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Ab�lio: “N�o queremos um Eldorado do Caraj�s”

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LUIZA BARREIROS Com o afastamento do governador Ronaldo Lessa (PDT) para tratamento de saúde, o vice-governador Luis Abílio de Sousa Neto (PSB), 59 anos, está há mais de 20 dias à frente do governo de Alagoas. Durante esse período, vem enfrentando uma das mais longas e delicadas crises envolvendo movimentos de trabalhadores sem-terra, que ocuparam duas praças da cidade, queimaram um veículo do Incra e chegaram a impedir o acesso às ruas e prédios públicos do centro da cidade. Por ter optado pelo diálogo em vez do uso da força policial para conseguir as desocupações, Abílio foi acusado de ter sido omisso e de ter perdido a autoridade. Os ataques não o abalaram, garante. Segundo ele, a política do governo Ronaldo Lessa sempre foi de buscar o entendimento à exaustão com os movimentos sociais. ?O enfrentamento traria um banho de sangue para o Estado e não queremos ser um novo Eldorado do Carajás?, disse, referindo-se ao massacre ocorrido em 17 de abril de 1996, quando 19 trabalhadores rurais foram executados pela polícia do Pará. Companheiro de Ronaldo Lessa desde a época da faculdade de Engenharia, Abílio passou por vários cargos na Prefeitura de Maceió e no governo do Estado, de onde se afastou em abril de 2002 para ser vice na reeleição de Lessa. Apontado como possível candidato ao governo em 2006, ele diz que por enquanto só procura cumprir a missão que recebeu do PSB, de concluir o governo, caso Lessa se desincompatibilize para disputar o Senado no próximo ano. ?Tenho procurado exercer com muita dignidade, lealdade e vontade de acertar?, garante. ### - Além de ser a mais longa, essa foi a interinidade mais amarga? - Não diria que foi amarga. O Estado tem uma série de problemas, que a qualquer momento que eu assuma ou que o governador Ronaldo Lessa esteja no exercício, fluem naturalmente. A gente não pode escolher o momento de exercer a interinidade. Infelizmente, agora foi por motivo de saúde, já superado, que o governador Ronaldo Lessa teve que se ausentar. Demandou um tempo maior do que nós pensávamos e coincidiu com os problemas surgidos. Mas das outras vezes que assumi, já peguei momentos difíceis, de crise. No Estado é isso mesmo: resolve um problema, aparecem dez para serem resolvidos. É da dinâmica do serviço público, da política e da sociedade. Eu não diria que foi amarga, mas um peso grande no ombro de qualquer cidadão, mas estou tentando suportar com a maior dignidade possível. - No caso do conflito dos sem-terra, o governo estadual foi acusado de todos os lados de ser omisso e de falta de autoridade. Todo esse desgaste para negociar com os movimentos está valendo a pena? - Eu acho que sim. O governo tem tido uma postura em relação aos movimentos sociais, desde o primeiro momento do primeiro governo de Ronaldo Lessa, de sempre buscar o diálogo. Nós defendemos a reforma agrária, não é porque nós queremos ser bonzinhos com os movimentos nem porque temos medo do movimento, até porque eu acredito que os movimentos não foram feitos para meter medo em ninguém. Nós temos essa postura porque acreditamos realmente que a reforma agrária é um bem necessário para o País. É a forma de fixar o homem no campo, gerar emprego, renda. Hoje, nos grandes centros, ocorre um processo de favelização em decorrência desse movimento da saída do campo para os centros mais adiantados, porque não há trabalho, porque não há como gerar renda. O governo não tem sido omisso, tem enfrentado o movimento da mesma forma como enfrentou das outras vezes. O governo tem agido é com responsabilidade. - A que o senhor atribui as críticas recebidas? - Tem uns que torcem ? felizmente são uma pequena parte da sociedade ? para que haja conflito e derramamento de sangue. Esquecem que ali no movimento tem centenas de crianças, de pessoas idosas, mulheres, algumas gestantes. É a pobreza. Uma parte da sociedade sabia que existia pobreza, mas não tinha oportunidade de ver. E ela está chegando às nossas portas. Isso não significa que tenhamos que escorraçá-la. A sociedade está entendendo o movimento, tanto que eles não recebem apenas ajuda do governo federal e estadual. São ajudados por ONGs, pelo cidadão individualmente. Mas não há omissão. Há responsabilidade. Houve um momento em que os ânimos se exaltaram com a queima do veículo do Incra, mas depois os ânimos foram serenados. - Mas o impasse continua... - Sim , o impasse continua, é um impasse político e eu tenho dito sempre que o Estado não vai intervir de forma nenhuma no que é circunscrito ao governo federal. Nós