Política
Deputados t�m capangas, diz desembargadora
CÉLIO GOMES A desembargadora Elisabeth Carvalho Nascimento fez críticas ontem à Assembléia Legislativa e ao governo do Estado, ao falar sobre o aumento de 56% implantado pelo Tribunal de Justiça (TJ) para os desembargadores. Para defender a legitimidade do aumento, ela disse que os poderes Executivo e Legislativo têm mais estrutura para manutenção, inclusive no que se refere à segurança pessoal dos integrantes dos poderes. Em entrevista à TV GAZETA, Carvalho afirmou que os deputados andam cercados de ?capangas? ? seguranças armados. ?Os deputados têm uma verba muito maior do que a nossa (da Justiça), podem andar com capangas dentro de uma Pajero, e atrás mais outra, com outros tantos capangas bem armados?, disparou Elisabeth Carvalho. Viagens do governador Na mesma lógica de defesa do aumento para os desembargadores do TJ, Elisabeth Carvalho também afirmou que o governo do Estado tem muito mais verba para sua manutenção do que o Poder Judiciário. ?Nós não temos o aparato de segurança que o chefe do Poder Executivo tem. Ele tem 200 policiais na Casa Militar?, disse Elisabeth Carvalho sobre o contingente militar à disposição do governador do Estado. Ela levantou dúvidas sobre os gastos com viagens feitas pelo governador. ?A verba de gabinete (do governo do Estado) permite que o chefe do Executivo faça viagens à Europa, leve a comitiva que quer, na primeira classe, tomando champanhe Cristal?, afirmou, numa ironia às viagens que o governo estadual anuncia como sendo parte da estratégia na busca de investimentos para Alagoas. Poder ?franciscano? A desembargadora do TJ também afirmou considerar ?legítimo? o aumento, em seu salário e dos demais colegas, para cerca de R$ 17 mil. ?Desses R$ 17 mil, mais ou menos 27% é descontado (sic) em imposto. O valor final é compatível com o cargo?, alegou. Para ela, os desembargadores trabalham em situações de risco, muitas vezes ?sofrendo ameaças de morte?. Assim, a desembargadora defende como ?justo? o novo salário no TJ. ?O Judiciário vive abandonado, é um poder franciscano?, lamentou. ?Franciscano? refere-se a São Francisco de Assis, o frei que viveu na Idade Média, fez voto de pobreza e virou santo da Igreja Católica. O dicionário Aurélio diz que o termo também é usado para designar aquilo que tem ?pobreza ou miséria extrema?. Ao afirmar que os deputados andam em veículos Pajero, Carvalho insinuou, também, que os parlamentares têm facilidade em ostentar veículos de alto valor no mercado. ?Eu compro meu carro em 24 prestações e, quando compro, uso o carro velho como entrada?. ?Não morre de fome? O presidente do Tribunal de Justiça, Geraldo Tenório, voltou a justificar ontem o reajuste concedido na remuneração dos desembargadores. Segundo ele, o aumento segue decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele explicou que o salário de um desembargador foi fixado em 90,25% do vencimento de um ministro do STF. Desse modo, o salário de um desembargador subiu de R$ 11 mil para R$ 17,2 mil. Geraldo Tenório disse que o valor ?é suficiente diante da responsabilidade do cargo e do preparo que ele exige de quem o exerce?. Em entrevista à TV GAZETA, o presidente do TJ foi irônico ao ser questionado se os R$ 17 mil são suficientes para os desembargadores. Tenório disse que o novo salário estava compatível com as necessidades do Judiciário e era o suficiente, pois assim ?ninguém morre mais de fome?. Presidente da ALE reage O presidente da Assembléia Legislativa, Celso Luiz (PSB), disse que o duodécimo do Poder Judiciário é o que mais aumentou entre os poderes, nos últimos cinco anos. Segundo ele, enquanto o Tribunal de Justiça teve aumento de 90% em seu duodécimo, nos últimos cinco anos o Legislativo só aumentou seus valores em 5% no mesmo período. Sobre as opiniões da desembargadora Elisabeth Nascimento sobre o uso de verbas por parte da assembléia, o presidente da Casa reagiu com irritação. ?Ela deveria opinar sobre o Judiciário?, disse Celso Luiz. O deputado afirmou considerar que as declarações de Elisabeth Carvalho significam uma ?invasão na independência? do Poder Legislativo. ?Eu interpreto a fala da desembargadora como uma intromissão. Ela não tem nada a ver com o Legislativo, não conhece sua realidade administrativa?, concluiu o deputado Celso Luiz. ?Verba é orçamentária? O governo do Estado respondeu às afirmações da desembargadora Elisabeth Carvalho por intermédio da Secretaria Geral de Governo, que tem como titular Germano Regueira. Segundo a secretaria, as verbas de gabinete têm previsão orçamentária e todos os gastos são submetidos ao Tribunal de Contas de Alagoas. A secretaria explicou, ainda, que o dinheiro da verba de gabinete é utilizado em gastos como transporte e material de expediente. O governo, no entanto, não entrou no campo político da discussão, preferindo a explicação ?técnica? sobre o uso das verbas.