Política
Presta��o de contas de campanha � fic��o
CELIO GOMES ODILON RIOS Quanto custa, afinal, uma campanha eleitoral como a que escolheu o apresentador de programas policias e deputado estadual Cícero Almeida prefeito de Maceió? Se a pergunta for para aqueles diretamente envolvidos no negócio ? os candidatos e os partidos ? o custo é quase uma pechincha. Almeida e seu adversário derrotado, Alberto Sextafeira, confirmam a regra e, oficialmente, apresentam números de gastos de campanha cujos valores estão mais próximos da ficção do que da realidade. Esta semana, a GAZETA obteve, junto à Justiça Eleitoral, cópia da prestação de contas dos dois candidatos que disputaram a prefeitura. Eles ?economizaram?. Previsão e sobras No começo da disputa, os candidatos entregaram ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) suas previsões de gastos na campanha. Almeida informou que poderia gastar até R$ 5 milhões. Sextafeira, por sua vez, disse que seus custos poderiam chegar a até R$ 2 milhões. Essas previsões, por si só, já fogem da realidade de mercado, segundo apurou a GAZETA na época em que os orçamentos das candidaturas foram entregues ao TRE. Os dados levantados pela reportagem, há cinco meses, mostravam que cada campanha para prefeito de Maceió poderia chegar ao custo total de R$ 15 milhões. Além de ficarem bem abaixo desse valor, as duas campanhas teriam custado praticamente a metade do que previam os próprios partidos. Almeida diz que sua campanha custou exatos R$ 2.761.926,50. Já o valor arrecadado em doações foi de 2.762.200,00. Entre receita e despesa, portanto, sobraram apenas R$ 273. Já a coligação de Sexta informou na prestação de contas que sua campanha custou R$ 841.220,55. E a arrecadação junto a doadores somou 841.700,00. Uma sobra de modestos R$ 479,45. Tamanha coincidência entre receita e despesa, nas duas campanhas, pode ser fruto de rigoroso planejamento ? até porque os números estão aprovados pelo TRE e não há nada de ilegal com eles. Mas a legalidade encobre as brechas da legislação, que não tem elementos para comprovar a veracidade dos dados apresentados pelas candidaturas ? seja em Alagoas ou em qualquer outro canto do País. Showmícios ?baratos? Publicitários que coordenaram campanhas eleitorais ? em Alagoas e em outros Estados ? dizem que a ficção da campanha em Maceió já começa no custo total apresentado. ?Os valores apresentados como despesa total da campanha não dão nem para pagar os custos com o programa de televisão e rádio no guia eleitoral?, disse um especialista no assunto, que prefere não ser identificado, por motivos óbvios. Um exemplo de valores subestimados são os custos apresentados na rubrica ?Cachês de Artistas ou Animadores?, como está descrito no documento da prestação de contas. A campanha de Cícero Almeida diz que foram gastos R$ 249,5 mil. Sextafeira fala que, para os mesmos fins, gastou apenas R$ 197,6 mil. Produtores culturais da capital, que também preferem não ter os nomes revelados, dizem que as cifras que Almeida e Sextafeira disseram ter gasto com shows e espetáculos, durante o período eleitoral, são ?irreais?. ?A gente sabe que as campanhas se movem muito dentro dessa estrutura de entretenimento, de oferta de diversão. Mas nem todos os artistas gostam de ter seu nome ligado à política e, por isso, cobram caro mesmo. Isso tem preço?, diz um dos especialistas ouvidos pela reportagem. Para os agentes culturais, os cachês costumam aumentar quando a proposta de show tem qualquer tipo de vinculação política ou partidária. ?Você pode até conseguir negociar um pacote de apresentações com os artistas, mas os mais famosos, mais populares, não gostam de baixar o cachê. Então, cobram alto mesmo?, diz um produtor de Maceió. Para ele, o valor fornecido por Cícero Almeida para a realização de apresentações musicais, por exemplo, está muito distante do que pode ter custado de fato. Almeida declarou ter desembolsado R$ 249.500,00 com cachês artísticos. ?Acho muito difícil que esse valor tenha sido suficiente para pagar as despesas com os artistas. O Chiclete com Banana, para citar só um exemplo, cobra de R$ 100 mil a R$ 150 mil por show. E você tem de colocar nesses cálculos os gastos com estrutura: palco, luz e som, algo que custa cerca de R$ 8 mil por show?, observa um produtor. A banda baiana liderada pelo vocalista Bel tocou duas vezes na campanha de Almeida. Além do Chiclete, também estiveram por aqui, na época da campanha do então candidato do PDT-PTB, grupos como o Araketu ? cujo cachê gira em torno de R$ 40 mil ? e a cantora Gil, que também cobra essa média por apresentação. Já a campanha de Alberto Sextafeira, ainda mais tímida em sua declaração de gastos, não deixou o eleitor maceioense na mão ? também trouxe artistas popularmente consagrados para animar suas atividades eleitorais, entre eles a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. Em sua prestação de contas, Sexta diz ter consumido parcos R$ 197.650,00 com cachês e espetáculos. ?Esse valor é o que se gasta em uma única apresentação de Zezé di Camargo e Luciano, que não sai por menos de R$ 150 mil, sem contar passagens aéreas, bons hotéis e alimentação?, diz uma outra fonte consultada. Além de Zezé e seu irmão, artistas como Reginaldo Rossi e bandas como Baby Som ? com preços variando entre R$ 15 mil e R$ 30 mil ? também animaram a campanha de Sextafeira. ?Em época de campanha, as empresas superfaturam os serviços entre 50% e 100%?, disse outro publicitário. ?Eu estimo que esta campanha, por mais difícil que seja de acreditar, não foi uma das mais caras, mas a circulação de dinheiro aplicado em shows, materiais gráficos e outras coisas ficou entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões para cada lado. Ao contrário do que os candidatos disseram, esta campanha não foi ?franciscana? assim?, resume um professor de Comunicação e publicitário.