Política
Estilo de Almeida varia entre �o espet�culo e a lei do sil�ncio
ODILON RIOS Ele chorou na posse, subiu em poste para desativar radares eletrônicos, soltou a voz em cantoria ao visitar o Mercado da Produção e percorreu comunidades da periferia, entre sorrisos e ares de lamento com o quadro de pobreza. Contato direto com as ruas, longe das salas fechadas e de gabinetes refrigerados. ?O povo vai me ver nas ruas todos os dias, não ficarei trancado na prefeitura?, avisou o prefeito de Maceió Cícero Almeida, ao anunciar seu estilo de governar. Nos primeiros dias à frente da prefeitura, misturou cenas que parecem típicas de campanha eleitoral. Almeida ainda parece um pouco com um candidato em busca de votos. O curioso é que o ?novo estilo? do prefeito durou apenas dois dias, a segunda e a terça-feira da semana passada. A partir da quarta-feira, Almeida silenciou e sumiu das ruas, voltando aos gabinetes e salas de reuniões. A rápida mudança atinge também a forma de se comunicar com a imprensa. Do mesmo modo que anunciou que estaria sendo visto em público e falando o tempo todo com a população, Almeida imprimiu o mesmo jeito voluntarista em entrevistas ? mas isso agora também mudou. Quando subiu no poste para desativar o ?pardal? que multava motoristas infratores ? o gesto mais espetacular ?, o prefeito soltou uma frase de efeito, como em outras ocasiões: ?Acabou a máfia?, disparou ele, sem explicar a que máfia se referia e nem quais seriam os supostos beneficiados por tal máfia. O prefeito também foi rápido ao anunciar outras medidas de sua administração. ?Vamos cortar 60% dos cargos comissionados?. Nada foi cortado até agora e o governo municipal terá de resolver a situação criada pelo prefeito, depois que prometeu o corte radical. Ainda sobre os cargos em comissão, Almeida criou outro embaraço para sua equipe, ao ?chutar? o número de comissionados que haveria na prefeitura que ele acabava de receber. Segundo o prefeito, seriam mais de 2.600 cargos em comissão, mas dias depois a prefeitura exonerou 1.097 comissionados e garantiu ser este o número real de nomeados em comissão. Depois da polêmica, o governo municipal abandonou o assunto ?corte de comissionados?, mas deixou no ar uma chance para ser cobrado por seus adversários, que exigem o corte prometido. Foi o caso do ex-vice-prefeito Alberto Sextafeira. ?Vamos cobrar o corte prometido pelo prefeito. Ele tem que descer do palanque e começar a governar?, disse Sextafeira, derrotado por Almeida na eleição. O prefeito também ameaçou não pagar o salário do mês de dezembro aos servidores, alegando que a última folha do ano seria de responsabilidade da gestão que terminava o mandato, da ex-prefeita Kátia Born (PSB). Se foi bravata ou não, a verdade é que o prefeito voltou atrás e o pagamento começa nesta terça-feira, para felicidade do funcionalismo público. Afinal, que estilo é esse de governar? Luiz Dantas, o homem escolhido para cuidar da comunicação do prefeito, responde: ?É o estilo Fidel Castro?, afirma o secretário municipal de Comunicação. Sem agenda O secretário Dantas decifra, de modo particular, qual é o ?estilo Fidel? inaugurado por Almeida em Maceió. ?O Fidel, de repente, decide visitar uma escola em Cuba, e o compromisso está fora da agenda?, comemorava o secretário, nos dois primeiros dias em que Almeida desfilava na periferia, dançando até ao som do forró ?Locadora de mulher?, música gravada pelo próprio prefeito, que entre as muitas atividades que já exerceu, teve a de cantor. O prefeito começou a mudar seu jeito descontraído a partir da última quarta-feira, depois de uma reunião com o presidente da Câmara Municipal, vereador Arnaldo Fontan. Do encontro saiu a notícia do impasse com os vereadores, insatisfeitos com a decisão do prefeito de cortar todas as emendas apresentadas pelos parlamentares ao orçamento 2005 do município. Na sexta-feira, em outra reunião, ficou acertado que o prefeito vetará 151 emendas das 155 apresentadas. No total, os recursos somam cerca de R$ 50 milhões. Na quinta-feira, a GAZETA publicou a informação sobre o impasse entre Almeida e a Câmara. A prefeitura reagiu com uma nota dizendo que o prefeito ?não reconhecia crise com a Câmara?. A nota foi assinada pelo secretário Luiz Dantas. O prefeito evitou falar diretamente com a imprensa sobre o assunto. A partir da quarta-feira, o expediente do prefeito foi na Prefeitura e o contato direto com a população foi suspenso. Sem ir às ruas para o ?meio do povo?, Almeida era encontrado na sede do Executivo Municipal, mas sem acesso, inclusive para a auto-anunciada multidão de eleitores seus, que se apinhavam nos corredores esperando conversar com o prefeito ou ganhar alguma cesta básica. Nada. Ao lado do ?estilo Fidel?, a Secretaria de Comunicação impôs a lei do silêncio ao prefeito. Para falar com Almeida, nem a imprensa conseguia vencer os ?guardiões? no gabinete e nos corredores da prefeitura. Como o assunto mais polêmico da semana foi a reforma administrativa e a crise na Câmara de Vereadores, Almeida, que foi repórter policial, fechou as portas aos jornalistas. ?O prefeito está com a agenda cheia?, alegava o secretário Dantas. Começo Não foi só o prefeito que usou das frases de efeito e de gestos largos para mostrar serviço à frente da máquina pública. Secretários falaram em ?herança maldita? e ameaçaram auditoria para apurar a situação das pastas que, para alguns, é de sucateamento. Essa foi a posição, por exemplo, do secretário Regis Cavalcante, que disse ter encontrado um quadro caótico, com escolas fechadas, falta de informações sobre os números do ensino na capital e milhares de crianças fora da sala de aula. Foi chamado de ?preguiçoso? e ?revanchista? pela secretaria que saía, Ana Paula Saldanha. Na sexta-feira, a semana de trabalho para o prefeito terminava com mais uma decisão, desta vez publicada no Diário Oficial do Município. Almeida decidiu cancelar todos os contratos de locação de veículos atualmente em vigor na prefeitura. A semana que começa recebe a dúvida sobre como será a agenda do prefeito: movida ao estilo de Fidel Castro, via Luiz Dantas, ou fechada na lei do silêncio.