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Fac��es de sem-terra brigam entre si em AL

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ODILON RIOS Entre bloqueios de rodovias e ameaças de saques, os movimentos sociais que lutam pela terra em Alagoas escondem a guerra pelo poder. O Movimento dos Sem-Terra (MST), o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), o Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) têm hoje em comum a questão agrária, mas não se sentam à mesma mesa para negociar a partilha das terras alagoanas. ?Os movimentos sociais transformaram a luta pela terra em briga por quem tem mais poder?, diz o presidente do diretório estadual do PT, o deputado estadual Paulo Fernando dos Santos (Paulão). ?E não se pode culpar a superintendência do Incra de Alagoas [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] por isso?, complementou o deputado. Semana passada, líderes dos movimentos acamparam na praça Sinimbú, ameaçaram invadir um supermercado em Maceió e bloquearam rodovias estaduais pedindo a demissão do superintendente do Incra em Alagoas, o petista Gino César. Para os movimentos, César estaria incentivando o choque entre os movimentos. Ainda assim, a ordem de Brasília acabou prevalecendo: o superintendente não sai do cargo. Mas a situação alagoana não é novidade. O coordenador do MST, José Rainha Jr, que anunciou na semana passada o ?abril vermelho?, pediu a saída do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, que, segundo o coordenador, estaria ?colocando em xeque a figura do presidente da República? na questão agrária. A quantidade de famílias acampadas e a lentidão da reforma agrária em Alagoas são os principais atrativos para que a batalha por espaço entre os movimentos se torne mais acirrada: em Alagoas, existem 120 mil famílias de sem-terra. De 1999 para cá, o Incra assentou cerca de 5.000, segundo os movimentos. Dez mil famílias estão acampadas há cinco anos, embaixo da lona preta, às margens de rodovias federais, alheias aos entraves entre lideranças dos movimentos. ?Não é briga pelo poder. Claro que existe um movimento que quer ter mais gente que o outro?, disse o coordenador estadual do MLST, Marcos Antônio da Silva, o Marrom, que já pertenceu ao MST. ?O MST está perdendo espaço em nível nacional?, resumiu Marrom, com um discurso partidário. ?Quando eu saí do movimento, levei 16 assentamentos comigo?, listou. O MLST foi fundado em 2002, controla 19 assentamentos e 22 acampamentos, com cerca de 8.000 famílias. O MLST é o único movimento em Alagoas favorável à permanência do atual superintendente do Incra. Animosidade No MST, porém, o clima não é amistoso. O coordenador estadual, José Roberto, não só defende a deposição de Gino César como critica a atitude do deputado Paulão. ?O grande problema é que o PT não tem habilidade para trabalhar a reforma agrária em Alagoas. A direção do Incra em Alagoas se transformou em um movimento sindical, um clube de futebol, sem habilidade política? avaliou Roberto, acusando o Incra alagoano de privilegiar outros movimentos. ?Por falta de habilidade, o Incra em Alagoas quer jogar uma liderança contra a outra?, disparou. O MST em Alagoas foi criado em 1987, comanda 3.000 assentamentos e cerca de 6.000 famílias. Nos últimos anos, o MST alagoano tem perdido espaço para outros movimentos, especialmente o MLST e MT. Segundo fontes ouvidas pela GAZETA, o principal problema é ideológico, ou seja, divergências nacionais no tratamento com o governo federal. Mãe Considerada a mãe dos movimentos que lutam pela terra, a CPT foi criada em Alagoas em 1979. Tem cinco assentamentos e 2.000 famílias acampadas, entre sem-terra e posseiros, aqueles que há muito tempo moram em áreas não reconhecidas em cartório. Para mostrar força, a CPT alardeia a idéia de que é a única que trabalha com os posseiros. Nesta semana, a comissão se reúne para decidir se encampa ou não a luta para a retirada do superintendente do Incra alagoano. ?O Incra de Alagoas é uma máquina enferrujada?, resumiu o