Política
DIA DA MULHER: PROFISSIONAIS RELATAM DISCRIMINAÇÃO, LUTA E DESAFIOS
Economista, advogada e delegada falam sobre resistências que enfrentaram no ambiente de trabalho
Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, neste 8 de março, a Gazeta de Alagoas ouviu profissionais de diferentes áreas que sofreram discriminação, encontraram pelo caminho pessoas que duvidaram de sua capacidade e já esbarraram na desvalorização no ambiente de trabalho. Ouvimos Luciana, Rachel e Ana. Na sequência, uma economista, uma advogada e uma delegada.
“Sentir-se menosprezada significa recepcionar o tratamento discriminatório arraigado na sociedade brasileira, quase sempre camuflado. Eu prefiro reconhecer esses ambientes como arenas de guerra, fazendo os enfrentamentos onde eles se revelam inevitáveis. Normalmente, mulheres que assumem o compromisso de dar continuidade à luta histórica por respeito e direitos iguais são apontadas como agressivas. Essa é uma estratégia de nos neutralizar que pode ser revertida com a consciência coletiva da luta histórica que vem sendo travada há séculos”, declara a economista Luciana Caetano, professora, pesquisadora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e doutora em Desenvolvimento Econômico (Unicamp).
A Gazeta pergunta à economista se já se sentiu menosprezada ou questionada sobre sua capacidade para exercer essa profissão. “O tratamento abusivo em relação às mulheres não se restringe à avaliação depreciativa de sua capacidade técnica, mas a todo tipo de assédio, raramente, destinado a homens, sobretudo em ambientes dominados pelo patriarcado. A extensão de atitudes machistas, desrespeitosas e agressivas vai muito além do que possa gerar prova material dos abusos. É importante que a militância feminista não recue e busque ampliar a consciência de gênero, de modo a formar uma nova geração com mais ativismo e menos servilismo a esse sistema dominado pelo patriarcado”, detalha.
INSINUAÇÕES
À Gazeta, a advogada Rachel Ramalho confirma que já se sentiu menosprezada no exercício da função. “Sim, infelizmente já me senti. Já passei por situações em audiência em que o magistrado fez insinuações sobre minha competência. Em outra oportunidade, outro magistrado indeferiu meu pedido com uma argumentação ridícula, como se eu não soubesse o que estava fazendo, e precisei citar a lei, afirmando que ele poderia decidir o que quisesse que eu recorreria ao Tribunal de Justiça. Também já passei por situações de colegas tentarem diminuir meu trabalho”, recorda a advogada, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/AL. E qual conselho Rachel daria às mulheres que enfrentam desafios todos os dias na profissão, como a desvalorização ou então a violência? “Primeiro de tudo que denunciem sempre que for possível. Segundo, que não se calem, compartilhem suas dificuldades com outras colegas mulheres, isso nos fortalece. Aconselho também que estudem, se capacitem e ao serem menosprezadas, mostrem com segurança que tem conhecimento e não se abalam com chacotas e piadinhas. Ergam a cabeça e não desistam!”, diz.
MACHISMO
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A delegada da Polícia Civil Ana Luiza Nogueira lembra que no início das atividades profissionais como delegada de polícia o machismo estava mais arraigado. “Havia questionamento sobre a pouca idade, sobre o fato de ser mulher, como se força e coragem se traduzissem apenas em músculos. Hoje o machismo é mais velado. Não há proibição de determinadas atividades policiais ou de comando. Ele hoje é dissimulado, quase simpático, com a falácia de proteção à mulher. É mais difícil de perceber, mas isso não o torna menos nocivo que o machismo de outrora. Porém, como estou nessa atividade há bastante tempo, e já demonstrei aptidão para o cargo, não sinto mais minha capacidade questionada”, detalha Ana Luíza. Ana lembra da época em que comandou a DEIC (Divisão Especial de Investigação e Capturas) e sentiu que houve um certo estranhamento no início, sobretudo por se tratar de um setor com mais de 100 pessoas e formado quase exclusivamente por homens. “O problema não é tanto o uso de armas de grosso calibre, a participação em operações policiais ou a permanência fora de casa por dias seguidos, mas a liderança. É na liderança que reside o maior preconceito. Mas depois isso foi superado pelo exemplo, muito embora nós, mulheres, frequentemente temos que nos esforçar bem mais para provar que somos capazes”, lamenta. Delegada experiente e agora à frente da especializada de Defesa da Mulher, Ana Luíza orienta que no caso de violência ou em situações de crimes contra a honra, é preciso denunciar. Não devemos nos intimidar nunca. E não aceitar menos do que merecemos, porque somos capazes.
“BUSCAMOS RESPEITO’
“Lembro agora de ocasiões em que fui elogiada e sentia uma ponta de constrangimento pelos elogios, como se não fosse merecedora, mesmo após trabalhar com afinco por horas seguidas, muitas vezes sem qualquer descanso. Trata-se de algo comum entre as mulheres que exercem cargo de liderança: a sensação de que é boa em alguma coisa e, ainda assim, ao mesmo tempo, duvidar que isso seja verdade. É a necessidade da mulher sempre expressar modéstia ao receber um elogio; já ao homem não é dado tal conflito”, reforça Ana Luiza. A delegada destaca que hoje, com o passar dos anos, já agradece os elogios com firmeza. “Não precisamos nem devemos baixar a cabeça e trabalhar ininterruptamente com presunção quase inocente de que com diligência silenciosa haverá reconhecimento. E reforçando sempre: se na atividade profissional houver desvalorização através de palavras depreciativas, ou outro crime, é preciso denunciar. O que buscamos é o respeito!”. Luciana Caetano destaca que há muita sutileza nas abordagens abusivas, desde comentários aparentemente despretensiosos até decisões guiadas por julgamentos prévios contaminados pela discriminação. “Essa sutileza somada à subjetividade elimina a possibilidade de gerar provas objetivas desses abusos ou mesmo de descumprimento às leis, em casos mais graves. Muito do que constata fica no campo da percepção de quem sofre os efeitos da discriminação. De tão recorrente, muitas agressões vão sendo relativizadas e naturalizadas. Quem denuncia acaba sendo estigmatizada”.