Política
Hist�ria mostra bons exemplos de rela��o
LUIZA BARREIROS Repórter Para o cientista político Eduardo Magalhães, briga entre titular e vice é coisa mais comum no atual sistema político vigente, o presidencialismo. ?A raridade é não brigar?, diz. Ele afirma que dificilmente o vice se conforma com o fato de que ele foi eleito, mas não tem as mesmas prerrogativas legais do titular do cargo. ?Está na Constituição e na Lei Orgânica. O vice não tem outra função a não ser servir exclusivamente para substituir o prefeito nas faltas e impedimentos?, justifica. Apesar disso, ele diz que nada impede que o prefeito aproveite o talento ou a capacidade de trabalho do vice para delegar a ele funções executivas dentro do governo. ?Mas é um decisão exclusiva do prefeito?, reforça. Para Magalhães, o bom relacionamento entre o titular e o vice depende da capacidade de ambos para atuar em harmonia e da existência de uma proposta de trabalho bem definida. ?O problema no caso do Cícero Almeida e da Lourdinha Lyra é que, por mais que se tenha feito acordo no período de campanha eleitoral, para garantir a divisão de poder com o prefeito, não existe a função de co-prefeita a ser desempenhada pela vice?, justifica. ?É muito difícil manter o espaço político dos dois no Executivo. A única forma é colocando o vice numa secretaria, onde mesmo assim deve existir uma hierarquia onde o titular é quem dá a última palavra?, explica. O cientista cita como um caso de sucesso nesse tipo de investida a eleição de Leonel Brizola para o governo do Rio de Janeiro, tendo como vice o antropólogo e ex-senador Darcy Ribeiro. ?Darcy Ribeiro foi eleito vice-governador, mas foi para a Secretaria de Educação, onde pôde agir como executivo na máquina administrativa, numa das pastas mais fortes e com recursos dentro do governo?, lembra. Ele também cita o exemplo do pernambucano Marco Maciel, que foi vice-presidente nos dois governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. ?O ex-presidente Fernando Henrique criou atribuições diplomáticas para o vice, que tinha agenda cheia na parte de relações públicas do governo e fez um excelente trabalho dentro e fora do País?, lembra. Maciel também é citado pelo ex-deputado federal e ex-vice-prefeito José Costa como exemplo de vice. ?Vice ideal tem que ter um perfil do Marco Maciel. Não fede nem cheira e não faz nenhuma sombra?, justificou. Em Maceió, a vice-prefeita Lourdinha Lyra, que é arquiteta, foi colocada da Secretaria de Infra-Estrutura desde o início da gestão, mas foi exonerada do cargo depois que o prefeito decidiu extinguir a pasta e ofereceu a ela tocar a Secretaria de Ação Social. Como ela não aceitou a mudança, e o prefeito não apresentou outra alternativa, decidiu romper com Cícero Almeida, que a isolou da administração, deixando-a sem assessores e sem gabinete de trabalho Com o fígado Ao analisar os desdobramentos políticos do rompimento entre Lourdinha Lyra e Cícero Almeida, Eduardo Magalhães diz considerar ?uma temeridade? o fato de o pai da vice-prefeita, o deputado federal João Lyra, ter apoiado o prefeito em sua decisão. ?Para o eleitor, vai pesar o efeito afetivo do caso. Como explicar que ele optou pelo companheiro prefeito e não pela filha??, disse. Para ele, mesmo sem ter voto, como Cícero Almeida e João Lyra, Lourdinha Lyra acabou fazendo surgir um fato novo que poderá ser explorado na campanha para o governo do próximo ano. Para o cientista político Alberto Saldanha, o rompimento entre a vice-prefeita e o prefeito confirma mais uma vez a capacidade de Cícero Almeida em estabelecer crises em sua gestão. ?O problema é que o grande atingido mais uma vez é a administração pública de Maceió?, lamentou. Para ele, o prefeito e a vice ainda precisam aprender que política não se faz com o fígado. ?Se faz com a cabeça e os dois agiram pensando com o fígado?, justificou. Saldanha lembrou que nos pouco mais de 140 dias de governo, a administração Cícero Almeida passou por crises que vêm emperrando a administração. ?Primeiro foi a crise com o partido dele, o PDT, que não foi contemplado com cargos, depois as constantes mudanças no secretariado, principalmente na Comunicação, que é uma área chave. Depois vieram a reforma administrativa e as declarações do prefeito de que se arrependia de ter sido candidato?, citou. No episódio com a vice-prefeita, Saldanha disse considerar que Lourdinha Lyra não compreendeu que o objetivo da arrumação proposta pelo prefeito ? com a extinção da Infra-Estrutura ? não era desprestigiá-la, mas tentar salvar a administração colocando os grandes projetos nas mãos de um gerente com mais experiência, que era o secretário de Planejamento Elionaldo Magalhães. ?Tanto é assim, que tudo que foi feito pelo prefeito tem o respaldo do deputado João Lyra, que tem todo interesse que o governo de Almeida dê certo para servir de vitrine para ele próprio nas eleições de 2006?, disse.