Política
Senado faz sil�ncio em homenagem a Furtado
Os senadores fizeram, ontem, um minuto de silêncio em homenagem ao economista Celso Furtado, falecido no último sábado (20) aos 84 anos de idade. Na ocasião, o presidente da Casa Legislativa, José Sarney, homenageou o economista que foi ministro da Cultura em seu governo, dizendo que perdeu um grande amigo, por quem tinha grande admiração. Ele o definiu como um homem de pensamento universal, que abordava as questões do mundo com a mesma capacidade com que analisava as questões tópicas do Nordeste brasileiro. ?É com imensa sensação de tristeza que aqui estou, recordando-me de Celso Furtado. Ele não era somente o economista respeitado no mundo inteiro, com passagens pela Sorbonne e Cambridge. Ele era também o professor, mestre de tantas gerações brasileiras, e grande humanista?. Sarney disse ainda que Celso Furtado foi ponto de referência de estudo do Brasil e de sua economia. E observou que seu livro mais conhecido, Formação Econômica do Brasil, teve ?fundamental e indispensável importância na formação de todos nós?. Talvez o nome mais expressivo das ciências econômicas no Brasil, Celso Monteiro Furtado publicou uma obra com relevante conteúdo histórico que faz parte da bibliografia fundamental para economistas e interessados no assunto até hoje. Autor do clássico Formação econômica do Brasil, que descreve a economia brasileira desde o período da colonização até a sua industrialização, esse paraibano atuou intensamente na vida pública do país e realizou importantes estudos relacionados à situação econômica nordestina. Furtado foi adepto da linha estruturalista e destacou-se por enxergar a economia de uma maneira social, mais humanista. Autor da ?dialética do desenvolvimento?, na qual explica que o desenvolvimento dos países ricos significa o subdesenvolvimento das nações mais pobres, ele recebeu o título de ?economista emérito do Brasil?, conferido pelo Conselho Federal de Economia, em dezembro de 2001, por reconhecimento ao seu trabalho. Autodidata Nascido em 26 de julho de 1920, em Pombal, sertão da Paraíba, Furtado não ?colava? nos exames do liceu paraibano, pois não queria se submeter ao que considerava uma humilhação. Seu pai, o juiz Maurício Medeiros Furtado, tinha uma vasta biblioteca, fundamental para despertar no autodidata Celso o interesse pelos livros. Participou da Força Expedicionária Brasileira, na última fase da Segunda Guerra Mundial e, após concluir seus estudos em Direito, passou a se dedicar às Ciências Econômicas. Para o economista e professor da Universidade Estadual de Campinas, André Tosi Furtado, filho mais novo de Celso, ele distinguiu-se dos outros analistas econômicos por dois motivos: o notável conhecimento de história e o extenso conteúdo teórico. ?Seus livros têm um embasamento histórico fundamental e seus estudos, relevantes até hoje, serão recomendados por muitos anos?. Um dos primeiros a integrar a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), importante escola de pensamento econômico da região sediada no Chile, Furtado, que nunca prestou serviços para uma empresa privada, participou de importantes momentos da política brasileira. Fundou e dirigiu, por exemplo, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). No entanto, esbarrou nos interesses de políticos nordestinos ligados a setores que não admitiam perder suas posições e privilégios com a atuação da instituição. Furtado foi membro da Academia Brasileira de Letras e revezava sua morada entre o apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, e Paris. Aos 84 anos, dizia que continuava a fazer a mesma coisa de sempre: ler e escrever. Além de apaixonado pelos livros, o economista foi fã de uma boa partida de tênis. ?Foi o esporte que pratiquei por mais tempo em minha vida?, afirmou em entrevista à revista Ciência Hoje on-line, há dois anos. Por duas vezes, o economista de maior renome do Brasil quase interrompeu sua vida de maneira precoce. A primeira ocorreu durante a infância, quando o pequeno Celso lançou uma bola sobre uma panela de feijão que estava em cima do fogão. O enorme artefato caiu sobre o corpo do menino, que sofreu sérias queimaduras. A segunda, mais grave, ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando Furtado compunha a Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Itália. Um bombardeio destruiu uma estrada momentos antes de passar o jipe em que ele se encontrava, no banco traseiro. O carro, sem capota, perdeu o controle e ele foi lançado em um barranco, onde bateu com a cabeça em uma pedra.