Política
Vereadores s�o donos de votos em bairros
Você se lembra do jogo Banco Imobiliário, em que o vencedor é aquele que domina o maior número de bairros da cidade? Pois é seguindo regras bem semelhantes que os candidatos a vereador em Maceió disputam uma vaga na Câmara Municipal. A diferença, no caso, é que os bairros mais valorizados pelos candidatos não são os chamados mais ?nobres? e sim aqueles onde está o maior contingente de eleitores da capital. É na periferia, com sua concentração de eleitores, que se localizam os ?solos sagrados? mais disputados. Nos bairros mais pobres da cidade, onde o poder público não consegue atender à demanda dos moradores, o assistencialismo é personificado na figura do ?vereador do bairro?. Na campanha realizada nesses bairros, prevalece uma ética própria entre os candidatos à reeleição na Câmara: cada candidato pode fazer campanha onde quiser, desde que não ataque o vereador hegemônico no bairro nem tente criar entidades assistencialistas para disputar com o concorrente. Assim, evitam-se agressões mútuas e os ?currais? são preservados, numa disputa bem diferente das eleições majoritárias, onde os candidatos a prefeito geralmente não poupam acusações. Tabuleiro A demarcação de território é levada ao pé da letra pelo vereador Galba Novaes. ?O povo me considera o prefeito do Tabuleiro?, diz o vereador, ao falar da área de Maceió onde angaria mais votos, que herdou de seu falecido pai, também vereador e com o mesmo nome. Segundo Novaes, só no conjunto Clima Bom, que também fica no Tabuleiro, ele teve cerca de três mil votos nas últimas eleições. Na lista das localidades onde tem mais votos na cidade, ele também inclui os bairros de São Sebastião, Vergel do Lago, Fernão Velho, Rio Novo, ABC e Prado. No Tabuleiro, o vereador implantou uma fundação que distribui sopas e faz atendimento médico. ?A gente faz esse assistencialismo por falta de ações do Poder Executivo?, alega o vereador. O prestígio de ?Galbinha?, como é chamado pelos eleitores, deve-se, em grande parte, à carreira política do pai, Galba Novaes deCastro, que foi prefeito interino de Maceió e vereador durante quatro mandatos. Galbinha tinhadozeanos quando o pai transformou a casa onde morava (que hoje abriga a fundação) em escritório político. ?Moro há 43 anos aqui no Tabuleiro?, argumenta o vereador, que contabiliza 2.200 votos na primeira eleição e 5.917 na segunda. ?Espero ter 10 mil votos desta vez?, sonha o candidato. Jacintinho O nome da família também é levado em conta quando o vereador Arnaldo Fontan (PFL) faz campanha nas ruas do bairro do Jacintinho, um dos mais pobres e violentos de Maceió. ?Mas também fui bem votado na 1ª Zona Eleitoral?, diz o vereador, alegando que sua popularidade se estende a bairros mais ?nobres? da cidade (veja nesta página lista das zonas eleitorais da cidade). Os Amélio-Fontan se transformaram em uma espécie de dinastia política e ocupam cargos nos legislativos municipal e estadual há 51 anos, sustentados pela mesma base eleitoral: o bairro do Jacintinho. O pai de Arnaldo, Audival Amélio, é considerado pela família como o ?colonizador do Jacintinho?. Foi vereador durante 38 anos sucessivos. Ocupou todos os cargos na Câmara, à exceção da presidência. Hoje, Audival tem 82 anos e ainda acompanha a família nas caminhadas, pedindo votos para os filhos e netos. No caso de Arnaldo Fontan, ele tenta o quarto mandato. Teve 2.300 votos na primeira eleição, 2.600 na segunda e 5.680 na terceira. Mas nega que tenha montado fundações ou entidades assistenciais. Sobre entidades pertencentes a colegas vereadores, ele prefere não criticar. ?Queira ou não, todo vereador faz assistencialismo. É um botijão de gás, um dentista, enfim, muitas vezes fazemos o papel que deveria ser feito pelo Estado?, diz.