Política
PF investiga morte de radialista em Santana
CELIO GOMES GILVAN FERREIRA Reviravolta nas investigações sobre a morte do radialista Jorge Lourenço dos Santos, da rádio Criativa FM, executado em julho deste ano, em Santana do Ipanema, a 204 km de Maceió. A GAZETA teve acesso a um relatório reservado das investigações da Polícia Federal sobre o caso, que foi encaminhado ao Ministério da Justiça. As investigações voltam a levantar elementos de que teria havido interesse político no assassinato de Jorge Lourenço dos Santos. A conclusão da PF contraria o que diz a Polícia Civil, que apontou suspeita sobre a família Boiadeiro, no inquérito enviado à Justiça pelo delegado de Santana do Ipanema, Valter Nascimento Rocha. Pela versão da Polícia Civil, Jorge Lourenço teria sido assassinado pelo pistoleiro Marcondes Cavalcante Targino, o ?Marcondes Boiadeiro?, para evitar que ele denunciasse o envolvimento da família Boiadeiro em vários crimes cometidos no Sertão de Alagoas, inclusive pelo próprio acusado. Estranha testemunha A versão da Polícia Civil se baseou no depoimento de uma ex-funcionária-fantasma da prefeitura de Batalha, identificada como Rejane. Ela contou ao delegado Valter Nascimento Rocha que conhecia o radialista Jorge Lourenço ?há muito tempo? e teria, inclusive, morado com sua família durante oito meses. A testemunha disse que revelou ao radialista os vários crimes dos Boiadeiros, que ficaram sabendo dessas informações. Por isso, a família teria decidido executar o radialista. Já no depoimento à Polícia Federal, a testemunha teria demostrado estar confusa e não aparentava ser ?confiável?, por apresentar indícios de distúrbios mentais. ?Ela [a testemunha] não apresentava segurança nas suas respostas, e as informações repassadas não foram comprovadas. Apesar de afirmar que conhecia o radialista há muito tempo, e ter morado com sua família, ela foi incapaz de lembrar onde o radialista morava em Santana do Ipanema?, diz um dos trechos do relatório da PF, que também foi enviado ao juiz de Santana do Ipanema, Galdino Amorim. Ainda segundo o relatório da PF, o depoimento da viúva do radialista Jorge Lourenço, Genilda Freitas, teria aumentado as suspeitas de que a testemunha da Polícia Civil mentiu quando foi ouvida pelo delegado Valter Nascimento. ?A viúva Genilda Freitas disse que não conhecia a testemunha e que ela nunca morou com sua família. Ela contou que o esposo nunca tinha falado ou denunciado qualquer crime da família Boiadeiro?, acrescenta o relatório. As investigações da Polícia Federal apontam ?fortes elementos? que comprovariam o envolvimento de políticos na morte do radialista, como sugeriam as primeiras investigações da própria Polícia Civil. Depois do depoimento à PF, a testemunha teria desaparecido. Crime político O relatório da PF, a que a GAZETA teve acesso, volta a levantar a possibilidade crime político, apontando suspeita sobre envolvimento do deputado estadual Isnaldo Bulhões Júnior (sem partido), de família tradicional com forte influência na região do Sertão de Alagoas, principalmente em Santana do Ipanema. De acordo com o relatório da Polícia Federal, ?Jorge Lourenço teria recebido vários recados de pessoas ligadas ao deputado estadual, que recomendava que ele parasse com críticas feitas no seu programa de rádio. Os recados diziam que o deputado ia calar a sua boca?. Essa versão não foi aprofundada pelo delegado Valter Nascimento, que também não teria investigado as supostas ameaças feitas por outro suspeito, Sérgio Campos, chefe de gabinete do prefeito de Santana do Ipanema, Marco Davi (PV). Depois de ter agredido Sérgio Campos, Jorge Lourenço teria passado a sofrer ameaças de morte. Resposta O delegado Valter Nascimento disse que ?não conhece detalhes? do relatório das investigações paralelas da Polícia Federal sobre o assassinato do radialista Jorge Lourenço. Nascimento disse que enviou o inquérito à Justiça e aguarda um posicionamento oficial. ?Eu concluí o inquérito policial, encaminhei ao promotor e ao juiz de Santana do Ipanema e estou aguardando as medidas que serão tomadas. Sobre este relatório [da PF], não tenho nenhum conhecimento e prefiro não comentar as informações que foram encaminhadas ao Ministério da Justiça?, afirmou o delegado. Oficialmente, a PF aguarda uma posição do Ministério da Justiça sobre a decisão de retomar as investigações sobre o assassinato do radialista Jorge Lourenço. A GAZETA apurou que a presença da PF nas investigações foi sugerida pela então candidata a prefeita Renilde Bulhões (PTB) ? mãe do deputado Isnaldo Bulhões Júnior ?, que chegou a ser citada pela esposa do radialista, Genilda Freitas, como uma das pessoas ?interessadas? na morte de seu marido. Genilda voltou atrás nas informações fornecidas por ela mesma à Polícia Civil, mas teria reafirmado as acusações de que membros do grupo da prefeita eleita Renilde Bulhões seriam ?possíveis? envolvidos no assassinato de seu marido. A viúva confirmou o depoimento à PF e disse que vai pedir ao Ministério da Justiça que a investigação do crime saia da esfera estadual. Ela pede apuração da própria PF. Genilda disse ainda que acredita que a morte do seu marido tenha sido um crime político, mas não poderia afirmar se houve participação do grupo da prefeita eleita Renilde Bulhões. Também não afastou a possibilidade de participação do chefe de gabinete da prefeitura de Santana do Ipanema, Sérgio Campos. ?Já está certo com o nosso advogado que vamos pedir ao Ministério da Justiça a participação da Polícia Federal na morte do Jorge Lourenço. Eu acredito na versão da Polícia Federal, que diz haver envolvimento político na morte do meu esposo?, disse. ?Não tenho como afirmar que foi o grupo da prefeita Renilde Bulhões ou o chefe de gabinete da prefeitura, Sérgio Campos, mas quero que o crime seja esclarecido e, por isso, vamos pedir que a Polícia Federal assuma o caso?, afirmou Genilda Freitas.