Política
Partidos negociam pr�-candidatura de C�cero Almeida
MARCOS RODRIGUES O deputado Cícero Almeida (PDT) é uma das surpresas do período pré-eleitoral. Associando sua popularidade do rádio e TV a uma conduta assistencialista na periferia da capital, tem surgido na dianteira das intenções de voto para a sucessão da prefeita Kátia Born (PSB). Isso o tem deixado, como se diz no jargão político, como a ?bola da vez?. Seu partido (PDT) liderado pelo ex-vice-governador Geraldo Sampaio ainda não sabe o que fazer: mantém a candidatura ou negocia sua saída do páreo. Inclui-se nessas possibilidades mais espaço no governo ou até a ?negociação? de sua potencial candidatura. A idéia ganhou força depois que surgiram rumores de que Almeida poderia ser vice do empresário João Lyra (PTB). A negociação para isso estaria sendo encaminhada pelo sobrinho de Lyra, Robert Lyra, filiado ao PDT. Mas dentro do partido e fora dele tudo ainda não passa de especulações. O próprio deputado tem dito que ainda não conversou nada em definitivo com ninguém. ?Quem tem conduzido todas as negociações é o doutor Geraldo Sampaio. Eu ainda não fui chamado a opinar?, disse Almeida. Sua fala tem sentido. Almeida soube através da imprensa que o presidente do partido Geraldo Sampaio, acompanhado do secretário do Trabalho e Renda Corintho Campelo, almoçou com o governador Ronaldo Lessa (PSB). Segundo revelou, mesmo sendo ele o assunto da conversa, não foi convidado. O governador Ronaldo Lesa (PSB) por sua vez sabe que os termos da conversa com o partido podem lhe favorecer. Tudo porque ao contrário de seu primeiro mandato, onde não deixou Sampaio governar, agora o tem como aliado. Até a emissora de seu ex-opositor já vem se beneficiando do novo modo de se relacionar dos dois. Discrição Mas ainda assim o governador agiu com discrição ao se referir ao deputado durante uma solenidade no Palácio dos Martírios, quando empossou Petrúcio Bandeira como articulador político do governo. Olhando para Almeida na primeira fila da solenidade disse: ?Respeito todas as candidaturas. Inclusive, se caso o Cícero não possa caminhar conosco num primeiro momento, espero contar com seu apoio na seqüência do pleito?, disse Lessa. Coube ao deputado, depois do término da posse, cumprimentar o governador. ?Agora vou sair de fininho?, brincou Almeida de forma bem-humorada. O governador lembrou ainda que o deputado do PDT compõe sua base aliada na Assembléia Legislativa e tem votado com o governo. Vice O fato é que tanto Lessa quanto o maior adversário na sucessão ? o petebista João Lyra ? vêem Almeida com bons olhos, mas para vice. No PSB, entretanto, alguns setores imaginaram uma composição onde o deputado poderia encabeçar a chapa tendo como vice o vereador Marcos Vieira (PSB). Os defensores dessa hipótese preferem não aparecer, mas esse desenho político também começa a fazer parte das discussões internas não oficiais. Para o PTB, Almeida cairia como uma ?luva?, porque representaria a união do empresário com o trabalhador simples e com simpatia na periferia. Considerando que Lyra tem feito um discurso de trabalhar para os ?humildes?, o ?casamento? seria perfeito. Perfil Em meio a tantas especulações, Cícero Almeida prefere manter-se distante. Sua melhor justificativa para a liderança espontânea das primeiras pesquisas de intenção de voto é quanto ao seu perfil. ?Continuo o mesmo Cícero simples de sempre e isso as pessoas sabem identificar?, afirmou. Os pais de Almeida tiveram dez filhos, mas apenas quatro continuam vivos. Oriundo da cidade Marimbondo, na Zona da Mata de Alagoas, ele veio para a capital trabalhar com um tio quando saiu de casa aos 15 anos. ?Trabalhei de tudo, inclusive como servente de pedreiro na construção de um conjunto que fica em frente ao Hospital Sanatório. Dormia em cima da laje depois de um dia inteiro de trabalho enrolado com sacos de cimento. Comida era a mais simples possível, incluía cocada com pão?, lembrou. Táxi A vida começou a mudar