Política
AUTORIDADES CRITICAM PROPOSTA DE ZEMA SOBRE FRENTE SUL-SUDESTE
Declarações do governador de Minas são vistas como preconceituosas e xenófobas em relação à região Nordeste
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ao apoiar o consórcio de estados do Sul e Sudeste para, supostamente, se “defender” no Congresso Nacional de perdas econômicas em resposta aos estados do Norte e Nordeste que imagina beneficiar o consórcio Nordeste, atraiu para si críticas da sociedade civil, dos intelectuais, das autoridades dos Poderes constituídos em Alagoas e na região.
Há mais de uma semana os governadores, parlamentares, partidos políticos, economistas e autoridades do Judiciário defendem a unidade nacional e reagem contra a proposta de Zema classificando-a como “preconceituosa, divisionista, xenófoba e equivocada”.
O Consórcio Sul-Sudeste [Cossud] é presidido pelo governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), que junto com Romeu Zema, apoiou o projeto de reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Hoje, formam o bloco de oposição ao presidente Lula (PT). Norte e especialmente o Nordeste votaram no atual presidente da República.
“Outras regiões do Brasil, com estados muito menores em termos de economia e população, se unem e conseguem votar e aprovar uma série de projetos em Brasília. E nós, que representamos 56% dos brasileiros, mas que sempre ficamos cada um por si, olhando só o seu quintal, perdemos. Ficou claro nessa reforma tributária que já começamos a mostrar nosso peso” disse Zema.
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Uma das primeiras reações contra as declarações foi da entidade dos governadores nordestinos. Em nota assinada pelo governador da Paraíba, João Azevedo (PSB), o presidente do Consórcio Nordeste rebateu as declarações de Zema. “Indicar uma guerra entre regiões significa não apenas não compreender as desigualdades de um país de proporções continentais, mas, ao mesmo tempo, sugere querer mantê-las, mantendo, com isso, a mesma forma de governança que caracterizou essas desigualdades”, lamentaram os governadores, entre eles o de Alagoas, Paulo Dantas (MDB).
POBREZA
O atual Censo do IBGE aponta que o Brasil tem 203.062.512 habitantes, o que representa um crescimento de 6,43% da população, em comparação com 2010. Os números indicam que mais de 115 milhões de pessoas [56,95%] vivem em 319 dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros. Cerca de dois terços das cidades do País têm menos de 20 mil habitantes. Segundo o censo, o Norte e Nordeste são as regiões com os menores crescimentos populacional e econômico do País.
Esse é mais um dos motivos que levaram políticos de esquerda a reagir à fala de Zema. A maioria dos economistas da região, dentre eles o professor-doutor da Universidade Federal de Alagoas Cícero Péricles considerou a fala do governador de Minas Gerais como “equivocada”. Péricles lembrou que existem, historicamente, relações diferentes do Sul e Sudeste com o poder central em relação ao Norte e Nordeste. “Desde o império, a partir dos ciclos do café e do leite o Sul e o Sudeste ganham a hegemonia de políticas do governo federal. Por outro lado, as condições econômicas e de produção nessas regiões são muito mais favoráveis que as demandas destinadas às outras regiões, apesar de o País viver com o regime de federação”.
Péricles destacou ainda as questões relativas às desigualdades sociais, regionais e econômicas. “A infraestrutura do Sul e Sudeste sempre recebeu grandes investimentos e isso contribui para esse momento que as duas regiões vivem hoje. O Nordeste e o Norte enfrentam grandes dificuldades em infraestrutura”. Péricles salientou que a iniciativa dos governadores do Nordeste é para articular políticas regionais. “Não tem nada de desenvolver política anti Sul e Sudeste. Essa intenção nunca existiu”.
LEGISLATIVO
Os parlamentares federais e estaduais da região também reagiram contra as declarações do governador de Minas. Aqui, em Alagoas, o líder do governo Paulo Dantas (MDB) na Assembleia Legislativa, o deputado Sílvio Camelo (PV) disse que Zema fez uma declaração infeliz. “Deveria ter uma visão diferente do Nordeste, tendo em vista a importância histórica e atual dos nove estados que contribuem decisivamente na formação da riqueza da nossa república”.
O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Marcelo Victor (MDB), classificou o governador mineiro como uma “autoridade inteligente e bem articulado”. Porém, considerou que as declarações deles foram desproporcionais à realidade regional. Avaliou que a fala pode ter sido feita também dentro de uma estratégia de “esperteza” política em defesa do Cossud.
Um dos parlamentares mais antigos na ALE, o deputado Francisco Tenório (PP) [com oito mandatos, sendo dois de deputado federal] analisou as declarações de Zema como “um despreparo” no trato de questões nacionais muito sensível. “As declarações foram provincianas. Defendeu a região dele com declarações que contribuíram para a divisão do País e de forma descriminatória”. Tenório considera que o País precisa de quem tenha projeto de união econômica, social e ideológica. “Em vez de discutir e propor a divisão radical entre esquerda e direita do País, a gente precisa de alguém que venha propor soluções da união dessas forças políticas. O Brasil não precisa mais de quem fomente a divisão. A maioria dos brasileiros não quer isso”.
O desembargador Tutmés Airan, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas, que é ligado às causas sociais e de direitos humanos do Norte, Nordeste e particularmente de Alagoas, ao analisar as declarações de Zema disse que as falas dizem muito mais do que aparentemente revelam. “O discurso do governador de Minas é uma posição e atitude repleta de xenofobia contra os nordestinos, em contraponto à posição firme do Nordeste que elegeu o presidente Lula”.