Política
Briga pela terra em P�o de A��car divide religiosos
ODILON RIOS Repórter A briga pela posse da terra em Pão de Açúcar chegou à Justiça e colocou em campos opostos um monsenhor e membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT). A CPT foi criada na década de 70 a partir de um segmento progressista da Igreja Católica. Tem como objetivo proteger os trabalhadores rurais sem terra dos latifundiários, na disputa pelo chão. Um grupo de meeiros se reuniu na sede da CPT, em Maceió, na última sexta-feira, para reclamar do monsenhor Petrúcio Bezerra de Oliveira, da paróquia Sagrado Coração de Jesus. Segundo uma carta elaborada pelos meeiros, no dia 21 de maio deste ano, ele deu ordens para soltar cerca de 80 cabeças de gado no povoado Lagoa de Jesus, Maria e José, na Vila Limoeiro, região rural de Pão de Açúcar. O gado pertence não à paróquia, mas a Petrúcio Bezerra. As terras são da Igreja Católica e nela vivem 18 famílias que há 40 anos plantam banana, feijão, tomate, pimentão, coentro, macaxeira, arroz e algodão. O regime de produção obedece a alguns princípios: a terra deve ser utilizada para agricultura de subsistência, ou seja, a maior parte daquilo que é colhido deve ser consumido pelos trabalhadores; metade das sementes é doada pela Igreja e toda a colheita é repartida meio a meio para a paróquia e os trabalhadores. A invasão Tudo começou a mudar há cerca de três anos, quando a agricultora Maria José Góes da Silva, 72, resolveu colocar uma bomba de sucção para puxar a água do rio São Francisco e irrigar sua plantação. Monsenhor Petrúcio não aceitou e o caso foi parar na Justiça. Orientado por advogados, ele soltou as 80 cabeças de gado na plantação, acabando com parte da produção de 10 meeiros. ?O monsenhor não me disse o porquê?, disse Maria José, explicando que a bomba foi utilizada para que ela não carregasse mais baldes de água na cabeça para irrigar a plantação. Depois da reclamação do monsenhor, a bomba foi retirada. Na carta enviada à CPT, os trabalhadores chamam a atitude do monsenhor de ?irresponsável?, ?desumana? e ?insana?, além de revelar que ele quer se tornar ?fazendeiro?. ?Isso é uma ação diabólica, não de Deus?, disse irmã Cícera Menezes, da CPT. Citando versículos bíblicos, lembrou: ?O pão dos indigentes é a vida dos pobres e quem a tira é assassino?. O coordenador estadual da Pastoral, Carlos Lima, disse que vai pedir a intervenção da CPT Nacional, através de Dom Tomaz Balduíno, para que ele tente uma solução com o bispo de União dos Palmares, dom Fernando Iório e o monsenhor Petrúcio Bezerra. Caso contrário, propõe protesto nas ruas. O prazo é até 25 de julho, Dia do Agricultor Familiar. Segundo a advogada dos trabalhadores, Lana Mendes Costa, o pároco deixou de atender aos meeiros para colocar gado nas terras. ?Há sete meses o padre não celebra uma missa [no povoado]?, diz ela. Os meeiros levaram um vídeo registrando o ?antes? e o ?depois? das terras destruídas pelo gado. Política Contactado pela Gazeta, o bispo de União dos Palmares, dom Fernando Iório, superior do monsenhor Petrúcio, disse que a questão ?é política? mas não quis entrar em detalhes. ?Chegou o poder político e tomou conta de tudo?, analisou, explicando que não interfere nas decisões das paróquias. Monsenhor Petrúcio negou que estivesse perseguindo a agricultora. ?É a maneira de ela se comportar. Não respeita. Faz o que quer?, resumiu. Ele contou que Maria José tinha uma terra mas invadiu outra, próxima ao rio São Francisco, e colocou uma bomba para puxar a água. ?Eu disse que não permitia?, afirmou. ?Ela colocou a bomba sem minha autorização?. Ele foi à Justiça para retirar a agricultora da terra, mas ela teria reagido: ?Ela disse: ?daqui não saio, daqui ninguém me tira??. Ele conseguiu uma liminar de reintegração de posse, exigindo a retirada da agricultora em até 60 dias. Mas, de acordo com o pároco, ?ela desobedeceu?. O prazo foi esticado para 30 dias e ela não saiu das terras. ?Por orientação dos meus advogados, coloquei o gado lá?, confirmou. Só que o gado que hoje pasta nas terras da Igreja pertence ao próprio monsenhor e ?alguns? dos animais ?são da paróquia?: ?Uma parte do gado é minha. Tenho uma propriedade e coloco lá?, apontou. Inquirido se não seria ilegal colocar gado em terras da Igreja, ele negou: ?Não é ilegal. Eu sou responsável por isso?, sempre registrando que a paróquia sustenta dez creches e um abrigo de velhos, além de participar de vários projetos sociais. ?Quando eu cheguei lá, aquilo tudo era capoeira. Desmatei tudo. Essa terra é para esse pessoal trabalhar, dar uma renda para eles. Se não der nada, o prejuízo é da paróquia?, contou. Segundo a juíza Maria Valéria Lins Calheiros, uma audiência de conciliação será realizada entre as partes em agosto. Mas, na opinião do monsenhor, ?ninguém mais quer ela [Maria José] lá?. ?Foi dado um prazo para que ela saísse?, lembrou a juíza, por telefone, à Gazeta. Divisão As opiniões se dividiram quando a reportagem entrevistou padres sobre o assunto. Há, porém, um consenso: como o monsenhor é diocesano, ele pode ter bens em seu nome, inclusive criar gados. Mas quando se perguntava sobre a legalidade ou não da atitude do monsenhor, de colocar gado em terras da Igreja, um padre entrevistado pela Gazeta disse que deveria haver autorização da paróquia. Outro pároco explicou que ?cada caso é um caso?, mas, em princípio, não seria ?imoral? ter gado e criá-lo nas terras da Igreja.