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�ndio vai comandar Funai sem verba em Alagoas

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ARNALDO FERREIRA Pela primeira vez, a Fundação Nacional do Índio (Funai), indica um índio para comandar a administração de sua representação de Alagoas/Sergipe. O técnico indigenista José Heleno de Souza, 53, casado, sete filhos, trabalha na autarquia federal desde 1976, onde começou como auxiliar de serviços gerais. Ao contrário de comemorações festivas nas tribos onde vivem os 12 mil índios alagoanos em situação de miséria, este guerreiro cariri-xocó, filho do cacique Cícero de Souza, preferiu a discreta posse sem pompa e sem solenidade com autoridades. Também não fez críticas aos brancos que anteriormente administraram a autarquia Ele assume praticamente sem dinheiro, para promover o desenvolvimento das tribos e sem ter como agilizar os processos de legalização fundiária das terras dos índios, que se arrastam há 20 anos entre Alagoas e Brasília. ?Sem dúvida que é motivo de muita alegria assumir a política dos índios de minha região. Mas também este será o meu maior desafio como índio porque, sem dinheiro, terei de encontrar soluções cobradas há três décadas?, revelou José Heleno. A trajetória de Heleno na Funai foi semelhante à história do índio no Brasil: de submissão aos políticos e aos brancos que administravam a repartição. Em 1976, começou como auxiliar de serviços gerais; quatro anos depois foi aprovado no concurso interno para o cargo de técnico indigenista. Desde 1990, está como administrador- substituto. Sua função tem sido de interlocução entre as comunidades e os administradores indicados para o cargo através do critério de apadrinhamento político. Mas que, na verdade, nada sabiam sobre a situação dos índios em Alagoas. Um fato curioso aconteceu com a posse José Heleno de Souza no cargo de administrador de Alagoas e Sergipe: a direção nacional da Funai confirmou seu ex-motorista, hoje chefe do Serviço de Assistência ao Índio, Amilton Diniz Botelho (que não é índio) para o cargo de administrador-substituto. ?Conheço José Heleno desde que entrei na Funai, em 1986. Trabalhei muito tempo como seu motorista e isto me deu a oportunidade de ganhar a confiança dele e das comunidades indígenas?, acredita Amilton Diniz. Comunidades Segundo José Heleno, Alagoas e Sergipe têm 11 comunidades onde vivem pouco mais de 12 mil índios: cariri-xocó com 508 famílias, localizada no município de Porto Real do Colégio, às margens do Rio São Francisco; wassu, na aldeia Cocal, em Joaquim Gomes, nas margens da BR-101 Norte, onde vivem 408 famílias; tingüí-botó, que se divide em duas aldeias ? Aconã, que congrega 11 famílias no município de Traipu, e Tingüi, com 79 famílias, no município de Feira Grande; xucurus-cariri (450 famílias) em Palmeira dos Índios; karapotó, com 190 famílias, no município de São Sebastião; geripancó, 320 famílias, em Água Branca; kalancós, 56 famílias, em Água Branca; karuazú, 200 famílias, em Pariconha; katoquins; 170 famílias, também Pariconha e Kuipancá, 117 famílias, que vivem no município de Inhapi. E na Ilha de São Sebastião, em Sergipe, vivem 80 famílias xocó. A maioria dos índios adultos, com idade superior a 30 anos, é analfabeta, vive da roça de subsistência em condições subumanas, por causa do alto grau de empobrecimento das comunidades. Uma das aldeias mais pobres de Alagoas é a dos cariri-xocó, onde o pai de José Heleno é cacique. Lá a maioria dos jovens vive desocupada. Há bem pouco tempo havia um elevado índice de doenças diarréicas em crianças e idosos, causado pelo consumo de água sem tratamento do Rio São Francisco. A comunidade também apresentava alto índice de jovens adultos envolvidos com o vício do alcoolismo. Identidade cultural Os índios de Alagoas foram perseguidos e dizimados durante os séculos XVI e XVII. Para escapar da perseguição dos portugueses e fazendeiros, eles passaram a viver escondidos e trataram de assimilar os hábitos dos brancos e dos mulatos. Esses e outros fatores contribuíram para perdessem suas referências de língua e identidade cultural. Porém, estudos recentes e pesquisas antropológicas realizados pelas universidades federais de Alagoas e de Pernambuco atestam que os índios alagoanos sofrem influência de várias etnias ? dentre elas, hoje, as mais fortes são as dos índios funiôs, pankararu, tuxá, principalmente as comunidades que vivem nas regiões do sertão e