não queremos tirar nem colocar ninguém [na superintendência do Incra]. Até porque não admitimos esse tipo de interferência. Mas o Estado sempre se colocou na condição de ajudar, de tentar conciliar, de buscar o diálogo. Eu reuni o Conselho de Segurança, foi criada uma comissão e ela tem ajudado demais. Depois das conversas, desbloquearam as ruas, guardaram os instrumentos de trabalho que podem ser usados como armas. O outro movimento [MSLT, MTL e Ceapa] que veio em oposição ao que já estava [MST] fez algumas passeatas, mas na maior tranqüilidade, até distribuindo flores. Estiveram comigo aqui e da mesma forma que eu coloquei para o MST que não faria nenhuma gestão para tirar o superintendente, eu disse para eles que não faria nenhuma gestão para que ele permanecesse. - O senhor concorda com o superintendente do Incra, quando ele diz que o MST quer sangue? - Não acredito que o movimento queira levar ao enfrentamento. São eles, afinal, que têm mais a perder. - Qual vai ser o limite do governo? - O limite é o que o governo impôs desde o começo: é o respeito à ordem pública. - O secretário Robervaldo Davino defendeu o uso da força na Praça Sinimbu e foi desautorizado pelo senhor? - Não, em nenhum momento. Essa política que nós temos, de gerenciar crise, de manter o diálogo, não é uma política isolada da PM ou da Defesa Social. É uma política de governo. O secretário Davino, o coronel Edmilson [comandante da PM] e o diretor de Polícia Civil, Roberto Lisboa, sempre buscaram o entendimento, porque sabem que a retirada de todo aquele pessoal da praça pode gerar um confronto armado. O Davino disse na reunião do Conselho de Segurança que nós vamos vencer essa crise no diálogo e daqui a 15 dias a sociedade nem lembrará o que houve. Mas se tivermos conflito e forem ceifadas vidas de crianças, velhos, mulheres e aquilo se transformar numa poça de sangue, essa imagem vai ficar marcada indelevelmente para o Estado. Não queremos transformar o Estado em um novo Eldorado do Carajás. E o governo vai agir pacientemente e com responsabilidade, até onde for possível. - O senhor fala com o governador Ronaldo Lessa diariamente? Ele sabe todos os problemas que irá encontrar em seu retorno ao Estado? - Tenho falado com o governador desde o último domingo (dia 13), quando ele recebeu alta. Para respeitar as recomendações médicas, ele não estava atendendo ao telefone, e fiz questão de resguardá-lo. A partir daí, ele tem conhecimento de todo o quadro; afinal, o governador é ele e logo ele vai reassumir. Mas a postura que estou seguindo é a orientação de governo. - Um dos problemas é relacionado ao partido do governador, o PDT, que além da Secretaria de Turismo, exigiu a presidência da Algás. O fato de o setor produtivo ter sido contrário à indicação política provocou mal-estar com os empresários? - Não, de jeito nenhum. O diálogo com os setores da indústria, do comércio, sempre foi o mais proveitoso possível. Alguns cargos, como o de secretário de Indústria e Comércio, gestor de Desenvolvimento Econômico e a própria Agricultura, são ocupados por pessoas indicadas pelo setor. No caso específico da Algás, o setor produtivo manifestou interesse pela permanência do doutor Gérson [Gérson Fonseca, diretor-presidente da Algás], mas é uma decisão política do governo e eles entenderam isso. A reunião do Conselho Administrativo que analisaria a indicação do Corintho Campelo ia ser na terça-feira passada, mas foi adiada porque a Petrobras pediu mais tempo para consultar seus acionistas sobre o voto. Logo após a Semana Santa será marcada uma nova data, e tenho certeza de que vai correr tudo dentro da normalidade. - O grande número de secretários de Estado e os constantes ?ronaldízios? não dão a impressão de que o governo administra mais politicamente que tecnicamente? - Não. É impossível governar se não aliar as duas coisas. Você precisa do lado político, que gera governabilidade, e do lado técnico, para que as coisas ocorram com a rapidez que nós precisamos. Essas coisas têm que estar em consonância. Muitas vezes, o secretário que entra recebe um legado que as pessoas que permaneceram na secretaria são capazes de conduzir, e ele vai dar somente um tom diferente na condução desse legado. Mas o governo tem rumo, tem norte, sabe de seus projetos. As pessoas mudam, mas os projetos, os objetivos continuam. Não vejo o rodízio como problema, até porque sou fruto dele (risos). - O senhor viajou para Portugal e China em missões oficiais que buscavam investidores e outros secretários viajaram para Itália e França. Quais os resultados práticos dessas missões internacionais? - A atração de investimentos para o Estado é um processo