Política
Quais ser�o os pr�ximos a cair?
| LUIZA BARREIROS Repórter Desde que assumiu a prefeitura de Maceió, o prefeito Cícero Almeida (PDT) avisou que quem não se enquadrasse em seu projeto de administração, estaria fora do governo. Segundo ele, todos que estão ocupando cargos de confiança na prefeitura estão na iminência de ser afastados. ?Queremos pessoas que queiram realmente trabalhar pelo projeto e não individualmente?, declarou, na entrevista que deu à Gazeta na passagem dos 100 dias de governo, deixando claro o clima de instabilidade entre os assessores do primeiro escalão. ALTA ROTATIVIDADE E bota instabilidade nisso. Em sete meses de governo - ou exatos 212 dias - o prefeito realizou nada menos que dez mudanças em sua equipe de secretários, sem contar com os ?ex-quase?: dois secretários que tiveram os nomes anunciados antes da posse - Nelson Ferreira, da Comunicação, e Álder Flores, do Meio Ambiente, que havia servido ao governo anterior, adversário de Almeida, e queria continuar no cargo. Ambos foram desconvidados antes mesmo do início do governo. Ou seja, deixaram de ser sem nunca terem sido. Além disso tudo, nesse período o prefeito rompeu com a vice-prefeita Lourdinha Lyra (PTB), que chegou a ser exonerada da pasta de Infra-Estrutura no início de maio e teve todos os assessores do gabinete exonerados. Lourdinha continua vice-prefeita - foi eleita para o cargo e não pode ser exonerada -, mas totalmente afastada do governo. Só mais recentemente o prefeito renomeou seus assessores, depois que a vice ameaçou ir à Justiça para garantir o direito de ter um gabinete e uma equipe de trabalho. a campeã Entre as secretarias, por enquanto, a pasta campeã de mudanças é a de Comunicação: além de Nelson Ferreira - que trabalhou durante toda a transição, até pedir para sair da equipe no dia 29 de dezembro -, passou pelo cargo de secretário o jornalista e publicitário Luiz Dantas Vale, exonerado em 14 de março. O atual titular é o também jornalista Marcelo Firmino. SEM DIPLOMA No final de abril, foi a vez do superintendente Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT), Leonardo Loureiro, ser substituído por Ivã Vilela, técnico do órgão. Financista indicado para o cargo pelo deputado João Lyra (PTB), Loureiro enfrentou dificuldades desde o início, principalmente porque não tem formação em engenharia civil ou arquitetura, pré-requisitos legais para o cargo. Mesmo assim, Cícero Almeida o nomeou para uma assessoria especial de seu gabinete e deu poderes para que ele dirigisse de fato a SMTT. Loureiro poderia pedir ao prefeito para encaminhar um projeto à Câmara Municipal, modificando a lei que prevê a exigência, mas não o fez até o fim precoce de sua gestão. Em meio a uma crise entre a SMTT e um empresa de ônibus e a outra crise - desmentida na época - entre Loureiro e o diretor-geral da Guarda Civil, delegado João Mendes, pelo número insuficiente de guardas civis à disposição da SMTT, Loureiro acabou caindo. Ficou ainda algum tempo num cargo de assessor especial do prefeito até se desligar totalmente do poder público municipal. ### Cai o poderoso Max e vice perde cargo Passados alguns dias da queda de Leonardo Loureiro, Almeida anunciou uma nova mudança. Dessa vez, surpreendeu a todos, ao rebaixar o até então todo-poderoso Max Trindade da Secretaria Municipal de Governo para o cargo de secretário-geral do gabinete do prefeito. Em seu lugar, assumiu o vereador Carlos Ronalsa, do PMDB, cuja nomeação atendeu a interesses da Câmara Municipal de Maceió, já que a saída de Ronalsa abriu caminho para que o suplente Robson Calheiros (PMDB), irmão do senador Renan Calheiros, assumisse uma vaga no Legislativo Municipal. Max Trindade assumiu o cargo que era de Paulo Gondim, que por sua vez também acabou caindo para o cargo de secretário-geral adjunto do gabinete