Política
Fracassa negocia��o entre o MST e Incra
MARCOS RODRIGUES ODILON RIOS A segunda rodada de negociações entre os trabalhadores rurais integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) e o procurador-geral do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Brasília, José Bruno Lemes, acabou fracassando, no final da tarde de ontem. A primeira tentativa de negociação ocorreu na quinta-feira e ficou decidida a desocupação da sede do Incra, na Praça Siminbu, como primeiro ponto para o começo das negociações. Sem ceder à pressão dos movimentos ? que exigem a saída do superintendente do Incra alagoano, Gino César ? o procurador-geral Bruno Lemes disse que, para a direção do Incra, a questão não estaria na pauta de discussão. Revoltados, os integrantes do MST abandonaram a sala dos conselhos da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Alagoas (OAB-AL) antes mesmo do término da reunião. O coro pedindo a saída do superintendente do Incra alagoano ganhou mais vozes ontem: a Comissão Pastoral da Terra e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) resolveram aderir ao movimento e também passaram a pedir renúncia de Gino César. ?O Isaac passou de mediador a guerrilheiro?, disse, por telefone, o vice-presidente da OAB e presidente da Conselho Estadual de Direitos Humanos, Everaldo Patriota, referindo-se ao presidente da CUT em Alagoas, Isaac Cavalcante. Cavalcante propôs que se as polícias Federal e Militar tentassem cumprir o mandado de reintegração de posse do Incra, determinado na quarta-feira, ?a CUT chamaria os trabalhadores para abraçar a Praça Sinimbu e evitar o conflito entre trabalhadores e trabalhadores?. No começo da noite de ontem, a assessoria do Incra informou que o superintendente não renunciaria. Tensão A reunião entre o procurador-geral do Incra e os movimentos sociais foi marcada por momentos de tensão. O primeiro deles aconteceu quando Lemes tentou marcar encontro no quartel-geral da Polícia Militar, na Praça da Cadeia, mas os movimentos não aceitaram. Surpreso com a presença da imprensa na PM, o procurador desculpou-se. ?Estávamos em número menor. Eles [os movimentos] têm mais de 20 pessoas, nós tínhamos quatro?, explicou, enquanto saía da PM e se dirigia, a pé, para a OAB. Outro momento de tensão foi a discussão sobre presença ou não da imprensa na reunião. José Bruno não queria que os repórteres acompanhassem a reunião na OAB, mas os movimentos, com 28 pessoas na sala, exigiam que a imprensa permanecesse no local. A reunião acabou ocorrendo, mas com dez PMs na sala da OAB. A partir daí até o final da reunião, movimentos e Incra não se entenderam mais. De um lado, os movimentos disseram que cumpriram a sua parte e deixaram a sede do Incra, como ficou acordado na quinta-feira. O procurador-geral do Incra, segundo os movimentos, começaria as negociações para o afastamento do superintendente do Incra alagoano, mas Lemes negou a informação. Os sem-terra, então, se retiraram da sede da OAB em direção à Praça Sinimbu, anunciando em um microfone acoplado a um carro de som: ?Nem o diabo entra no Incra?. Enquanto gritavam palavras de incentivo, integrantes do movimento invadiram a sede do Incra e fixaram as bandeiras do MST, mostrando que o prédio não seria desocupado enquanto as negociações não avançassem. Além disso, eles fecharam todas as ruas de acesso à Praça Sinimbu. Noite À noite, por volta das 19h, aconteceu uma correria no acampamento, provocada pela presença de um carro da polícia manobrando perto de uma das barreiras montadas pelo MST. Eles passaram a chamar todos os homens do acampamento, que arrastavam foices e facões no chão até fazer sair faíscas.