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Gino: “O MST quer sangue”

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LUIZA BARREIROS Há 18 dias o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) pede a saída do superintendente do Incra, Gino César Menezes. Apesar da pressão, o arquiteto de 39 anos avisa que não pretende ceder. Militante do PT desde 1984, ele assumiu o cargo em abril de 2004, por indicação da tendência Democracia Socialista, na qual ele militou ao lado do ex-superintendente Mário Agra e da senadora Heloísa Helena, quando estes ainda estavam no PT. Para ele, Agra é um dos responsáveis pela articulação dentro do MST para tentar derrubá-lo. Sem gabinete para despachar, Gino César recebeu ontem a GAZETA no Consulado Azul ? ONG de torcedores do CSA, clube do qual é dirigente ? e afirmou que a tática do MST é se fazer de vítima. ?O jogo do MST é que haja sangue?, acusa. Gino diz ter os números da reforma agrária em seu favor. ?Em 20 anos de Incra, nenhum superintendente assentou em um ano o que nós conseguimos no ano passado?, disse, referindo-se a 925 famílias assentadas em 2004. A partir de segunda-feira, ele garante que o Incra volta às áreas para, ainda em março, assentar 750 famílias e outras 2.500 no primeiro semestre de 2005. ?Ultrapassaremos a meta da reforma agrária no Brasil?, garante. ### - No PT o senhor sempre participou da luta pela reforma agrária. Como é agora, como governo, ser pivô dessa crise? - Estou achando que houve uma mudança de foco. Em nenhum momento eu fui pivô de crise na reforma agrária. Os nossos números e a nossa participação, inclusive em atividades de movimentos sociais, demonstram a identificação que a gente sempre teve com a reforma agrária. Para ter uma idéia, em dezembro eu estive no encontro estadual do MST, fazendo uma prestação de contas, e fui bastante aplaudido. - Por que então não o querem mais no Incra? - Por duas questões. Acho que já está bem claro para a sociedade alagoana que é a intervenção do ex-superintendente do Incra [Mário Agra], que é compadre do coordenador do MST, o José Roberto, e que tem uma intervenção forte política com o P-Sol da senadora Heloísa Helena. É fato que na outra gestão sempre houve muito privilégio e a gente tem a política de não privilegiar nenhum movimento, mas trabalhar com todos e tratar todos com igualdade. - O MST perdeu privilégios? - Essa é uma forte tendência para essa manifestação. Não acredito que essa situação tenha sido trabalhada com todos os assentados; a maioria das pessoas que estão na praça [Sinimbu] vieram para cá em busca de crédito, do seu pedaço de terra, e estão sendo utilizados indevidamente por uma direção que perdeu o consenso. - Que tipo de privilégios? - Em vários momentos, o superintendente anterior [Mário Agra] evitava agir como superintendente do Incra, como gestor público, e agia mais pela relação de amizade com um ou outro setor. - Então Mário Agra está tendo participação efetiva no movimento do MST? - Lógico que sim. Nas imagens da TV GAZETA, do ato feito na Secretaria de Ação Social, ele está junto na manifestação. Quem marcou a reunião com o secretário Thomaz Beltrão foi José Roberto e Mário Agra. Nessa semana houve uma reunião entre o P-Sol, o PSTU e dois sindicatos ligados ao P-Sol, discutindo uma nota pública contra o governo Lula e o governo do Estado. - E a senadora Heloísa? - A senadora estava fora desse debate, fez uma fala infeliz em um dos jornais da cidade quando falou na existência de um caixa dois no Incra. Ela está protegida na imunidade parlamentar e infelizmente a gente não pode processá-la. Recebemos uma ligação do próprio Mário Agra para o Thomaz Beltrão, dizendo que ela desmentia essa fala, mas não botou nada por escrito. É a história que a gente conhece na política de Alagoas: quando é para denunciar, bota na imprensa. Quando é para negar, é por telefone. - O presidente da CUT, Izac Jackson, que é do PT, disse que a solução para o impasse estaria nas suas mãos e propôs que o senhor, num gesto de grandeza, renunciasse. Pedir para sair está fora de cogitação? - Lógico que sim. Primeiro não é um gesto de grandeza. A grande questão é que alguns atores que deveriam estar trabalhando com imparcialidade, como o próprio Izac da CUT e o Everaldo Patriota, da OAB, tomaram posição no debate. Eu não sou problema na reforma agrária, nem nesse debate. Ao contrário, a minha saída do Incra é o caos para o movimento agrário em Alagoas, porque nós temos 35% de associações ligadas ao MST, e os outros não são. Então, é necessário que o Incra haja com imparcialidade e trabalhe com todos os movimentos sociais. O peso de um movimento social em derrubar um superintendente, desequilibra a vida no campo, não só em Alagoas, mas tornaria