do prefeito. A grande briga No dia 10 de maio - apenas uma semana depois da mudança na Secretaria de Governo -, começou uma briga mais grave: foi a vez da vice-prefeita Lourdinha Lyra ser exonerada do cargo de Secretária de Infra-estrutura. Ela convocou uma entrevista coletiva e surpreendeu os eleitores ao criticar duramente o governo de Almeida e anunciar seu rompimento com o prefeito. Motivo alegado: a intenção do prefeito em extinguir a pasta de Infra-Estrutura (o que não aconteceu até agora), pasta na qual a vice vinha ganhando grande visibilidade ao promover - e fiscalizar de perto - obras, principalmente nos bairros mais pobres. Foi oferecida a Lourdinha a Secretaria de Cidadania e Ação Social, mas a vice-prefeita não aceitou, já que sua formação é em arquitetura e é com obras que ela gosta de trabalhar. dança de cadeiras No discurso em que anunciou o rompimento com Cícero Almeida, a vice-prefeita disse discordar do que chamou de ?dança de cadeiras? promovida pelo prefeito. ?O prefeito decidiu, sem ouvir ninguém, a não ser os que sempre balançam a cabeça, que vai acabar com as secretarias de Infra-Estrutura, de Esportes, a Funacriad e outras mais. Pode uma cidade ficar sem um órgão específico que cuide de sua infra-estrutura??, questionou na época. O lugar de Lourdinha Lyra foi ocupado, primeiro provisoriamente e depois em definitivo, pelo superintendente da Slum, João Vilela, que passou a acumular as duas funções. |LB ### Cultura, Ação Social e Procuradoria No mês seguinte, exatamente em 15 de junho, foi a vez do prefeito anunciar a substituição do presidente da Fundação Cultural Cidade de Maceió (o equivalente à Secretaria de Cultura), escritor Francisco Valois, por Marcial Lima, que para assumir a função no município deixou no governo do Estado o cargo de coordenador de Ação Cultural da Secretaria Executiva de Cultura. Na véspera de sua exoneração ser publicada, Valois demonstrou surpresa ao ser questionado pela Gazeta sobre sua substituição. Ele afirmou que a decisão do prefeito Cícero Almeida não teria sido comunicada oficialmente, o que depois foi desmentido pelo presidente da Academia Alagoana de Letras (AAL), Ib Gatto Falcão, que contou ter dado, ele próprio, a Valois a notícia de seu afastamento da função. IDADE Oficialmente, a prefeitura alegou ?falta de entrosamento? entre Valois e a equipe da Fundação. Mas em entrevista à imprensa, o prefeito não poupou o ex-assessor: ?Valois estava precisando descansar um pouco. As atribuições e responsabilidades eram grandes, até mesmo por causa da idade dele. E ele [Valois] não estava cumprindo com o que se queria para a administração da fundação?, disse na época o prefeito. MAIS DOIS - OU MENOS DOIS Menos de um mês depois, no dia 13 de julho, o prefeito anunciou duas novas mudanças no primeiro escalão: a saída do advogado Marcelo Brabo Magalhães da Procuradoria Geral do Município e da médica Ivone Torres, da Secretaria Municipal de Assistência Social. No caso de Brabo, ele próprio pediu para sair, oficialmente por não conseguir conciliar o cargo público com suas atividades profissionais e acadêmicas. Mas informações não confirmadas por ele dão conta de que Brabo não estaria satisfeito com uma mudança de metodologia de trabalho na Prefeitura, que incluiria ?acelerar? a máquina para dar respostas eleitorais. Pela Procuradoria Geral do Município passam todas os processos licitatórios da Prefeitura e seus órgãos. Para o lugar de Brabo, foi convidado o advogado Paulo Nicholas, que voltou de Salvador, onde estava morando. Nicholas foi diretor comercial do Diário Oficial do Estado durante um ano e meio. Sua indicação foi feita pelo deputado federal João Lyra. |LB ### Câmara já derrubou dois secretários Convocado para o cargo de procurador-geral do município na vaga do demissionário Marcelo Brabo, o