Política
TENS�O COM MST: Pol�cia Militar est� pronta para impedir nova invas�o
ODILON RIOS A Polícia Militar descobriu que os militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), acampados há 25 dias na Praça Sinimbu, em Maceió, planejam invadir ?um grande prédio? na capital até o próximo domingo. Diante da informação ? apurada pelo Serviço de Inteligência da PM ? o governador em exercício Luis Abílio (PSB) deu ordem para que o comando da Polícia Militar evite a nova ocupação, antecipando-se ao MST. Ontem, um dos coordenadores nacionais do movimento, José Roberto, disse que ?podem esperar uma grande surpresa para segunda-feira?. O plano do MST seria a invasão de um grande prédio do serviço público, provavelmente na noite de domingo e madrugada de segunda-feira. Desde que chegaram à Praça Sinimbu, os manifestantes falam em invadir prédios que servem de sede para repartições federais. Entre eles estão a Delegacia Regional do Trabalho (DRT) e a Delegacia do Ministério da Agricultura, além de outros. O caso é mantido em sigilo pelo governo. A GAZETA apurou que a decisão do governo, de se antecipar e impedir a invasão planejada pelo MST, criou um impasse na PM. O Batalhão de Operações Especiais (Bope), que seria usado para evitar a ocupação, reagiu à ordem. O comandante do batalhão, tenente-coronel Veríssimo, alegou que o Bope é formado por aproximadamente 250 homens. Acampados na praça, armados com foices e facões, estão cerca de 3 mil sem-terra. Com o número reduzido no quadro do Bope, a Polícia Militar organiza, há pelo menos dois dias, um aparato especial de cerca de 3 mil homens, de vários batalhões, de Maceió e também do interior. Até ontem à noite, a ordem era deixar esse contingente de prontidão ? a postos para agir. Conflito O impasse na PM era sobre o deslocamento da tropa para o imóvel que seria o alvo do MST. Temendo um conflito com vítimas, o comandante do Bope impôs condições para participar da operação. Uma delas seria receber a ordem por escrito, assinada pelo governador em exercício Luis Abílio ou pelo comandante da PM, coronel Edmilson Cavalcante. Até a noite de ontem, esse documento oficial não existia, segundo apurou a GAZETA. ?Nesses casos, a gente sabe que, com foice, pode terminar em degola de alguém. Vamos para reagir e proteger nossas vidas?, disse uma fonte da PM ouvida pela GAZETA. A crise entre o MST e o governo estadual gira em torno da figura do presidente do Incra em Alagoas, Gino César Menezes. O movimento exige a demissão de Gino, alegando que ele privilegia outros grupos de sem-terra, como o MLST. O governo federal disse que não negocia a saída do superintendente. Com o governador Ronaldo Lessa (PDT) fora de Alagoas ? ele tem volta marcada para segunda-feira ? a decisão está nas mãos do vice-governador Luis Abílio. Sobre a estratégia em relação ao prédio ameaçado pelo MST, o governo afirma desconhecer o assunto. A coordenação do MST afirma apenas ter conhecimento de que está sendo monitorada pelo governo. ### Governo teme ?banho de sangue? O secretário de Comunicação do governo do Estado, Joaldo Cavalcante, ao ser informado sobre uma ?surpresa? que estaria sendo arquitetada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), foi taxativo: ?Não estamos trabalhando com especulações?. Ele alegou desconhecer a existência de problemas envolvendo membros da Polícia Militar em relação ao MST. ?O estágio da radicalização dos movimentos já passou, mas é claro que o governo estadual está preocupado com tudo isso. Só que a preocupação maior é com um banho de sangue?, afirmou o secretário ontem, por telefone. Para ele, o governo tem negociado com todos os movimentos, inclusive com o MST, que se reuniu na semana passada com o governador em exercício, Luis Abílio (PSB). O coordenador do Centro de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar, tenente-coronel Adilson Bispo, afirmou que ?a relação do comando com o governo está tranqüila?. ?Não estamos preocupados com o MST. Já esteve pior?, destacou. ?Mas, se a surpresa for atrapalhar a ordem, estamos preparados?, contou. Há duas semanas, foi feito um acordo para o recolhimento dos ?instrumentos de trabalho do MST? ? facões e foices ? e, segundo Bispo, até ontem, nada foi desfeito. ?As armas não estão na praça [Sinimbu]. Não sei onde eles colocaram?, informou. O acordo foi firmado entre a comissão formada por membros do Conselho Estadual de Justiça e Segurança Pública e o MST. Feriadão De acordo com o tenente-coronel Bispo, neste feriadão, existe um esquema de plantão armado para qualquer eventualidade. ?Não é só para o MST, mas para todo e qualquer evento. Isso deve ficar claro?, avisou. Bispo explicou que um major de serviço, que trabalha em um plantão de 12 horas, foi orientado para remanejar parte da tropa da PM, que vai estar nas ruas, se acontecer algum incidente. Ele não quis informar quantos homens podem ser deslocados numa operação de emergência. ?O Centro de Gerenciamento é acionado para a situação de negociação. Se não der certo, a Central de Operações da Polícia Militar poderá agir?, asseverou. O comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), tenente-coronel Veríssimo, disse por telefone que, se fosse colocada em prática uma operação contra o MST, seria necessária a ajuda do Corpo de Bombeiros, da PM, da Polícia Civil e da Prefeitura, ?porque não temos contingente suficiente?. (OR) ### MST identifica espiões e muda tática O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) afirmou ontem ter detectado ?espiões? infiltrados no acampamento do movimento, acompanhando as reuniões e as passeatas, mas descartou represálias. ?Identificamos alguns que não são do movimento e sabemos que eles são espiões. Deixamos eles espionarem?, disse o coordenador estadual do MST, José Roberto. Segundo ele, as pessoas detectadas na multidão de quase 3 mil pessoas não serão penalizadas pelo movimento. ?Não temos segredos?, afirmou. Roberto não confirmou se os espiões são da Polícia Militar ou da Polícia Federal. A PF tem em mãos o mandado de reintegração de posse do prédio do Incra, situado no Centro de Maceió e ocupado pelo movimento. Ontem, o MST realizou uma reunião, na sede do Sindicato dos Previdenciários (Sindiprev), a portas fechadas, para fazer uma avaliação das ações do movimento. No encontro, ficou decidido que na segunda-feira, o MST fará ?uma surpresa na capital? para agilizar as negociações entre o Incra e o governo federal. ?Os companheiros estão dando a vida numa greve de fome para evitar um conflito no campo. Vamos ter surpresas na segunda-feira?, afirmou Roberto. ?As ações que faremos são para termos mais apoio da sociedade?. Segundo Roberto, os sem-terra que estão acampados na Praça Sinimbu ?estão furiosos? porque ?existem companheiros em greve de fome e o governo federal não faz nada?. Onze lideranças do MST estão em greve de fome há 10 dias. ?Ninguém quer mais o Gino [César, superintendente do Incra] aqui em Alagoas?, afirmou Roberto. Neste feriadão, o MST programou atos ecumênicos na Praça Sinimbu e atividades culturais. O superintendente do Incra, Gino César disse esperar que os sem-terra acabem ?se cansando? e retomem a pauta de negociações. ?O povo que está na praça está cansado. É hora de prevalecer o bom-senso. O pessoal quer voltar? [para o campo], afirmou César, acrescentando que o MST em Alagoas ?é o único movimento que quer a minha saída?: ?O governo federal deixou claro que deve prevalecer o bom-senso, mas está fora de pauta a minha exoneração do Incra?, reforçou. (OR)