Política
Revista �ntima constrange familiares
PETRÔNIO VIANA Repórter Os prefeitos, ex-prefeitos, secretários municipais e empresários acusados de envolvimento no esquema de desvio de recursos federais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para compra de merenda escolar no interior de Alagoas completam hoje 19 dias de prisão na carceragem da Polícia Federal (PF), no bairro do Jaraguá. Nesses dias, os acusados tiveram que se habituar a uma rotina muito diferente da que levavam quando administravam seus municípios ou exerciam suas atividades em liberdade. Os familiares e amigos desses acusados também tiveram que passar por grandes transformações no seu dia-a-dia. As visitas aos acusados de envolvimento no esquema de corrupção ocorrem todas as terças e quintas-feiras, das 9 às 11 horas. Cada detento pode receber a visita de dois familiares de cada vez, exceto na última terça-feira, quando apenas um parente pôde entrar na carceragem da PF de cada vez. Os familiares não têm um tempo limite para ficar com os acusados, a não ser que outros parentes estejam aguardando para visitar o mesmo detento. Às 11 horas, todos devem deixar a carceragem. Nas celas, os parentes têm contato direto com os acusados, nenhuma barreira física, como vidros ou grades separam familiares e presos. Para entrar, todos os familiares devem passar por uma revista semelhante às que são feitas nos presídios comuns. Os homens ficam em roupas de baixo enquanto suas vestimentas são vistoriadas pelos agentes federais. As mulheres precisam sofrer um pouco mais para visitarem seus maridos, pais e irmãos que estão presos. Além de terem que tirar toda a roupa, inclusive a de baixo, são orientadas a abaixar e levantar por três vezes, para garantir que nenhum objeto proibido pela PF possa entrar na carceragem. Esse procedimento tem sido duramente criticado pelas esposas, filhas, mães e irmãs dos acusados. Nenhuma delas quis se identificar, mas declararam que esse tipo de revista ?é a coisa mais humilhante? pela qual tiveram de passar. Algumas primeiras-damas comentaram que jamais haviam imaginado passar por uma situação dessas. CORRIQUEIRA O advogado José Areias Bulhões, que representa o prefeito e o secretário de Finanças de Igreja Nova, Neiwton Silva (PDT) e Paulo Roberto Oliveira, explicou que essa é uma medida de segurança aplicada de forma corriqueira. Ele disse não ter tomado conhecimento dos detalhes da revista das mulheres, mas que ?o normal é que elas sejam revistadas por policiais femininas, e os homens por policiais masculinos?. As visitas, segundo os parentes dos acusados são monitoradas pelos agentes federais. O advogado Areias Bulhões disse que, até o momento, não foi notada a existência de qualquer equipamento para filmar ou gravar em áudio o que se passa na carceragem durante os encontros. ?Se existe algum, nós não notamos. Eu desconheço essa informação?. ### Comida simples e noites maldormidas Apesar da situação constrangedora, os familiares deixam a carceragem da Polícia Federal confiantes de que seus entes queridos serão libertados e que as acusações serão retiradas. ?Só o que está complicando são essas conversas gravadas?, disse o filho de um detento. Tudo que é levado pelos parentes para os detentos - roupas, alimentos, remédios e utensílios em geral - são vistoriados pelos agentes federais antes de serem entregues. A alimentação é um dos pontos mais criticados pelos familiares. Nem todos os alimentos levados pelos familiares podem ser entregues aos presos. A falta de uma geladeira impossibilita a entrada de queijo e leite, por exemplo. Alguns outros são proibidos por motivo de segurança. ?Algumas coisas não entram porque os presos podem comer e dizer que estão se sentindo mal para ir ao hospital?, disse um agente federal. A comida servida na carceragem é preparada há cerca de quatro anos, em um pequeno estabelecimento comercial localizado quase na frente da superintendência da PF. O local, sem muitos requintes, foi alvo da vigilância sanitária depois que familiares dos presos pediram para a proprietária colocar dentro das marmitas a comida que eles mesmo trouxessem. A proposta foi recusada e a vigilância sanitária, acionada. A proprietária do estabelecimento disse que existe preocupação com a higiene e com a saúde dos presos, declaração refutada pelos familiares, que classificam a comida servida como ?sebosa?. O local certamente não atende aos padrões a que estavam habituados os presos e seus familiares. No dia seguinte à prisão, uma pizza foi encomendada pelos presos, mas o fato repercutiu de tal forma que a superintendência decidiu proibir outros pedidos. O cardápio servido consiste em carne assada, frango grelhado, peixe frito, macarrão, feijão tropeiro e caseiro, arroz, salada e verduras cozidas. A proprietária do estabelecimento contou que tem em mãos uma relação dos presos que não podem comer alimentos muito salgados e dos que precisam evitar o açúcar. ?O café vai amargo para ser adoçado por eles [os acusados]?, comentou. O mesmo estabelecimento serviu a comida de presos ?ilustres? que já passaram pela carceragem da PF de Alagoas, como o traficante Fernandinho Beira-Mar e o juiz federal João Carlos da Rocha Mattos, condenado por corrupção em 2003. A comida é entregue no prédio da PF por um funcionário que chega a pé - a distância entre o prédio e o estabelecimento é mesmo pequena - acondicionada em um isopor de tamanho médio. As três refeições diárias custam à PF R$ 10 por pessoa. O lucro do estabelecimento chega a R$ 340 por dia. Os familiares e os próprios detentos queixam-se das condições estruturais da carceragem da PF. Inicialmente, o prédio está preparado para receber apenas 16 detentos, dois em cada uma das oito celas. Segundo informações colhidas com os próprios agentes federais, a detenção teria as características de área de custódia. ?Isso não é um presídio?, disseram. Os 19 acusados dividem o espaço com mais 15 outros detentos, acusados de diversos crimes, totalizando 34 pessoas. Os presos ?comuns? ocupam as celas, enquanto os acusados de envolvimento no esquema de corrupção espalham-se desordenadamente pelo corredor da carceragem. ?As condições são desumanas. Não existe uma ordem, um espaço determinado para cada um. Eles dormem em colchões no chão, no lugar onde puderem colocar?, descreveu o advogado Areias Bulhões. Uma das críticas mais ouvidas diz respeito às instalações sanitárias do local. Apenas dois sanitários são utilizados pelos 34 presos. ?Até um dia desses, era um só, mas a PF transferiu uma traficante que estava lá e agora são dois banheiros?, disse o filho de um ex-prefeito detido. O banheiro não tem vaso sanitário, apenas uma instalação na altura do chão. A porta chega apenas na altura de um homem de estatura média, para que o preso que estiver no local não possa se esconder do agente federal responsável pela carceragem. |PV