Política
INTELECTUAIS REFLETEM SOBRE OS IDEAIS DA INDEPENDÊNCIA EM AL
Pensadores analisam contexto político e social vivido pelo Estado desde que o Brasil se separou de Portugal
Na data em que o Brasil celebra o bicentenário da Independência do Brasil, pensadores alagoanos refletem sobre o significado de independência e falam do contexto político e social de Alagoas, de 1822 a 2022.
O historiador Douglas Apratto conta que aquele século 19 trouxe muitas novidades a Alagoas, com uma onda transformadora que se iniciou com a transferência da corte portuguesa para o Brasil. Apesar disso e da conquista da emancipação política de Alagoas, existia uma estrutura colonial que não permitia que a revolução chegasse ao estado.
“A força do latifúndio e a aversão ao mundo urbano eram um entrave poderoso. Seríamos rurais até a segunda metade do século 20. Um caleidoscópio que até poderia mudar para não ter mudança. Forças econômicas, políticas, sociais e religiosas incrustadas numa estrutura pétrea, interligadas. A emancipação local, o evento às margens do Ipiranga, não teve a participação popular. E a muito custo ia mudando alguma coisa num país onde a escravidão foi a última a ser erradicada no continente”, reflete Apratto.
O pesquisador pontua que é preciso analisar o sentido da palavra “independência”. “Ela define a passagem à maioridade. O conceito caracteriza, em tese, a condição de soberania econômica, política e cultural pela qual o sujeito coletivo detém os comandos de sua autodeterminação e se opõe a quaisquer formas de sujeição”, explica. “E aí, tem a pergunta capital: obtivemos a nossa soberania econômica, política e cultural?”, questiona o pensador.
Para Alberto Rostand Lanverly, escritor e presidente da Academia Alagoana de Letras (AAL), que realizou um seminário no dia 1º de setembro para falar justamente sobre os ideais da Independência, o bicentenário vem renovar provocações que o grito do Ipiranga apresentou ao Brasil.
“O que seria o ideal de independência? O cidadão nasce em uma redoma com pequenas fissuras. Ele nasce protegido e, por mais que tenha liberdade, ele está ali, naquele círculo. Isso é também Alagoas. Vai depender da forma com que cada um se movimenta, para que saiba fazer uso dessas fissuras que existem na redoma, no que o cerca, prende, e que pode ser o pai, a mãe, a situação, Portugal, em relação ao Brasil, Pernambuco, em termos de Alagoas, para que ele se estabeleça como independente”, inicia Lanverly.
“Não se trata de um raciocínio ideológico, histórico, mas algo que trago do meu coração: somos independentes quando encontramos parceria com os nossos semelhantes. Muitos dos ideais da Independência sequer chegaram a Alagoas naquele período, senão, não teríamos tanta fome, tanta pobreza, teríamos crescido de forma mais igualitária”, defende o literato.
“Aqueles que já estão fora da redoma deveriam ter em mente o objetivo de oferecer condições para que todos tenham independência. Trabalhando, tendo acesso ao conhecimento e à cultura. O que às vezes dói, em termos de Brasil e de mundo, é que a vaidade neutraliza os esforços empreendidos em busca de uma verdadeira independência”, completa Lanverly.
ALAGOAS NA HISTÓRIA
“Imaginemos Alagoas em 1822. Uma capitania recém emancipada, mergulhada no clima de tensão, de instabilidade política pela qual passava o Brasil. Organizava com dificuldade, portanto, o seu aparelhamento institucional. Com coisas simples, como a introdução da imprensa na província, uma mera tipografia, que foi negada pela corte. Numa época de difíceis comunicações, a notícia do grito do Ipiranga só chegou aqui algumas semanas depois”, narra Douglas Apratto.