Política
Popula��es em cidades sem prefeitos
CARLA SERQUEIRA Repórter Os moradores das cidades do Litoral Norte que tiveram seus prefeitos presos pela Polícia Federal (PF) na manhã de terça-feira, dia 17, continuam perplexos com o fato. Comentários ainda podem ser ouvidos nas praças e calçadas. No entanto, funcionários dos órgãos públicos municipais garantem que a rotina de trabalho continua a mesma. Em São Luiz do Quitunde, distante 52 km de Maceió, a prefeitura funcionou sob o comando do secretário de Administração Demerval Tenório. ?Cícero Cavalcante vai provar sua inocência?, acredita, dizendo que o município nunca fez nenhuma compra na firma de Rafael Torres, apontado pela PF como o chefe da quadrilha e proprietário da empresa Suevit, supostamente ?fantasma? e campeã nas disputas em licitações. ?Eles eram apenas amigos?, afirmou. Mas há quem esteja mais tranqüilo com Cícero Cavalcante atrás das grades. Um grupo de moradores, que pediu para não ser identificado, revelou que o prefeito era perseguidor e violento. ?Ele já demitiu três pessoas concursadas. Nem o procurador do município conseguiu explicar os motivos?. Em outro episódio, o prefeito de São Luiz do Quitunde teria tratado um credor com violência. ?O rapaz foi cobrar uma dívida e o prefeito deu um tapa na cara dele na frente de todo mundo. Depois, com uma garrafa, abriu um corte que rendeu 10 pontos no rosto do coitado?. O fato aconteceu na última segunda-feira, véspera da prisão, durante a festa de emancipação política do município. ?A delegacia não tem metade do arsenal de armas que acharam na casa dele?, afirmou outro popular. Mais de 550 pastas com documentos foram apreendidas pela PF na Prefeitura de São Luiz do Quitunde. Na maioria, notas referentes a despesas do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef) e planilhas com o controle de compra e distribuição da merenda escolar. Sucessão e favores Cícero Cavalcante exerceu dois mandatos de prefeito em Matriz do Camaragibe. Como a legislação não permite exercer três mandatos consecutivos numa mesma cidade, ele migrou para São Luiz do Quitunde. Para sucedê-lo foi eleito prefeito Marcos Paulo do Nascimento (PMDB), também preso. ?Mas agora, nem para vereador ele ganha mais?, opinou Valdir Lima Silva, 28, professor de Educação Física. ?Marcos deve favores a Cícero Cavalcante. Eu acho que por isso ele acobertou as falcatruas?, disse. O secretário de administração de Matriz do Camaragibe, José Agnaldo Pedrosa, recebeu as últimas ordens de Marcos Paulo, antes de ele ser levado pela Polícia Federal. ?Recebi um telefonema dele às 5h45. Estranhei o horário. Ele pediu para que eu abrisse a prefeitura e deixasse os agentes federais entrar e pegar o que quisessem. Eu perguntei: ?E você, está aonde?? Ele respondeu: ?Estou preso?. Aí achei chato perguntar mais?. De acordo com Pedrosa, os agentes levaram da prefeitura de Matriz apenas documentos. ?A prefeitura, operacionalmente, está funcionando. Agora, financeiramente está parada até porque levaram todos os talões de cheque?. Na cidade de Porto Calvo, segundo os moradores, um cabo eleitoral passou mal quando recebeu a notícia de que o prefeito, Carlos Eurico Lima, o Kaika (PMDB), tinha sido preso. Conhecido como Johw, Fabiano dos Santos Lopes, de 24 anos, foi candidato a vereador pela mesma coligação, mas não foi eleito. Ontem, por volta das 15h, Johw faleceu depois de sofrer enfarte numa mercearia, onde trabalhava como entregador. ?Ele gostava muito do Kaika. Só pode ter sido por causa disso?, acredita a aposentada Marlene Gleide, de 64 anos, dizendo que a cidade está de luto. ### Na merenda, pipocas e confeito Enquanto a Operação Gabiru investiga prefeitos alagoanos suspeitos de desviar recursos federais destinados à merenda escolar, milhares de crianças recebem, na hora do lanche, biscoito com suco (quando recebem). No município de Matriz do Camaragibe, 4.660 alunos estão matriculados no ensino fundamental, segundo o secretário de Educação, Marlon Braga. São 33 escolas nas zonas rural e urbana. Todo mês, só para garantir a merenda, o governo federal envia para os cofres do município R$ 16 mil. Confeito e pipoca Mas no Grupo Escolar Municipal Dagmar Monteiro Cavalcante as crianças estão sem merenda há quase um mês. ?A água que temos aqui é de poço; no verão sempre falta e por isso não estamos servindo a merenda?, justificou a diretora da unidade, Etiene Tibúrcio do Nascimento. Na hora do recreio, dois carrinhos com pipocas e confeitos têm acesso ao pátio da escola. Os doces são vendidos. As crianças afirmam sentir falta da merenda. ?A gente comia sopa com biscoito e suco. Hoje não tem nada?, disse uma aluna da 4ª série. ?Em outras vezes tinha também arroz com sardinha?, contou. A diretora rebate dizendo que não falta comida. ?Ainda temos mantimentos da quinzena passada. Não cozinhamos por falta de água?, contou, mostrando dois quilos de arroz e um pouco de maracarrão armazenados na secretaria da escola. A situação não é diferente em São Luiz do Quitunde. No município estão instaladas 9 escolas na cidade e 33 na zona rural. São 8.400 alunos matriculados no ensino fundamental e todos os meses uma verba no valor de R$ 21 mil é creditada na conta da prefeitura para assegurar a merenda das crianças. Arroz puro Na Escola Municipal Demócrito Sarmento, em São Luiz do Quitunde, estudam cerca de 2 mil alunos. A diretora da unidade, Ivani dos Santos Nascimento, garantiu que a merenda é selecionada por uma nutricionista que vai à escola duas vezes por semana. No cardápio, segundo a servidora, consta macarronada, arroz-doce, biscoito e suco, dependendo do dia da semana. Mas um morador, que não quis revelar o nome, disse que tem uma filha matriculada na unidade escolar. ?Nunca tem merenda. O que tem é arroz puro num dia; no outro, mungunzá. Se quero que minha filha lanche de verdade, tenho que comprar?, disse.