Política
Conselheiro se coloca � disposi��o da PF
LUIZA BARREIROS Repórter ?E como é que está aí o pessoal do Tribunal? Tudo tranqüilo?... É deixar concluir o relatório e segunda-feira eu converso com o Roberto... ele já estará com o relatório... desde aquele dia não falei mais com ele porque eu viajei... mas com certeza está tudo sobre controle?. Rafael Torres, em conversa telefônica com o prefeito de Matriz do Camaragibe, Marcos Nascimento, em abril. Citado várias vezes em conversas do empresário Rafael Torres ? considerado o líder do esquema de desvio de recursos da merenda escolar ?, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Alagoas (TC-AL), Roberto Torres, disse na última sexta-feira que se for convocado pela Polícia Federal (PF) para depor no inquérito da Operação Gabiru, atenderá ao convite. Primo legítimo de Rafael Torres, o conselheiro diz que não tem o que temer ou esconder. ?Não vejo problema nenhum em depor. Se me chamarem, vou à Polícia Federal esclarecer o que eles quiserem?, disse o conselheiro, que tem as mesmas prerrogativas legais de um desembargador. Segundo ele, sua consciência está tranqüila e não há o que esconder da PF, já que apesar de Rafael Torres usar seu nome para ?vender? a falsa idéia de que poderia influenciar os julgamentos do TC, a ele nunca foi feito um pedido nesse sentido. ?Ele nunca teve o topete de pedir uma coisa dessas a mim?, afirmou, lamentando que o primo tenha usado seu nome indevidamente. ?Não posso evitar que ele ou outra pessoa use meu nome, mas tenho a consciência tranqüila?, afirmou. A frase transcrita no início da matéria foi dita pelo empresário Rafael Torres ao prefeito de Matriz do Camaragibe, Marcos Paulo do Nascimento, o Marquinhos (PMDB). Eles falam sobre um auditoria nas contas da prefeitura referentes ao ano anterior, que foram iniciadas em 28 de abril. E essa não é a única vez que Roberto Torres foi citado por Rafael Torres em diálogos interceptados pela PF. Em todos, Rafael sempre cita o primo conselheiro e o outro primo procurador-geral do TC (José Correia Torres, já indiciado no inquérito) como pessoas que ele poderia manipular para conseguir a aprovação de contas no Tribunal. E a um preço alto. Só na fiscalização das contas de Matriz do Camaragibe, Rafael tentou dar a entender que mediante o pagamento de R$ 40 mil (também chamado de ?quatro ponto zero?), conseguiria esconder várias irregularidades. Com Cícero Cavalcante, Rafael combinou o preço que seria pago supostamente para corromper os técnicos que no dia 28 de março iniciariam o trabalho em Matriz. Apesar de ser prefeito de São Luiz do Quitunde, Cícero Cavalcante tinha interesse direto na aprovação das contas de Matriz, já que sua gestão teria deixado um ?rombo? de meio milhão. Cícero: ?Estou falando daquele outro negócio... do dia 28... aí a gente tem que conversar com o chefe lá, né? Quando é que a gente pode ir lá pra passar o negócio pra ele?? Rafael: - ?Amanhã? Cícero: - ?Três ponto zero resolve, né?? Rafael: ?Não sei. O pedido foi de cinco ponto zero... porque não é pra ele... é pra questão das equipes que vão... dos times... vai ter os jogadores titulares... tem os jogadores reserva... tem goleiro... tem centroavante?. Cícero: ?Dou a metade? Rafael: ?Acredito que a proposta que você deu...? Cícero: ?Quatro ponto zero? Rafael: ?Que é um ?bicho? bom... é um prêmio bom? Cícero: ?Darei a metade? Rafael: ?Foi o que eu disse ao Marquinhos [atual prefeito]. Marquinhos, dá a metade agora, porque o time já entra em campo animado?. Em uma outra conversa, Rafael Torres ensina a Marquinhos como agir numa suposta visita feita ao Tribunal: ?Você pode ir comigo agora. Vou no Tribunal agora, que os dois estão lá?, disse, ensinando o que ele deveria dizer: ?Olha, obrigada pela atenção, pela força [...] vou mandar a encomenda pelo Rafa. E pode até dizer quanto vai mandar [...] Agora, chegar lá... ele entregando pra os caras receber, não vão receber?. Argumento Segundo Roberto Torres, Rafael realmente levou Marquinhos ao seu gabinete. ?Falei que ele estava começando agora e me dispus a dar orientação técnica se ele necessitasse?, lembra. Quanto ao relatório de Matriz, foram detectadas várias irregularidades e, na terça-feira, será levado a julgamento do TC . Roberto Torres, que teve sete mandatos como deputado federal, estadual e prefeito, disse que toda a sua família recebeu com constrangimento a notícia de que Rafael Torres seria o líder da quadrilha de desvio de recursos da merenda em vários municípios alagoanos. ?Só tenho a lamentar o que aconteceu, mas tenho certeza de que tudo isso que aconteceu servirá de exemplo para todo o País?, disse. Torres afirmou que o TC e ele próprio têm recomendado a rejeição de contas de maus administradores às Câmaras Municipais e informado ao Ministério Público Estadual quando há crimes detectados nas auditorias. ?A gente não condena. Não temos como agir diretamente, pois essa não é a função do Tribunal, disse?.