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SUICÍDIOS, ESQUIZOFRENIA, NANISMO E MISÉRIA SÃO REALIDADES NO SERTÃO

Cerca de 150 famílias de afrodescendentes vivem isoladas numa caatinga do município de Poço das Trincheiras

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Imagem ilustrativa da imagem SUICÍDIOS, ESQUIZOFRENIA, NANISMO E MISÉRIA SÃO REALIDADES NO SERTÃO
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Parece cenas de filme de terror o modo de vida da maioria dos habitantes dos quilombos Jacu e Mocó, na caatinga localizada a 17 quilômetros do município de Poço das Trincheiras, no Sertão de Alagoas. As comunidades foram as últimas reconhecidas pela Fundação Palmares como afrodescendentes que chegaram ao Brasil como escravos, revelam pesquisadores, antropólogos, líderes comunitários e funcionários da prefeitura local. Boa parte das 150 famílias quilombolas passa o tempo trancada dentro de casa por causa do albinismo ou dopada com remédios psiquiátricos para evitar crises de epilepsia, esquizofrenia e outros distúrbios neurológicos. Nos últimos dois anos ocorreram seis suicídios e tentativas de suicídios motivadas por depressão, revelam os líderes comunitários. São visíveis também os casos de raquitismo, nanismo, de portadores de deficiências física e auditivas que deixam as pessoas sem condições de trabalhar. A situação socioeconômica dos quilombolas é objeto de pesquisa e será retratada num artigo científico para o Congresso Jurídico Internacional previsto para acontecer no México. A formação da comunidade [estima-se] começou no século XVIII. Alguns historiadores e pesquisadores afirmam que os dois quilombos nasceram com famílias que fugiram das senzalas do Nordeste e/ou do massacre do Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, no município de União dos Palmares, em 1635. Porém, não há registro, ainda, que confirme tais possibilidades. A maioria dos moradores mais antigos tem problemas na saúde mental e mal consegue descrever, com precisão, a própria história da evolução familiar deles. Outro aspecto que chama atenção é a quantidade de anões. Numa avaliação aleatória, os agentes de Saúde e líderes comunitários acreditam que o nanismo está presente em cerca de 30% da população. Outro fato curioso é que algumas famílias com ocorrência de nanismo são portadores de distúrbios mentais. Esse é o caso da família da artesã Rosa Maria da Conceição, de 37 anos e com pouco mais de um metro de altura. A irmã dela morreu e tinha a mesma altura. O casal de filhos adolescentes de Rosa tem mais de um metro e meio de altura. Os pais (João Pedro Rodrigues e Maria Antônia da Conceição) também não eram anões.Rosa, os filhos, o marido, os pais e o sogro sofrem com problemas neurológicos, passam os dias trancadas em casa por causa dos remédios que consomem para evitar as crises de epilepsia, esquizofrenia e outros distúrbios. Como a maioria dos moradores, ela sobrevive com a renda de R$ 400 do Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família), do salário-mínimo (R$ 1.212,00) do sogro aposentado e com mais ou menos R$ 50 semanais que apura quando consegue vender cestas de “croá” [vegetação típica da região que é matéria-prima para artesanato típico]. Gasta quase metade da renda com medicações. É difícil o acesso aos quilombos pelas estradas estreitas de barro e esburacadas. As moradias são em barracos de taipa. A prefeitura local começou a construir casas de alvenaria para melhorar a qualidade de vida das 150 famílias de Jacu e Mocó. Os quilombos ficam no extremo da zona de caatinga, e a prefeitura de Poço das Trincheiras está a 240 quilômetros de Maceió. Esse isolamento territorial piora as condições de vida dos habitantes, explica a família da senhora Maria José Lourenço dos Santos. Ela é portadora de surdez crônica e o marido sofre com distúrbios mentais. Para complicar a vida dele, um acidente na medula o deixou paralítico. Para sustentar as três filhas e comprar remédios, o casal tem rende de um salário-mínimo e mais R$ 400 do Auxílio Brasil. A filha mais velha, Lucineide dos Santos Correia, 18 anos, terminou o ensino médio, não sai de casa e no encontro com a nossa reportagem atuou como porta-voz da família. Lucineide confirmou que a família dela como a maioria dos vizinhos consomem remédios controlados e tem problemas de depressão, epilepsia e outros distúrbios. Pelas ruas dos quilombos é comum encontrar cidadãos como Paulo Antônio, andando e falando com dificuldade por causa dos remédios psiquiátricos que toma para tratar de esquizofrenia. Também tem problemas com alcoolismo. Os moradores mais antigos acusam gestões passadas da prefeitura de abandoná-los. “Aqui moram pretos, pobres e doentes. Quem quer saber da gente?”, reclamou um dos idosos. Cada família ocupa uma pequena área herdada dos avós. Vive da cultura de subsistência: milho, feijão, mandioca, batata e da pequena criação de animais domésticos. Os jovens que não tem problemas neurológicos trabalham em atividades temporárias na pecuária e lavouras da região. A maioria também abandonou a escola.

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