Política
RENAN FILHO OFERECE R$ 200 MI A ALUNOS PARA TENTAR CONTER EVASÃO
Professores, alunos e trabalhadores da Educação denunciam estratégia “eleitoreira” para tentar melhorar imagem do ensino público estadual
Sem estratégia de Estado definida para melhorar a qualidade do ensino médio público estadual, dos equipamentos escolares e sem programa para reduzir os maiores índices nacionais de evasão escolar e analfabetismo, o governo Renan Filho (MDB) no velho estilo dos programas de auditório do apresentador Sílvio Santos grita, nos municípios: “Quem quer dinheiro para voltar a estudar..?” O apelo jocoso ocorre depois de seis anos de governo e quatro secretários de Educação em um ano. O governador promete “distribuir” bolsas que somam R$ 200 milhões, numa tentativa desesperada de melhorar o perfil social da educação pública.
As ofertas são feitas nas visitas que o governador faz aos municípios, e tudo é documentado em “lives”. Acompanhado de secretários estaduais que são pré-candidatos nas eleições gerais do próximo ano, Renan Filho promete bolsa de R$ 500 para quem abandonou a escola e voltar a estudar; para o matriculado que frequentar 75% das aulas tem bolsa de R$ 100, mensal; para o aluno que concluir o ensino médio, outra bolsa de R$ 2 mil e para o professor envolvido nesta estratégia uma gratificação mensal de R$ 1,5 mil mediante comprovação do rendimento escolar. “Isso não é programa de Educação de Estado. Infelizmente, isso é uma estratégia política e eleitoreira. Não é assim que se combate os nossos indicadores sociais negativos. Precisamos de uma política de ensino público organizada”, ensinam a maioria dos 8 mil professores da rede estadual e a presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação, Maria Consuelo. “É triste uma coisa dessa”, lamentou Consuelo.
Diante desse modelo “fim de gestão na educação”, a maioria das 175 mil crianças e adolescentes matriculadas nas 350 escolas de ensino médio público estadual está entre a euforia de voltar às aulas 100% presenciais, poder ganhar R$ 100, o medo do coronavírus, o desestímulo por falta de atrativos e de atividade motivacionais nas escolas.
EVASÃO
De acordo com os números da Secretaria de Estado da Educação, 35 mil alunos matriculados não retornaram às aulas a partir de agosto. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) diz que a evasão escolar é muito maior e atingiu a 124.106 crianças e adolescentes no período da pandemia. Soma-se a isso o fato de Alagoas liderar a triste estatística nacional de analfabetismo. Quer dizer, 17,1%, ou seja, 440 mil jovens, acima de 15 anos de idade, não sabem ler nem escrever. A Seduc reconhece os elevados números de analfabetismo e de evasão escolar do Estado. Para resgatar os alunos matriculados e reduzir a taxa de estudantes fora da escola, o quarto secretário da Educação, Rafael Brito, confirmou a estratégia do governo de busca ativa e projetos que gratificarão professores com bolsa de R$ 1,5 mil/mês, alunos que retornarem ganharão R$ 500 e os matriculados com frequência regular terão bolsa de R$ 100/ mês e de R$ 2 mil para quem concluir em ensino médio.
O projeto de combate à evasão já teria resultado positivo. Segundo Brito, 68,5% dos 35 mil matriculados neste ano que estavam fora das escolas retornaram às salas de aula. A fonte dessa informação, divulgada pelo secretário, são as Gerências Regionais de Educação (Geres). “Em agosto deste ano, o número de evadidos era de 35 mil alunos, ocorreu uma queda expressiva para 11 mil atualmente. Ou seja, 24 mil alunos retomaram os estudos”, comemorou Brito.