lento. Quando você faz uma viagem e começa uma negociação, abre as portas para que as coisas aconteçam. Mas acontecem lentamente. Nós todos queríamos que isso acontecesse num piscar de olhos, da noite para o dia, mas no processo de investimento, o empresário vem conhecer, fazer pesquisa de mercado, analisar as condições que são oferecidas a ele. Muitas vezes não sabem onde é Alagoas e não têm idéia de como as coisas funcionam no Brasil, como é o caso da China. De Portugal, nós temos aqui alguns exemplos de investimentos concretos, como é o caso da Motoravia [fábrica de pequenas aeronaves para fins agrícolas], que já está se constituindo e o Estado vai ter sua participação na cessão do terreno, na construção do primeiro galpão e nos incentivos fiscais. Alguns grupos da Itália, de Portugal também começam a fazer investimentos na área turística. - Mas em ritmo muito lento... Para você ter uma idéia de como o ritmo nesse caso é lento, o Ondazul [empreendimento hoteleiro no litoral Norte do Estado] vem da época em que eu estava na Secretaria de Planejamento. De lá para cá, são cinco anos de todo um trabalho de arquitetura da equação financeira, legal, e finalmente o último obstáculo, ambiental, era em relação ao Ibama, foi vencido com a realização da audiência pública. Nós temos a informação de que até o final deste mês eles estarão liberados e terão condições de começar o empreendimento, que na minha opinião vai mudar a concepção turística do Estado, como no passado o Hotel Jatiúca mudou. Vai ser um novo marco para incrementar nosso turismo. - Por que o governo tem tanta dificuldade para atrair novos investimentos para o Estado? - A sociedade inteira sabe como esse Estado era visto lá fora. Foi preciso fazer todo um processo de reestruturação, primeiro com a União, ministérios e organismos financeiros internacionais. E esse é um processo da mesma forma lento. Só depois que manifestamente esses setores começaram a acreditar no Estado e ver como o dinheiro público estava sendo empregado corretamente, é que empresários começaram a olhar com outros olhos, com otimismo. Alagoas reúne todas as condições para ter um desenvolvimento muito interessante baseado no turismo, no agronegócio, na agricultura familiar, na pequena e média empresa, que é a maior geradora de emprego em qualquer situação, em qualquer ramo de atividade econômica que você esteja, nós estamos trabalhando fortemente com isso, através do microcrédito, da qualificação profissional, da educação continuada, que termine na qualificação profissional. A partir dessas coisas é que os empresários começam a ter confiança no Estado. - Como presidente do PSB, o senhor está preparado para responder aos supostos escândalos que o prefeito Cícero Almeida disse ter descoberto na gestão Kátia Born? - Esse grupo diz desde antes da posse que os escândalos, os problemas serão mostrados, mas até hoje nós não vimos nada. Estamos esperando que eles mostrem. A partir daí, vamos nos posicionar. Mas está demorando bastante. - O senhor acredita que pode ser o candidato do PSB ao governo em 2006? - Ainda é muito cedo para discutir candidatura. Temos praticamente dois anos de governo e temos que fazer um trabalho muito intenso para que a gente cumpra os compromissos feitos durante a campanha de 2002. A discussão eleitoral só vai se acirrar a partir de janeiro do ano que vem. - Mas o PSB tem quadros para a disputa? - Sim, e eu me considero um deles. Mas não vamos fazer essa disputa interna. - Seria repetir o que aconteceu na eleição para a Prefeitura de Maceió, quando o PSB foi derrotado? - Eu acho que a disputa interna para escolher o candidato à Prefeitura de Maceió foi um erro. Nós nos prejudicamos eleitoralmente em função da demora da definição, apesar de sabermos que dos quatro candidatos, os três que ficaram de fora [Givaldo Carimbão, Maurício Quintella e Marcos Vieira] apoiaram o candidato [Alberto Sextafeira] com vontade e determinação, mas o erro foi passar para a sociedade a imagem de que não tínhamos um candidato. Foi um erro que com certeza não se repetirá. O que sabemos hoje é que é preciso ver como vão se comportar as forças políticas daqui para a frente. - Mesmo antes da cirurgia do governador Ronaldo Lessa, as viagens dele para fora do Estado eram constantes. O senhor sabe quantas vezes assumiu o comando do Estado desde que foi empossado vice? - Eu, particularmente, não tenho essa conta, mas há quem faça. - E... - Tem quem diga que se não está na metade [de dias no exercício do cargo], está quase na metade. Acho que eu estou perdendo por pouco para ele. O placar tá meio apertado (risos).

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