Política
Caixa 2 no Paran� envolve ministro
AGÊNCIA FOLHA De Londrina (PR) A campanha que reelegeu prefeito de Londrina (PR) o petista Nedson Micheleti está sofrendo uma investigação da Polícia Federal por suspeita de caixa dois. O inquérito foi aberto depois que a ex-colaboradora de campanha Soraia Garcia, 31, procurou o Ministério Público para denunciar sonegação de R$ 6,5 milhões nos gastos apresentados pelo comitê financeiro à Justiça Eleitoral. Por ora, a investigação se detém em indício de crime eleitoral. Segundo Soraia, o suposto caixa dois recebeu colaboração do PT nacional, por intermédio do então deputado federal e hoje ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que tem base eleitoral em Londrina, e do presidente do PT do Paraná, deputado estadual André Vargas. ?Ela cita Paulo Bernardo e André Vargas como os caras que trariam o dinheiro para cá?, disse o promotor. ?O que ela fala é que eles [Bernardo e Vargas] chegavam de Brasília [e Curitiba] num dia e o dinheiro aparecia no outro.? Ainda segundo o promotor, a denunciante ?não via dinheiro chegando com as malas?, mas no dia seguinte ela tinha que fazer duas planilhas de prestação de contas para lançar os gastos e fazer pagamentos. O dinheiro chegava em sacos plásticos de lixo e em sacolas de lojas. A ordem era precedida de uma reunião entre o prefeito, os deputados e os três da coordenação, no comitê central. Soraia se apresentou ao promotor como ex-assessora financeira da campanha de Micheleti. Dois integrantes do comitê que atuariam no esquema confirmaram ontem que Soraia trabalhou na área financeira. Micheleti disse em entrevista que sua função era distribuir material. Agenda Soraia Garcia está desempregada e apresentou uma agenda de trabalho para tentar comprovar o que diz. A seu pedido, hoje ela foi incluída em um programa de proteção a testemunhas pela delegacia da PF de Londrina. A despesa da reeleição de Micheleti registrada na Justiça Eleitoral foi de R$ 1.361.577,23, contra uma entrada de R$ 1.088.684. Por esse balanço, o PT de Londrina ainda está devendo R$ 272.893,23. Mas Soraia afirma que a reeleição consumiu cerca de R$ 7,8 milhões. Segundo ela, a contabilidade fazia duas planilhas de gastos -tirava uma em letra azul, oficial, outra em vermelho, do caixa dois. Depois de impressas as planilhas, os arquivos eram apagados no computador. ?Ela disse que fazia as planilhas mais ou menos semanalmente. Quando um deles [Bernardo e Vargas] estava para chegar, alguém falava ?me dá o cálculo?. Depois havia a reunião.? A maior parte do dinheiro, cerca de 60%, segundo o depoimento, foi para pagamento de cabos eleitorais. ### Prefeito nega ter feito crime eleitoral Em decorrência do depoimento de Soraia, a juíza eleitoral Oneide Negrão determinou busca e apreensão de documentos na casa de três secretários de Micheleti e um diretor da companhia de telefonia de Londrina. O material está sob análise da PF. No depoimento, Soraia também disse que uma vez chegou até ela R$ 100 mil em notas de R$ 50 com carimbo do Banco do Brasil. Outra afirmação indica presença de uma empresa de Marcos Valério de Souza na campanha de Londrina. A DNA teria pago um lote de 20 mil camisetas despachadas pelo Diretório Nacional do PT. Na prestação de contas de Micheleti há lançamento de R$ 85,2 mil de doação do partido. Soraia disse também que 25 carros de locadora usados na campanha foram alugados ?em nome de uma agência de publicidade de Belo Horizonte?, cujo nome ela não se lembrava. O promotor ouviu a história de Soraia por cinco horas, em sua sala, no último dia 27. Ela chegou acompanhada de Nilton Micheleti, irmão do prefeito, que confirmou o trabalho dela no comitê financeiro. A parte gravada tem duas horas de duração. ?[O depoimento] Foi uma coisa surpreendente. Eu não sabia nem por que lado pegar?, diz Siqueira. OUTRO LADO O prefeito de Londrina, Nedson Micheleti, disse que espera da Polícia Federal investigação rápida da denúncia, que classificou de ?absurda?. ?Quero mais é que a Polícia Federal investigue, e rapidamente. Tenho segurança do que fizemos na campanha e extrema confiança nas pessoas que escolhi para a coordenação. De forma nenhuma fizemos caixa dois.? O prefeito negou participação de alguma agência de publicidade de Belo Horizonte na sua campanha. ?A única contribuição nacional que recebemos foi a doação de 20 mil camisetas pelo Diretório Nacional do PT. Veio fatura de uns R$ 84 mil da fábrica da Coteminas do Rio Grande do Norte, e o gasto foi lançado na prestação de contas?, disse. O ministro paulo Bernardo, por meio de nota, disse: ?Repudio veementemente as insinuações caluniosas que tentam envolver meu nome em supostas irregularidades na captação de recursos para a campanha do atual prefeito [de Londrina]?. Bernardo afirmou ainda que é do conhecimento da população do Paraná que ele apoiou Micheleti na condição de deputado, mas que não fez parte da administração da campanha. Já o presidente do PT estadual, André Vargas, disse que o PT estadual não interferiu na parte financeira de nenhuma campanha municipal de 2004. |AF