quando Almeida foi trabalhar como cobrador de ônibus (de 1973 a 76). Em seguida conseguiu trabalhar como taxista, mas como diarista (sem táxi próprio). Conforme explica, ouvia rádio permanentemente. ?Parava perto da emissora só para ficar mais próximo dos locutores. Empolguei-me tanto que mesmo depois de conseguir comprar meu próprio táxi, surgiu uma chance de ser motorista da RÁDIO GAZETA (1978), não contei conversa: vendi meu carro e fui trabalhar na empresa?, detalha o deputado. Como motorista da empresa, passou a conviver com os antigos ídolos do rádio e foi se aproximando do estúdio. ?Quando dava o intervalo do almoço ia para o estúdio ver como era que funcionava a parte de operação das mesas de áudio?, revelou lembrando seu amigo da época, Chico Magalhães. ?Foi ele quem me ensinou os primeiros passos de operação?. Nesse período, depois que ganhou experiência no estúdio passou a trabalhar com nomes como Jeferson Morais e Gonça Gonçalves. Ambos ainda estão em atividade no jornalismo policial. Segundo o deputado, as coberturas que os dois faziam o fascinaram. ?Passei a conhecer esse mundo mais de perto através do trabalho deles?. Já em 1984 veio o contato com o microfone. Almeida lembra que gravava cartas de pessoas que queriam fazer anúncios na emissora. Depois disso o seu envolvimento com o rádio já incluía vendas de comercias, publicidade e pequenas produções. ?Tomei cada vez mais gosto pelo trabalho porque percebia que o meu caminho era esse mesmo. Desde então não parei mais?, afirma com veemência. A fala dura é para evitar especulações de que conseguiu as coisas com facilidade. ?Só consegui as coisas que tenho porque trabalhei bastante. Nunca fiquei sem emprego porque nunca criei obstáculos para o trabalho. O meu primeiro carro comprei com muito esforço?, repete ele. Política A popularidade adquirida com os programas de rádio serviram para que Almeida conquistasse um filão importante: a periferia. Ele garante que esse ?domínio? das massas não surgiu com interesses políticos. ?Tudo foi acontecendo naturalmente. Como só trabalhava com programas populares, a exemplo do que faço ainda hoje, que é o forró, passei a atingir as pessoas simples?, analisou. A possibilidade de aparecer na TV foi o que faltava para consolidar sua popularidade. As pessoas da periferia, que até então só o ouviam, passaram a vê-lo como alguém também simples. ?Acho que foi isso que aconteceu. De repente a TV me projetou para um público que já acompanhava o Cícero do rádio?. Sobre o fato de ocupar a liderança nas primeiras pesquisas para a sucessão de Kátia Born na Prefeitura de Maceió, ele analisa que as pessoas ainda o identificam como ?o mesmo Cícero que veio da periferia?. ?Não mudei o meu jeito de ser com ninguém. Continuo desempenhando o meu trabalho no rádio e na TV como antes?, declara. Assistencialismo O que para muitos é classificado como assistencialismo na periferia, para o deputado estadual é uma forma de não perder contato com a população. ?Sempre andei na periferia e por isso sei que as demandas lá são para saúde e formação profissional. Atuo onde ninguém chega. Tenho compromisso com essas pessoas?, sustenta. Almeida, depois de deixar a Câmara Municipal, elegeu-se deputado contando com os mesmos suportes: o rádio e a TV. A diferença é que agora sua ação na periferia é muito mais agressiva do ponto de vista de atendimento. Através das Centrais de Atendimento Médico Gratuito, ele já conseguiu atender, segundo revela, 60 mil pessoas. Os números impressionam e talvez por isso expliquem suas vantagens nas pesquisas. Para finalizar, Almeida fez questão de destacar que continua com seu programa na rádio, de 5 horas da manhã até 8 horas. Em seguida, vai para a TV onde é repórter policial. Quando chega a tarde, Almeida pode ser encontrado na Assembléia Legislativa, onde despacha com assessores de gabinete, recebe populares e participa das discussões no plenário. ?Isso com um detalhe: nunca faltei a nenhuma sessão?.