Política
Cavalcante, enfim, em Presidente Bernardes
LUIZA BARREIROS Sem bigode e com o cabelo cortado bem baixinho. Foi assim que o ex-tenente-coronel PM Manoel Francisco Cavalcante, o antes poderoso líder da ?gangue fardada?, chegou ontem, por volta do meio dia, ao Centro de Readaptação Penitenciária (CRP) de Presidente Bernardes, a 605km da capital de São Paulo. A transferência ocorreu 30 dias depois da saída dele de Maceió, onde havia quase sete anos ele ocupava uma cela no presídio Baldomero Cavalcanti. Até que houvesse autorização para que o ex-oficial ficasse preso em Presidente Bernardes, Cavalcante ficou 18 dias na sede da Superintendência da Polícia Federal (PF) da Bahia, em Salvador, e outros 12 dias na carceragem da PF de São Paulo. Durante os próximos 89 dias, Cavalcante será mantido sob o rigoroso Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), no qual será mantido durante 22 horas do dia em uma cela isolada, sem acesso a rádio e televisão. Nas duas horas em que poderá tomar banho de sol, ele não poderá ter contato com outros presos que também estão detidos no mais rigoroso presídio do país. Entre os novos ?vizinhos de cela? de Cavalcante estão o traficante internacional Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e os seqüestradores Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, e Maurício Hernández Noranbuena, este último o chileno apontado como sendo o cabeça do seqüestro do publicitário Washington Olivetto. Logo depois de chegar ao presídio, Cavalcante foi levado para a direção da unidade, onde recebeu explicações sobre as ?regras? adotadas na casa. Entre elas, está a que exige que o preso seja barbeado e o cabelo cortado. Ou seja, Cavalcante teria que renunciar ao farto bigode, uma dos principais marcas de sua fisionomia. Como sabia disso, ele próprio tratou de se barbear e já chegou à penitenciária sem o bigode e com o cabelo cortado. Uniforme Depois disso, Cavalcante recebeu o uniforme usado no Centro de Readaptação: um conjunto de calça e blusa bege. Segundo as regras do presídio, ele poderá receber visitas de até dois familiares durante duas horas por semana. As visitas acontecerão numa sala como a vista em filmes americanos: o preso fica numa bancada, separado dos familiares por uma grade de ferro bem fininha, que não permite contato físico, mas apenas visual. Os advogados também têm direito a ter contato com clientes, mas as visitas terão que ser solicitadas à Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo, que ficará responsável por agendar o contato com a direção do presídio. O RDD permite que o preso leia livros durante as 22 horas de isolamento, mas só os aprovados pela direção da unidade, que privilegia os de ?conteúdo educativo?. Se os livros levados por familiares não forem aprovados, o presídio de Presidente Bernardes mantém uma biblioteca que poderá emprestar exemplares, se houver interesse por parte do preso. O presídio também oferece atendimento psicológico e psiquiátrico aos presos. Em 2003, seis meses depois que estava em Presidente Bernardes, Beira-Mar declarou no programa Fantástico, da Globo, que psicologicamente estava ?um bagaço.? Quem espera por declarações de Cavalcante durante os 90 dias em Presidente Bernardes, pode desistir: entrevistas são proibidas. A de Beira-Mar foi gravada por promotores, posteriormente punidos por terem feito a divulgação. /// Mesmo preso, ex-oficial ainda comandava crime organizado A transferência de Manoel Francisco Cavalcante para um presídio de segurança máxima fora do Estado de Alagoas foi solicitada no final do ano passado pelo ex-presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Washington Luiz. A decisão teve como base um relatório do TJ que investigou o depoimento prestado pelo preso Eraldo Firmino. Vizinho de cela de Cavalcante no Baldomero, Eraldo Firmino denunciou que, mesmo estando preso, o ex-oficial continuaria tendo regalias e comandando o crime organizado de dentro do presídio. Além disso, o relatório concluiu que Cavalcante pode ter tido envolvimento na morte de Ebson Vasconcelos, o ?Eto?, principal testemunha contra ele no processo em que foi condenado a 19 anos e 10 meses de prisão como mandante do assassinato do ex-coordenador de Administração Tributária da Secretaria da Fazenda, Sílvio Vianna. A denúncia do preso também levou à informação de que Cavalcante estaria planejando o assassinato de dois juízes que o condenaram, Hélder Loureiro e Marcelo Tadeu. A Associação Alagoana dos Magistrados (Almagis) também pediu ao Tribunal que tomasse todas providências para garantir a integridade física dos juízes. Pedido Depois que o Ministério Público deu parecer favorável à transferência ? o promotor Eládio Estrela pediu investigação rigorosa dos fatos denunciados ?, o juiz da Vara de Execuções Penais, Jamil Amil de Holanda Ferreira, deferiu o pedido e fez uma solicitação para que o Presídio da Papuda, em Brasília, recebesse o preso alagoano. O pedido foi negado, sob alegação de que o presídio estaria superlotado. Posteriormente foi feita uma solicitação semelhante à Justiça de São Paulo. Na sexta-feira anterior ao Carnaval, o juiz corregedor de presídios do Departamento Técnico de Apoio ao Serviço de Execuções Criminais (Decrim-7) de São Paulo, Miguel Marques e Silva, encaminhou um fax ao juiz Jamil Amil, comunicando que a transferência havia sido autorizada. Uma semana depois, Cavalcante foi levado de Salvador ? onde estava desde o dia 25 de janeiro ? para São Paulo, mas foi impedido de ficar em Presidente Bernardes. O governo paulista exigia a delimitação de um prazo de permanência ? que passou de 360 para 90 dias ? e a autorização final foi dada mais de uma semana depois, pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), atendendo a um pedido do governador Ronaldo Lessa (PDT). (LB)