Política
Idosos: sem dinheiro e abandonados em Macei�
ARNALDO FERREIRA As agressões aos direitos fundamentais e constitucionais dos idosos e a violência contra a infância são elos da mesma corrente de insensibilidade da burocracia do poder público e da sociedade contemporânea. A GAZETA DE ALAGOAS visitou, durante uma semana, os seis abrigos de idosos de Maceió, e encontrou 239 pessoas com idade acima de 60 anos, algumas com mais de 100 anos, que vivem esquecidas pelos órgãos federais, estaduais e municipais. E quase todos foram abandonados pela própria família. A vida produtiva deu lugar a um futuro incerto. Os velhinhos que antes trabalharam nas lavouras da cana-de- açúcar, de fumo, na agricultura de subsistência e na pecuária; que foram sindicalistas, empregados do comércio, trabalhadoras em casas de famílias importantes e até profissionais liberais, só não vivem em pior situação porque jovens de classe média, estudantes em ações isoladas, fazem visitas de solidariedade. As entidades filantrópicas que cuidam dos idosos fazem o impossível para manter os estabelecimentos funcionando e garantir o mínimo de dignidade para quem já ajudou na construção da riqueza econômica da sociedade e hoje tem o desprezo como pagamento. As seis entidades que zelam pelos idosos ? Abrigo São Vicente, com 25 homens; Abrigo Santa Luiza de Marillac, com 40 mulheres; Casa do Pobre, que mantém 23 homens e 57 mulheres; Lar São Francisco de Assis, com 38 homens e 36 mulheres; o Abrigo Santo Antônio de Pádua, com 17 homens, e a Casa Maria Júlia, que mantém 13 senhoras pobres ? há três meses não recebem um tostão dos repasses que chegavam do Ministério da Ação Social para a política mantida pelo programa federal de Assistência ao Idoso. Para garantir a alimentação básica dos abrigados, as entidades se valem de cheques pré-datados para os fornecedores de carne, peixe, frango, pães, leite, cereais e frutas. As entidades não sabem quando vão poder cobrir os cheques. Dos seis abrigos, quatro estão mais estruturados. Dentre os seus internos, há aqueles que contribuem com 80% do que recebem como aposentadoria. Os que têm aposentadoria recebem, em sua maioria, o salário mínimo. As despesas individuais são, geralmente, cinco vezes maiores que a sua contribuição prevista pelo Estatuto do Idoso. Sem dinheiro para manter os idosos, as instituições estão reduzindo em pelo menos 20% a capacidade de atendimento. Casa do Pobre O abrigo mais antigo de Maceió é a Casa do Pobre, que tem 72 anos e funciona no bairro do Vergel do Lago (zona sul da cidade). O diretor da instituição, engenheiro Cláudio Barbosa da Silva, é ligado ao grupo religioso ?Casais com Cristo?, da Igreja Católica, que ajuda a manter o abrigo. Ele revelou que sua entidade teria condições de atender 100 idosos, 50% homens e 50% mulheres pobres. ?Somos uma entidade filantrópica, que depende de repasses financeiros federais, do percentual legal das aposentadorias de alguns dos nossos internos e, fundamentalmente, de doações. Este ano, ainda não recebemos nada do governo federal e quase nenhuma ajuda dos governos estadual e municipal. Não sabemos quando virá o repasse de verbas públicas; daí temos de apelar para a boa vontade dos nossos fornecedores e de doares. Se a gente ampliar a nossa capacidade de atendimento, o pessoal vai passar dificuldades?, disse Cláudio Barbosa. Durante o ano de 2003, a Casa do Pobre recebeu como repasse federal recursos da ordem de R$ 31,2 mil, mensalmente. As despesas totais variam de acordo com o mês, mas beiram a casa dos R$ 50 mil. De alimentação básica, mensalmente, a instituição precisa de 1.200 litros de leite, 6 mil pães, 120 quilos de café, 300 quilos de carne, 50 quilos de peixe, 250 quilos de frango, 300 quilos de arroz, 100 quilos de feijão e cinco quilos de margarina. Nas despesas básicas, há ainda material de limpeza, higiene pessoal, fraldas, sabão, material de cama e banho e remédios. A folha de pagamento tem 40 funcionários. Manter os salários em dia é outro sufoco. ?O nosso material de consumo tem de ser de primeira, porque lidamos com pessoas idosas, algumas muito doentes?, afirma o diretor do abrigo. Cláudio Barbosa aproveitou a reportagem da GAZETA e fez um apelo: ?Precisamos que o Ministério da Ação Social, o governo do Estado e a prefeitura sejam mais ágeis nos repasses dos recursos para as instituições que cuidam dos idosos. Em 2004, não recebemos nada até agora?. Os internos da Casa do Pobre fazem passeios, passam o tempo vendo televisão e desenvolvem atividades recreativas e de lazer. As despesas são fiscalizadas por um grupo de 21 conselheiros voluntários. A instituição tem no seu quadro dois médicos, auxiliares de enfermagem, cozinheiros e copeiros. Abrigados como Adauto Gomes, 74, ex-trabalhador rural de Colônia Leopoldina, pai de um filho, considera ter tudo de que precisa, mas lamenta o abandono da família.