coordenador da CPT, Carlos Lima, explicando que a comissão é solidária às mobilizações que aconteceram na semana passada no Estado. Mostrando que as relações entre PT e CPT estão abaladas, Lima afirmou: ?O deputado Paulão assumiu o discurso do governo federal, que hoje defende a transposição do Rio São Francisco, uma posição do passado?. O MTL alagoano foi criado em 1998 e hoje é tido como um refúgio de ex-membros do MST. Tem 1.800 assentados e 2.000 acampados. A GAZETA tentou localizar os líderes do MTL, mas eles não foram encontrados. /// Divergências também atingem alto escalão do Incra no Estado A guerra pelo poder não afeta apenas os movimentos sociais, mas envolve uma rixa entre o atual superintendente do Incra, Gino César, e o ex-superintendente, Mário Agra, que deixou o órgão há um ano. César estava na sexta-feira em Alagoas, mas se recusava a conversar com a GAZETA. Por meio de sua assessoria, informou que ?soube de boatos? de reuniões entre membros do MST e o ex-superintendente Mário Agra, onde a pauta seriam os acontecimentos registrados na semana passada, como o bloqueio das estradas e a ameaça de saques em Alagoas Ainda segundo a assessoria, na gestão de Mário Agra, a reforma agrária no Estado pouco avançou: em um ano e quatro meses, pouco mais de 70 famílias foram assentadas em Alagoas; na gestão de Gino César, em oito meses, foram assentados 828 famílias, segundo dados oferecidos pela assessoria do Incra. Além disso, completou a assessoria do Incra, um terço dos processos de diárias são do MST. E vão existir investimentos de R$ 2,3 milhões em assentamentos do MST. Alguns processos não saíram por causa dos ?inúmeros casos?, como classificou a assessoria do superintendente do Incra, existentes no órgão. Sobre as acusações do MST, de que o Incra alagoano estaria privilegiando alguns movimentos e incitando o choque entre as entidades, a assessoria negou. Explicou que vários programas, como um de R$ 750 mil, prevêem a execução técnica em assentamentos de projetos sociais e todo o dinheiro estaria voltado, segundo a assessoria do Incra, aos assentamentos do MST. Questionada pela sobre as acusações do MST contra o Incra, a assessoria de Gino César utilizou o viés político. Declarou que ?existia luta por espaço, não por poder? nos movimentos sociais. Disse ainda que CPT, MTL e outros movimentos agrários se recusam a conversar com o MST alagoano e argumentou que ao longo da década de 90 ?houve crescimento de outros movimentos de luta pela terra?, mas sem querer polemizar se este crescimento se devia a um possível esvaziamento do MST. ?Tenho pena? Em resposta à afirmação da assessoria de Gino César, sobre reuniões entre o MST e o ex-superintendente do Incra Mário Agra, este resumiu: ?Tenho pena dele. Eu sabia que quando o Gino foi chamado para a direção do Incra ele seria uma pessoa despreparada ao cargo. Ele é arrogante e prepotente?, atacou Agra, avaliando que o atual superintendente ?não tem traquejo com os movimentos sociais que lutam pela terra?. De acordo com ele, César era membro do diretório municipal do PT em Água Branca e o atual superintendente teria saído da cidade por causa do seu relacionamento, ?insuportável?, segundo Agra, com membros do partido. Agra é padrinho de casamento de César. O ex-superintendente disse ter saído do Incra por divergências entre ele e o governo Lula. ?Eu sabia que o Lula não iria fazer nada na reforma agrária. Por isso não quis ficar?. Na época, o então superintendente estava em uma lista de pessoas marcadas para morrer em Alagoas. Segundo os movimentos sociais, a lista circulava entre fazendeiros da Zona da Mata. Atualmente, Mário Agra é coordenador nacional do PSOL, partido fundado há pouco tempo por dissidentes do PT. ?Há três meses que não entro em contato com as lideranças do MST alagoano. Não estou em Alagoas, mas em Brasília?, afirmou Mário Agra. ?Se o Gino sair do Incra, com certeza será uma situação deprimente. Mas, não penso em voltar ao órgão?, garantiu Agra. (OR)

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