Polícia prende um dos principais líderes do Comando Vermelho no Rio de Janeiro
Árvore desaba sobre carro e complica trânsito na Leste-Oeste
Homem é atingido por três tiros em tentativa de homicídio no bairro Cruz das Almas em Maceió
Acidente no Eixo-Quartel: motorista bate em poste e capota
Duas pessoas são baleadas no Vergel em Maceió
Porém, não muda a realidade constatada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em que Alagoas (17,1%), Paraíba (16,1%) e Piauí (16%) ocupam os três primeiros lugares de maiores taxas de analfabetos entre os 27 estados. Chegou-se a essa conclusão após a Agência Tatu analisar os dados extraídos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2019. Como no ano seguinte houve a paralisação do ensino público no País e a retomada ocorre lentamente a partir de agosto deste ano, por causa da pandemia do coronavírus, o perfil social no ensino médio e fundamental não registrou mudanças significativas no capítulo analfabetismo. Pelo contrário, a avaliação do Sindicato dos Trabalhadores da Educação, de diretores de escolas e professores é de que a situação “não melhorou ainda”. O secretário também admite. Apesar de ter a maior taxa de analfabetos, o Estado segundo o PNAD, foi o que mais reduziu a taxa entre 2016 e 2019, saindo de 19,4% para 17,1%, o que representa uma melhora no índice de 2,3%. Segundo o IBGE, os homens alagoanos são os mais afetados. Em 2019, 18,1% deles eram analfabetos, contra 16,3% das mulheres. A pesquisa considerou pessoas com mais de 15 anos de idade.
LEGISLATIVOS
A crise na Educação Pública Estadual foi criticada nas sessões da Assembleia Legislativa. Os deputados deram “nota vermelha” para o modelo de ensino público do governo Renan e disseram que é preciso melhorar e muito. A avaliação da deputada Jó Pereira (MDB), da Comissão Parlamentar da Educação, é de que “Alagoas continua entre os piores índices de analfabetismo do País, quando se fala da população com 15 anos ou mais”. Para a deputada, isso ocorre por falta de uma política de enfrentamento adequado do problema, de forma planejada, baseada em evidências, com base em diagnóstico preciso das causas e consequências dos efeitos históricos das ausências de políticas públicas de estado, devidamente monitoradas, avaliadas e readequadas. “As políticas públicas precisam contemplar ações de curto, médio e longo prazo”, recomenda. Recentemente, o governador Renan Filho (MDB) convocou, em Palmeira dos Índios, os 8 mil professores da rede estadual a buscarem os alunos em casa e ajudar no combate ao analfabetismo. O discurso teria maior receptividade se fosse em 2015, no primeiro ano do governo, disse um dos professores do município. Renan prometeu recompensar os professores com gratificações generosas que elevam o salário de R$ 2 mil para mais de R$ 5 mil. A estratégia sem articulação adequada foi criticada também pela deputada Jó Pereira, que é do mesmo partido do governador. “A evasão/abandono é uma das principais causas do analfabetismo e a busca ativa é uma estratégia eficaz de enfrentamento, se for implantada com o objetivo de conquistar resultados”. Para isso é necessário: identificar as crianças, adolescentes e jovens que abandonaram a escola ou que se encontrem com o vínculo escolar fragilizado, em qualquer idade; compreender as razões do afastamento do aluno, considerando seus aspectos econômicos, sociais e psicológicos; proporcionar os meios de superação dos obstáculos que impedem a frequência regular do aluno na sala de aula; acompanhar de perto a trajetória escolar de cada aluno, até o final do ciclo letivo, disse a parlamentar. O deputado Cabo Bebeto (PTC) considerou que o governo Renan, depois de seis anos, mostrou a falta de estratégia para reduzir o analfabetismo e a evasão escolar. “Onde já se viu pagar o aluno para ele estudar? Pagar o aluno para ele desistir de abandonar a escola? Dar gorjeta ao professor para ele ensinar? Isso é política eleitoreira. É uma enganação do governo Renóquio”, atacou o parlamentar ao questionar de onde virão os R$ 200 milhões que o governador prometeu distribuir com alunos e professores? “Renan precisa explicar de onde vai tirar o dinheiro que quer dar para a população”, cobrou.
SEDUC
Para tentar reduzir os índices de analfabetismo e de evasão escolar, o secretário Rafael Brito reconhece que precisará do apoio de deputados e da sociedade. Ele enviou para o Legislativo projetos como o “Criança Alfabetizada”. Estipula meta para os municípios e premiação em dinheiro para professores e servidores que trabalham com a alfabetização de crianças da idade prevista. Sobre o estoque de analfabetos, o secretário pretende atacar com outro programa: “Vem que dá tempo”. Tem como principal elo articulador o programa Ensino de Jovens e Adultos (Eja), também oferece dinheiro. Para conter a evasão escolar, há outro projeto no Legislativo que é o “Cartão Escola 10”.