Política
A oposi��o est� incomodada com a popularidade de Lula
MARCOS RODRIGUES O ex-deputado Eduardo Bomfim, 55, secretário-executivo do Ministério da Coordenação Política do governo Lula, esteve na semana passada em Alagoas para receber a Comenda Graciliano Ramos da Câmara Municipal de Maceió. Bomfim trabalha ao lado do ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo, no quarto andar do Palácio do Planalto. Ele aproveitou a vinda a Maceió para acompanhar a filiação de novos quadros no PCdoB, partido do qual faz parte da Executiva Nacional. Em entrevista à GAZETA, ele comentou os rumos da política nacional e local. Ao se referir à sucessão do governador Ronaldo Lessa (PDT), Bomfim defendeu a união dos partidos de esquerda. Em sua avaliação, a conjuntura local não pode estar desvinculada dos movimentos nacionais. /// - O senhor está em Brasília atuando num ministério estratégico para o governo. Qual a função que o senhor desempenha? - Meu papel é de secretário adjunto. Naturalmente, em suas ausências, eu substituo o ministro Aldo Rebelo. Mas o normal é estarmos sempre juntos, ou em atividades compartilhadas: ele numa reunião eu em outra. O que não implica que caiba a mim receber ministros e lideranças. Nós também conversamos muito sobre as articulações políticas. - O que motivou sua vinda ao Estado neste momento? - Vim para receber uma homenagem, que me deixou muito honrado, mas principalmente para fazer contatos institucionais nas secretarias estaduais de Cultura e de Ciência e Tecnologia. Além disso, existiram outras atividades e conversações políticas, como temos feito pelo país inteiro. - O seu partido vive um momento novo com a filiação de novos quadros. No passado, o PCdoB chegou até a perder militantes. Como o senhor avalia esse quadro atual? - O partido, aqui e no Brasil, não pode fazer política sem conhecer o quadro nacional. O partido está totalmente sintonizado. E isto tem facilitado esse momento favorável. A política tem o seu próprio tempo. - O PCdoB recuperou uma cadeira que foi sua na Câmara Municipal de Maceió. Qual a expectativa para o mandato do vereador Marcelo Malta? - Ele é um quadro destacado. Sua vitória foi brilhante. E ele faz parte do processo de retomada de crescimento do partido. Nosso avanço não impede o crescimento de outros partidos. Nós defendemos o pluralismo e uma política de coalizão. - Quando o senhor falou em sintonia, ela tem a ver com a defesa do governo federal e sua política? - Sim. Nós estamos na defesa do governo. O partido defende a soberania nacional, a retomada do crescimento, o pequeno produtor e a ampliação do crédito voltado para ele. Além disso, defendemos a queda nas taxas de juros e do desemprego. O país hoje tem um superávit significativo com a exportação da produção agrícola. - Mas a oposição tem criticado muito as taxas dos juros. - Nós também entendemos que as taxas devem ser reduzidas. Isso vai acontecer num segundo momento. A próxima etapa é o crescimento econômico e a inclusão de políticas tributárias que favoreçam o desenvolvimento. O país vive um bom momento. E, ao contrário do que previa o então candidato José Serra, não quebramos em dez dias. Pelo contrário. Mas é claro que não se deve dormir sobre os louros. - E a situação internacional? Estamos conduzindo bem? - O país está encontrando seu próprio caminho. Não podemos esquecer que a economia é completamente internacionalizada, mas o Brasil está encontrando suas formas de blindagem. Ou seja, uma forma de fortalecer suas condições e resistir nesse mercado. - O prefeito Cícero Almeida tem um secretário indicado com o apoio do ministro Agnelo Queiroz, que é do seu partido. Isso causa algum embaraço ? - Não. Acho positivo. Temos como obrigação representar o Estado brasileiro. Ele não pode atender apenas a sua coalizão. Agnelo tem que atuar de acordo com a importância do projeto e atender aos interesses nacionais e regionais. O que ele não pode é excluir por conta da questão partidária. Se existe uma sintonia, isso é bom. Ele não pode ser hostil. Se existe uma identificação que parte de uma sintonia com as políticas do Ministério, ótimo, porque ganham o Brasil, Maceió e Alagoas. O partido se aliou ao governo para garantir