agreste alagoanos. ?Vamos buscar os estudos, as pesquisas antropológicas existentes na própria Funai e nas universidades para tentar devolvê-los as nossas comunidades. Queremos conhecer nossa história, que hoje é desconhecida pela maioria dos índios nas comunidades?, disse José Heleno. Um dos seus objetivos também é tentar resgatar a língua dos índios. ?Acho que além de resgatar nossa história, temos que começar a pensar em resgatar a língua dos nossos antepassados?, disse José Heleno, mas sem saber por onde começar o ?resgate antropológico?. O índio José Cícero dos Santos, da aldeia karapotó, de São Sebastião, que não estava na Funai na última quinta-feira, revelou que um dos pontos que unem as tribos de Alagoas é o ritual religioso ?Ouricuri? ? uma espécie de planta nativa. ?Neste ritual, celebramos, como no tempo dos nossos ancestrais, a festa do renascimento da natureza, dos animais, dos homens e das mulheres e evocamos nossos deuses?. Mas, seguindo recomendações do pajé e das comunidades, Cícero não revelou detalhes sobre este ritual, onde branco não entra. O administrador da Funai confirmou que o ritual do ?Ouricuri? é restrito às comunidades. ?Com a realização do Ouricuri guardamos algumas tradições e manifestações religiosas dos índios que vivem no Nor- deste. Luta agrária Como as 10 mil famílias de trabalhadores rurais sem-terra que vivem acampadas embaixo de barracos de lona preta na beira das estradas de Alagoas, os índios também pode sem incluídos no movimento social dos sem-terra. Entre os problemas para os quais os caciques das 11 tribos cobram solução rápida, o principal é a questão da posse definitiva da terra. ?Já existem as áreas demarcadas; o governo federal já emitiu decreto para desapropriação social para benefícios das comunidades indígenas. Porém, a questão da terra está longe de ser resolvida porque o governo ainda não indenizou os posseiros e não criou condições legais para dar a posse definitiva das terras, hoje estão ocupadas pelas comunidades?, revelou o administrador-substituto da Funai, Amilton Botelho. Porém, Botelho tranqüilizou os índios: ?Não há risco de nenhuma comunidade ser despejada das áreas que ocupam, porque a própria União conduz a situação?. Amilton Diniz reconhece que a burocracia federal termina gerando situações de tensão e conflito em pontos como Palmeira dos Índios, Porto Real do Colégio e São Sebastião, onde os posseiros cobram suas indenizações e fazendeiros dizem temer conflitos e ocupações. ?Por isso, acho que esse é um dos problemas para os quais o administrador da Funai deverá buscar solução. José Heleno, por sua vez, conhece de perto a situação, porque há 10 anos está ao lado dos índios nesta luta?. Sem recursos Além do combate ao analfabetismo entre os índios adultos, de tentar resgatar a origem cultural, de buscar a regularização fundiária, José Heleno de Souza terá de demonstrar muita criatividade para combater a miséria e o empobrecimento das comunidades indígenas. Só para se ter idéia de como é a relação do governo federal com os índios deste Estado, Brasília já mandou um comunicado para a administração de Alagoas e Sergipe avisando que está liberando para o fomento produtivo das 11 tribos a importância de R$ 150 mil. O índios imaginavam que iriam receber, este ano, algo em torno de R$ 400 mil. O dinheiro terá de ser aplicado em compra de sementes, manutenção de máquinas agrícolas, aquisição de combustível e de defensivos agrícolas. Para as ações administrativas e manutenção de seus postos indígenas, de cinco carros pequenos e quatro caminhões da Funai que ficam a serviço das comunidades, o governo disponibilizou apenas R$ 50 mil para todo o ano de 2004. José Heleno disse que os índios de Alagoas sobrevivem da agricultura de subsistência de milho, feijão, mandioca e amendoim. ?Mesmo que quisessem se envolver com outras culturas mais rentáveis não haveria como, porque não há recursos?. Para mudar o quadro de miséria nas comunidades e tentar gerar atividades de trabalho e renda, a administração da Funai Alagoas e Sergipe mobiliza seus técnicos para incluir as comunidades no Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). Assim, os índios estão conseguindo financiamentos de R$ 1,5 mil para manutenção de projetos de agricultura familiar nas comunidades. Agora, eles tentam conseguir recursos para investimento e custeio de outros projetos de médio porte.

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