoas burras. Qual a sua grande mágoa no PT? Sempre briguei com muita gente para defender o Lula. Até por que a elite nacional sempre usava a baixa escolaridade de Lula como argumento de que ele não era preparado para governar. Infelizmente, uma vez no poder, a mudança foi tanta que muitas pessoas que estão no governo sequer se reconhecem no espelho. Hoje, os fatos indicam que existem ramificações dentro do Palácio do Planalto ligadas à lavagem de dinheiro e ao narcotráfico. Admirava tanto Lula e José Dirceu que talvez tenha me cegado. Algumas pessoas acham que vejo isso com felicidade, como uma prova de que eu estava certa ao sair do PT. Mas eu vejo tudo isso com tristeza.

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