a reeleição de Ronaldo Lessa (2002) e sua governabilidade. Para 2006, o objetivo é manter a aliança? - Eu não tenho a menor dúvida, porque todos os indicativos que o governador tem dado são de fortalecimento da aliança e de consideração política muito grande com o partido. Ele acredita em nosso ponto de vista. Temos mais convergência do que divergência. O governador tem sempre nos considerado. Ele tem tido no PCdoB um partido que o ajuda a pensar nas suas responsabilidades de administrar um Estado como Alagoas. - E se o senador Renan Calheiros (PMDB) não for o candidato ao governo, o PCdoB mantém o apoio ao grupo de Ronaldo (Luis Abílio, Kátia Born e Celso Luiz) ou procuraria apresentar um nome próprio? - O partido vai crescer, mas de acordo com o tamanho de suas pernas, o que não quer dizer que não ousaremos. Significa que somos prudentes. Mas inicialmente o nosso objetivo é garantir cadeiras na Câmara Federal e na Assembléia Estadual. Evidentemente, não sabemos o que vai acontecer na política. Se formos convocados para encabeçar uma chapa majoritária, não há porque o partido declinar. Mas nossa tendência é a de continuar nessa visão de unidade com os aliados que temos. É como no futebol: para que mexer em time que está ganhando? - Como está o clima em Brasília depois da eleição do Renan para a presidência do Senado? Comenta-se nos corredores que ele pode vir a se candidatar a vice de Lula. - O que eu posso adiantar é que Renan foi eleito presidente do Senado numa situação particular. Ele ficará no comando no biênio 2005-2006, mas a lei lhe faculta, caso queira, ser reeleito presidente. Praticamente, o senador, com sua habilidade e experiência no Senado Federal, está em condições concretas de ficar na presidência do Senado por quatro anos. Quanto a outras pretensões do senador, não posso me manifestar. Mas garanto que ele, no momento, é uma importante liderança. Tanto que se elegeu com a quase totalidade dos votos dos senadores. - A derrota do candidato do governo à presidencia da Câmara dos Deputados vai realmente complicar a situação política do governo Lula? - Nós só podemos falar da parte do Executivo, porque o Congresso é soberano. Os deputados elegeram quem eles queriam. Mas o que prejudicou muito o governo foi a pulverização de duas candidaturas petistas [Luiz Eduardo Grenhalg e Virgílio Guimarães]. Mas o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, sempre votou com o governo federal. Ele faz parte desse amplo leque de forças que apoiam o governo. Suas opiniões podem ser críticas. Se não fosse assim, não haveria soberania e sim subserviência. E tem mais: o ministro Aldo Rebelo tem dito e tranqüilizado o presidente Lula, que não haverá problemas com o governo. - Depois do resultado da votação e conseqüente derrota do governo na Câmara dos Deputados, setores do PT e o ministro-chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, atribuíram a responsabilidade ao ministro Aldo Rebelo. Esta questão está resolvida? - O Planalto tem uma unidade de ação e heterogeneidade de pensamento. Não posso, por essa colocação, avaliar o que quis dizer o ministro Dirceu. Temos um relacionamento de muito respeito. Eu penso que ele poderia estar se referindo a qualquer coisa. Acho que poderia estar falando do próprio PT, que se dividiu, por exemplo. Ele sabe que se tivesse apenas um candidato, o Greenhalgh teria ganho ainda no primeiro turno. E, mesmo que ele [Dirceu] tenha nos criticado ? o que não julgo procedente, mas é um direito que ele tem ? a diferença de opiniões faz parte da democracia. O ruim é se o governo não fosse para lugar algum. - Então a crise passou e o ministro Aldo Rebelo continuará no comando das articulações políticas? - O ministro Aldo goza da maior confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da maioria esmagadora dos ministros, sem falar dos governadores, prefeitos e dos parlamentares. Mas o grande traço do Aldo é a confiança que Lula tem com ele, desde quando ocupou a liderança do governo na Câmara dos Deputados. - As declarações de Lula, sobre corrupção no governo de FHC, podem criar problemas para o governo? - Acho que o que a oposição está incomodada com os índices de aprovação do governo Lula.