Política
PF prende lideran�a do MST no Estado
PETRÔNIO VIANA Repórter A Polícia Federal (PF) prendeu, no início da tarde de ontem, cinco dos principais membros da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Alagoas. Os dirigentes José Roberto da Silva, José Carlos da Silva, Hercílio Leandro, Vânia da Silva e Maria do Ó dos Santos receberam voz de prisão depois de prestarem depoimento ao delegado federal Fernando Castro, na Superitendência da Polícia Federal, em Maceió. De acordo com o advogado dos militantes, Daniel Nunes, a prisão foi efetuada ?de forma deselegante?, uma vez que os militantes foram convocados para depor sem ter conhecimento do mandado de prisão contra eles. ?Eles foram apanhados de surpresa. Essa prisão foi um absurdo. Nós vamos tentar reverter essa situação?, reclamou Nunes. O advogado alega que todos os militantes têm bons antecedentes e não participaram de nenhuma das atividades ilícitas das quais estão sendo acusados. Os dirigentes do Movimento vão responder a quatro processos, onde são acusados de vários delitos, entre eles depredação do patrimônio público, apropriação indébita e perturbação da ordem, supostamente cometidos durante os trinta e três dias em que o MST ocupou as dependências do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e a Praça Sinimbu, em Maceió. As investigações que culminaram na prisão dos cinco coordenadores do MST tiveram início no dia 8 de março e foram comandadas pelo delegado federal Joacir Avelino, coordenador de operações de combate ao crime organizado em Alagoas. O mandado de prisão foi expedido pelo juiz substituto da 1ª Vara Federal, André Carvalho Monteiro. Depois de prestar depoimento, José Roberto, José Carlos e Hercílio foram encaminhados ao presídio Cirydião Durval. Vânia e Maria do Ó foram para o presídio Santa Luzia. ?Nós esperamos conseguir um habeas-corpus para que eles possam responder às acusações em liberdade?, informou o advogado Daniel Nunes. Um quinto membro da direção do MST, Edi Paulo, também foi indiciado mas ainda não se apresentou à Polícia Federal. Repúdio No final da tarde, as direções da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) divulgaram notas de repúdio contra a prisão dos dirigentes do MST. A CPT declarou que o ?abril vermelho?, conjunto de manifestações realizadas pelo MST desde o início do mês, ?vem chamando a atenção para a situação conflituosa gerada pela demora na implantação de uma legítima reforma agrária?. A Pastoral questionou a legalidade das prisões e classificou o ocorrido como ?intolerância e resistência a qualquer tipo de mudança, que provocam um tratamento de coerção às manifestações dos trabalhadores sem-terra?. O MTL lembrou que os movimentos que lutam pela terra ?têm autonomia, representatividade e buscam a justiça social?. O movimento relatou outros casos de violência contra militantes do MTL que continuam sem solução. ?Houve vários conflitos e mortes até então sem resposta, ninguém preso. Sem-terra não é bandido e o Movimento não é quadrilha?, escreveu o MTL. O Movimento acusa o Estado e o Judiciário de perseguirem lideranças e tratarem de forma desigual os militantes acusados de crimes e os que cometem crimes contra os sem-terra. A nota divulgada pelo MTL pede a união dos movimentos e acusa o governo federal de infiltrar ?espiões? dentro das entidades e realizar uma ?perseguição política para difamar a luta pela reforma agrária perante a opinião pública?. Justiça A coordenadora estadual do MST, Débora Silva, defende os companheiros, mas nega que qualquer manifestação contrária às prisões esteja sendo programada pelo Movimento. Segundo ela, o Movimento vai aguardar os trâmites legais para que tudo seja esclarecido. ?Nosso advogado já está tomando as providências. Eles não devem ficar presos muito tempo porque cadeia não é lugar de trabalhador? disse a militante. Para Débora, a prisão das lideranças não vai interferir nas atividades do Movimento no Estado. Ela acredita que o ocorrido dará ainda mais motivação para o grupo seguir em frente. ?A nossa causa é justa. Nós lutamos pela diminuição das desigualdades sociais. Os assentamentos e os crimes contra os sem-terra não são as prioridades do governo. Essas prisões foram por interesse político e demonstram isso?, reagiu a dirigente dos sem-terra em Alagoas. ### Trinta e três dias de transtorno para a população Para exigir a saída do superintendente do Incra, Gino César Menezes, e a presença de representantes nacionais do órgão, o MST ficou 33 dias em Maceió. O movimento chegou no dia 27 de fevereiro e ocupou a sede do Incra e a Praça Sinimbu, no centro da cidade. Dentro da pauta de reivindicações apresentada pelos trabalhadores rurais estava o assentamento de 150 famílias, estruturação e manutenção para os acampamentos, melhorias estruturais para os assentamentos, além da apuração e punição dos atos de violência cometidos contra sem-terra. Em 1º de março, integrantes do MST arrombaram a antiga sede do Incra, no edifício Walmap, e forçaram a evacuação de funcionários do prédio. Outro grupo ocupou o pátio do supermercado Bompreço e ameaçou saquear a loja. No dia 4 de março, 50 trabalhadores rurais do MST saquearam o armazém da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em Bebedouro. No mesmo dia, lideranças do MST se reuniram com o governador em exercício, Luis Abílio de Sousa (PSB). No dia 8 de março, a PF começou a apurar a invasão ao prédio do Incra e o saque ao depósito da Conab, em inquéritos independentes. No dia 9 de março, os militantes atearam fogo a uma caminhonete S-10 do Incra. No dia 10, depois de se reunirem com o procurador-geral do Incra, José Bruno Lemes, os líderes do MST cogitaram evacuar a sede do órgão em troca da saída de Gino César, mas as negociações fracassaram. No dia 13, nove membros do movimento decidiram iniciar greve de fome para forçar a saída de Gino César. No dia 14, cerca de 1.800 membros do MLST acamparam na praça Centenário, no Farol, para apoiar Gino César. No dia 15, o governo do Estado reuniu o Conselho Estadual de Justiça e Segurança Pública para analisar a possibilidade de confronto entre as duas organizações. No dia 18, cerca de 50 mulheres ligadas ao MST invadiram a antiga sede do Incra e levaram documentos referentes a processos de desocupação de terra em Alagoas. No dia 23, integrantes do MST foram recebidos na Câmara Municipal de Maceió para debater a situação. Em 29 de março, cerca de mil agricultores do Sertão de Alagoas e de Sergipe ligados ao MST ocuparam o paredão da Hidrelétrica de Xingó, em Piranhas. No dia 30, os integrantes do MST decidiram desocupar a sede do órgão no Estado e a Praça Sinimbu, com a promessa de que, a partir do dia 5 de abril, a superintendência do Incra em Alagoas sofreria intervenção federal, com a vinda de dois técnicos de Brasília. Apesar da vinda dos técnicos, negociada pelo próprio presidente nacional do Incra, Rolf Hackbart, a exoneração de Gino César Menezes não foi concretizada. |PV