Política
Sigilo sobre o destino de Cavalcante
LUIZA BARREIROS Repórter A Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) do governo de São Paulo confirmou ontem que o ex-tenente-coronel PM Manoel Francisco Cavalcante deixará o Centro de Readaptação Penitenciária (CRP) de Presidente Bernardes, onde ele está preso há 120 dias. A transferência, segundo a assessoria de imprensa do secretário Nagashi Furokawa, poderia acontecer ?a qualquer momento?, já que ontem foi encerrado o prazo de permanência do preso na penitenciária de segurança máxima do interior de São Paulo. Ainda segundo a assessoria do governo paulista, a única informação que poderia ser dada à imprensa sobre a transferência é de que a Polícia Federal (PF) iria fazer a escolta do preso. ?A PF virá buscar o Cavalcante aqui em São Paulo. Mas não temos o dia, hora e nem o local para onde ele será levado?, explicou a jornalista Rosângela Sanches. Segundo ela, o sigilo faz parte do modo de trabalhar da polícia, para garantir a segurança da operação de transferência. Durante o dia de ontem, falou-se na possibilidade de Cavalcante ser levado para um presídio no Acre ou para a penitenciária da Papuda, em Brasília, mas nada foi confirmado. O silêncio também foi adotado pelo governo e pela Justiça de Alagoas. A assessoria de imprensa do secretário Robervaldo Davino disse que ele ?não foi informado de nada?, já que a responsabilidade pelo preso seria do juiz da Vara de Execuções Criminais de Maceió, Jamil Amil dse Holanda Ferreira. O juiz não foi localizado ontem pela reportagem e o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Estácio Gama de Lima, também disse não ter sido informado sobre a conclusão das negociações em torno da transferência. O advogado Cláudio Vieira, contratado para tentar trazer Cavalcante de volta para Alagoas, também não conseguiu respostas para serem dadas à família do preso, que estava apreensiva em relação ao local para onde ele seria levado. Apesar da falta de informações, a expectativa ontem era de que a transferência só ocorresse mesmo na próxima segunda-feira, já que no final de semana seria mais difícil de ser operacionalizada. No Ministério da Justiça, a assessoria de imprensa confirmou a chegada do ofício encaminhado na quinta-feira pelo governador Ronaldo Lessa (PDT), pedindo ajuda ao ministro Márcio Thomaz Bastos para conseguir um local para transferir Cavalcante. O ministro não recebeu o ofício em mãos porque estava em São Paulo, mas teria falado por telefone com Lessa na noite de quinta-feira. Graças a esse contato, a PF teria sido mobilizada para fazer a transferência. GANGUE FARDADA Considerado líder da ?gangue fardada?, o ex-tenente-coronel Cavalcante deixou Alagoas no dia 25 de janeiro, depois de ocupar por quase sete anos uma cela no presídio Baldomero Cavalcanti. A sua saída de Alagoas foi feita numa operação surpresa, na qual o próprio preso não teve a possibilidade de avisar à família que estava deixando o Estado. Ele deixou Alagoas no avião da Polícia Federal. A transferência do Estado foi solicitada pelo Tribunal de Justiça de Alagoas, sob a alegação de que mesmo preso, Cavalcante continuaria a comandar o crime organizado no Estado. A decisão teve como base um relatório do TJ que investigou o depoimento do preso Eraldo Firmino. O relatório concluiu que Cavalcante pode ter tido envolvimento na morte de Ebson Vasconcelos, o ?Eto?, principal testemunha contra ele no processo em que foi condenado a 19 anos e 10 meses de prisão como mandante do assassinato do ex-coordenador de Administração Tributária da Secretaria da Fazenda, Sílvio Vianna. A denúncia do preso também levou à informação de que Cavalcante estaria planejando o assassinato de dois juízes que o condenaram, Hélder Loureiro e Marcelo Tadeu. Até que houvesse autorização para que o ex-oficial ficasse preso em Presidente Bernardes, Cavalcante ficou 18 dias preso na sede da Superintendência da Polícia Federal (PF) da Bahia, em Salvador, e outros 12 dias na carceragem da Polícia Federal de São Paulo. Só em 24 de fevereiro o ex-coronel Cavalcante foi aceito no presídio de Presidente Bernardes, onde passou a ser mantido sob o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Além de ser mantido preso durante 22 horas em uma cela isolada, sem acesso a rádio e televisão, nas duas horas em que pode tomar banho de sol, ele não tem contato com outros presos. Ele também teve que cortar o cabelo e renunciar ao farto bigode e passou a usar uniforme. Inicialmente, o prazo de permanência dele em São Paulo era de 360 dias, sendo reduzido depois para 90 dias. Em 24 de maio, o governo de São Paulo atendeu um pedido feito pelo governo de Alagoas e prorrogou a permanência por mais 30 dias, improrrogáveis. Apesar da tentativa de levá-lo para outro Estado, Cavalcante poderá voltar a AL.