a reforma agrária no Brasil um caos. - Isso não é pretensão sua? - Não. Vamos supor que eu saia do cargo e esses outros 65% de trabalhadores e trabalhadoras que estão no ato pacífico, ficariam como? Reféns do MST também? O governo ficaria refém do MST? Qualquer superintendente do Incra que for derrubado por um movimento social no Brasil, cria um efeito dominó. Nós temos nove Incras no Brasil ocupados, e em quatro ou cinco há pedido de mudança de superintendente. Então acaba criando uma situação que é insustentável para o governo, que passa a ser refém. O papel dos movimentos é lutar pela reforma agrária. A queda de um gestor público está ligada à prevaricação, à improbidade, e em nenhum momento nesses 17 dias foi apresentado nada contra essa administração. - Militantes do MSLT, MTL e Ceapa estão na Praça Centenário e na terça-feira fizeram uma manifestação de apoio à sua permanência. O Incra financiou a vinda desses trabalhadores? - Não. Essa é uma outra discussão. O MST veio para cá com ajuda de quem? Vocês nunca perguntaram isso. Ninguém traz vinte, dez caminhões e ônibus como eles trouxeram, sem ajuda. É lógico que os movimentos sociais todos têm boas relações com os prefeitos e com as estruturas de poder. Um exemplo é o prefeito de Delmiro Gouveia, o Marcelo Lima, que é um parceiro da reforma agrária, cedeu quatro caminhões para o MST trazer o seu povo para protestar contra o Incra. Então, é lógico que esse mesmo prefeito, se soubesse que era para pressionar o superintendente do Incra, ele não teria liberado. Só liberou porque disseram que era um ato pela reforma agrária. E desse mesmo jeito os outros movimentos têm contato com os prefeitos em todas as regiões. Hoje, pela relação que a gente tem com os prefeitos de onde tem assentamentos, que são 36, é bem mais fácil conseguir apoio para vir ser solidário com o superintendente do Incra, do que para vir tirar. - E o dinheiro para confeccionar milhares de camisetas com mensagem de apoio, bandeiras brancas e comprar centenas de rosas vermelhas? - Eu acabei de responder. Tem prefeitos e instituições que apoiam os movimentos. Por exemplo, quem está dando o leite para o café da manhã é a Secretaria de Agricultura. Os banheiros quem levou foi o Iteral. E é papel do Incra ajudar depois que estão acampados. O próprio MST, é bom que se diga, pediu cestas básicas ao Incra na semana anterior, para fazer o protesto contra o Incra. Não foi utilizado dinheiro público, tem várias pessoas que apoiam e eu agradeço a solidariedade. - Um dirigente do MLST disse que em troca do apoio, o movimento esperava ?reconhecimento?. Ter aliados e inimigos no movimento não tira a credibilidade do Incra? - Não, de jeito nenhum. O papel do Incra é exatamente esse. O MST está solicitando 250 rolos de lona. É papel do Incra fornecer lona, liberar cestas básicas para todos os movimentos. Por isso, eu acho que é preciso voltar o foco da discussão para a reforma agrária, que esse é o grande debate que deveria estar sendo feito. Nós temos cortes no orçamento da reforma para 2005 e as manifestações deveriam se preocupar com isso. Do mesmo jeito que a gente não interfere nas indicações de dirigentes do MST, o governo federal não vai admitir a intervenção para mudar os seus dirigentes. - O senhor acha que o governo do Estado agiu certo ao não usar a força contra o MST? - Eu acho que a gente não pode fazer o jogo do MST. O jogo do MST é que haja sangue. O MST quer sair como vítima dessa situação. Nós fizemos o nosso papel. Depois de doze dias do Incra ocupado, a AGU [Advocacia Geral da União] questionou nossa Procuradoria e eles fizeram a ação de reintegração porque havia risco de depredação do patrimônio público. Hoje a única alternativa que o MST tem é que haja força e tenha vítimas. Então eu acho que o governo está tendo muita habilidade para não cair nesse jogo que coloca idosos, crianças e mulheres à mercê de uma irresponsabilidade como está sendo tratada a questão. - Uma advogada foi levada pelo MST ao Palácio dos Martírios e acusou um funcionário do Incra de pedir propina de R$ 50 mil. O que será feito pela direção do órgão? - Nós fizemos um pedido para que o Ministério Público Federal convoque o José Alberto, autor da denúncia, para que ele diga quem são os servidores do Incra que receberam favorecimento. Trata-se de uma denúncia leviana. É preciso acabar com a idéia de fazer acusações sem nenhuma prova. - A luta pela reforma agrária perdeu ainda mais a simpatia da população? - Eu estou do outro lado do birô, como gestor público, mas sou grande defensor da reforma agrária. Mas sei que não se ganha apoio da população queimando carro, depredando o patrimônio público e intimidando jornalistas.

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