Política
Matriz: grampo revela rombo de R$ 500 mil
LUIZA BARREIROS Repórter Uma conversa telefônica de aproximadamente 16 minutos, entre o prefeito de Matriz do Camaragibe, Marcos Paulo do Nascimento, o Marquinhos (PMDB), e o empresário Rafael Torres, revelou um rombo de cerca de R$ 500 mil nas contas da prefeitura. A dívida teria sido deixada pelo ex-prefeito Cícero Cavalcante (PMDB) ? atual prefeito de São Luiz do Quitunde ?, que governou Matriz por oito anos. Marquinhos era o vice-prefeito de Cavalcante durante sua gestão e o sucedeu no cargo nas eleições de outubro passado. A conversa foi uma das gravadas pela Polícia Federal, com autorização da Justiça Federal, dentro das investigações da Operação Gabiru, e foi uma das que apresentaram indícios de desvio de recursos, que serviram de base para decretação das prisões de Rafael Torres, Cícero Cavalcante e Marquinhos, no último dia 17. Na conversa, ocorrida em 17 de março passado, Rafael Torres deixa transparecer que já pagou pela confecção de notas fiscais frias para ?cobrir um buraco? na contabilidade deixada por Cícero Cavalcante, e que teve que ser assumida por Marquinhos. Mas na maior parte do tempo, é Marquinhos quem lamenta a herança deixada por seu antecessor. Toda a preocupação do atual prefeito se dá pelo fato de alguns dias depois estar previsto o início da auditoria do Tribunal de Contas do Estado nas contas de Matriz referentes a 2004. ?Peguei todos os rolos dele [Cícero Cavalcante], um débito aproximado de quinhentos mil reais?, diz Marquinhos, lembrando que só de dívidas com Rafael Torres, foram pagos ?oitenta mil contos?. As dívidas também incluíriam dinheiro público utilizado para financiar o pagamento de ?bichos? para os jogadores do Bom Jesus, time da primeira divisão do Campeonato Alagoano, que tem Cícero Cavalcante como patrono. (ver matéria abaixo) ?Somei tudo e até me assustei com a quantidade de cheques espalhados pela prefeitura?, disse Marquinhos a Rafael Torres. Na mesma conversa, Marquinhos revela que ?negociou cheque até junho? e que está pegando dinheiro da prefeitura sem fazer nada no município. ?Só pagando dívida, pagando dívida, pagando dívida?. Marquinhos ainda se lamenta afirmando que por isso será taxado de incompetente e mal administrador. ?O Cícero que era bom, jogava baralho, dava dinheiro ao povo. O marquinhos não joga baralho e não dá dinheiro a ninguém. F..., só pagando débito?, continuou, em tom de lamúria. Marquinhos diz ainda que quando deixou a prefeitura, Cícero Cavalcante disse ter deixado um débito de ?cinquenta mil contos? no comércio de Matriz. ?Quando somei, deu R$ 120 e até hoje tô com esse nó?. ?O Cícero só quer contar vantagem, vantagem, e eu me f...?, complementa. Para consolá-lo, Rafael Torres diz: ?Você vai sair dessa, se Deus quiser?. Apesar disso tudo, Marquinhos deixa claro que não é inimigo de Cícero Cavalcante. ?Não é nada disso. É que ele [Cícero Cavalcante] não diz que deixou a prefeitura com um rombo de quinhentos mil contos?. ### Em 6 minutos, R$ 150 mil em licitações Em fevereiro deste ano, já como prefeito de São Luiz do Quitunde, Cícero Cavalcante encomendou, por telefone, várias simulações de licitações, que segundo a Polícia Federal, teriam o objetivo de fraudar os cofres da prefeitura em R$ 150 mil. A ilegalidade cometida é impressionante e, segundo a inteligência da PF, ?o diálogo fala por si?. Cícero diz estar precisando de ?algo? e Rafael interrompe perguntando qual seria o valor. Cícero diz: ?Uns cento e trá-lá-lá?. Rafael complementa: ?Certo... cento e quarenta... cento e cinqüenta?. Cícero diz então para ele fazer ?diversos? e e manda colocar ?carteiras?. Rafael alerta que só quer saber os itens e as datas. Ao que, Cícero Cavalcante começa a enumerar: Cícero: ?Carteiras, alimentação?. Rafael: ?Material elétrico? Cícero: ?Também? Rafael: ?Material de construção?? Cícero: ?Também. Papel? Rafael conserta: ?Material didático? Cícero: ?É? Rafael: ?Bom é serviço? Cícero: ?Anota aí: a escola Demócrito... a escola Marieta... já lhe dei duas, não foi?? Rafael: ?Tem estradas vicinais? Máquinas? Serviços?? Cícero: ?Pode botar estes itens? Rafael: ?Que localidades? Cícero: ?Estrada da Fazenda Lagoa Vermelha, povoado Lagoa Vermelha, Paraíso. O resto vá metendo? Rafael: ?Certo. Esse ano não vá deixar acumular?. Cícero: ?Não quero? Rafael: ?Fevereiro tem que fechar janeiro... porque a tendência de você... vamos dizer hoje... fechar negócio de cinco, seis meses atrás, naturalmente só vai pegar documento podre? Cícero: ?Não quero isso?. Rafael: ?Todo mês passa a régua e faz?. Cícero: ?Date estas notas com o mês de janeiro?. Rafael: ?Posso jogar a data dentro do mês?? Cícero: ?Faça também de alimentação geral e de remédio? Rafael: ?Tem mais fazendas e estradas?? Cícero: ?Estrada Cabeça de Porco. Agora, calçamento, né?... Serviço de calçamento em diversas ruas da cidade, bote assim? Rafael: ?Certo? Cícero: ?Ajeita aí [...] essa escola aí [Demócrito] você bota pintura [...] é grande, dá pra fazer umas duas. Conserto do telhado, material elétrico? Rafael: ?Reparos? Cícero: ?A Demócrito tem mais de 15 salas é grande? Rafael: ?Pode botar uns vinte contos?? Cícero: ?Não precisa fazer carta convite?? Rafael: ?Vou ver com o contador... vamos procurar fazer a coisa bem feita? Cícero: ?Não pode botar no hospital?? Rafael: ?O quê?? Cícero: ?Conserto hidráulico, elétrico, pinturas? Rafael: ?Qual o nome do hospital?? Cícero: ?Hospital Municipal? Rafael: ?Hospital Municipal de São Luiz??