advogado Paulo Nicholas, oriundo da advocacia privada na área tributária, deu entrevistas criticando a cobrança de alguns tributos pelo município. Causou reação do Secretário de Finanças, Fernando Dacal, que viu na atitude do novo procurador a possibilidade de queda da arrecadação de impostos. Por enquanto, Nicholas continua firme no posto. IVONE TORRES: a FRITURA No caso de Ivone Torres, depois de um longo tempo sendo ?fritada? - desde a saída de Lourdinha Lyra da Infra-Estrutura, o cargo de Ivone já havia sido oferecido à vice-prefeita - ela aceitou deixar o cargo de secretária de Cidadania e Ação Social para assumir a secretaria-adjunta da nova titular, Elisabeth Lopes Marques. A saída de Ivone Torres teria sido fruto de pressão da bancada governista na Câmara Municipal de Maceió, que não estaria satisfeita pela dificuldade de acesso ao órgão, que é um dos mais visados para a obtenção de dividendos político-eleitorais. A nova secretária Elisabeth Marques é empresária do ramo do turismo e também foi indicada para o cargo pelo deputado João Lyra, para quem já desenvolveu atividades na área social dentro do grupo empresarial de sua propriedade. O prefeito justificou a mudança argumentando que era um ?ajuste? necessário na máquina. ?O que vale não é o cargo, mas ter consciência do dever cumprido e de seus objetivos?, declarou o prefeito. No dia das duas posses - de Paulo Nicholas e Elisabeth Marques, o assunto dos bastidores era a possibilidade de haver uma nova exoneração, desta vez da titular da Secretaria de Administração, Regina Helena de Almeida, que vem a ser prima do prefeito. Regina Helena também não estaria agradando à bancada governista, igualmente por ?dificultar o acesso?. O deputado João Lyra também estaria querendo indicar alguém de sua confiança para o cargo, segundo fontes da bancada do prefeito na Câmara Municipal. CAI OUTRO HOMEM-FORTE Na última terça-feira, começaram os boatos a respeito da possível exoneração do secretário de Planejamento, Elionaldo Magalhães, considerado até então um dos homens mais importantes do governo e responsável, entre outras coisas, pela mini-reforma administrativa feita pela atual gestão. Na quarta-feira a notícia foi confirmada pelo governo, mas só deverá ser efetivada na próxima semana. MOTIVO: DUODÉCIMO Elionaldo teria pedido para sair do governo, depois de entrar em rota de colisão com a bancada governista na Câmara Municipal, que ficou insatisfeita com a intenção do secretário de cumprir a lei e reduzir o valor do duodécimo da Casa a partir do próximo ano. Apesar de, conforme disse ao prefeito, não pretender ser um obstáculo ao bom entendimento entre o Executivo e o Legislativo municipais, Elionaldo Magalhães teria deixado claro para o prefeito que não poderia trabalhar na elaboração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e do Orçamento municipal sem proceder de acordo com o que estabelecem a Constituição Federal e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Além disso, os vereadores estariam insatisfeitos com o crescimento do poder do secretário. Por ter experiência na área de administração pública - já foi superintendente da Sudene no início dos anos 90 - Elionaldo estaria tendo grande ascendência sobre o prefeito, o que foi interpretado pelos vereadores como ?centralização de poder?. Isso gera ciúme, e todo mundo sabe que ciúme político geralmente faz estragos consideráveis. Inicialmente, o comando da Secretaria do Planejamento vai passar para as mãos do secretário-adjunto, César Marques, mas até a oficialização da mudança, que só deverá acontecer na semana que começa amanhã, Cícero Almeida deverá escolher outro titular para a pasta. A pergunta é: o substituto de Elionaldo e de César Marques - e de resto qualquer um dos novos secretários, e os que certamente estão por vir - algum deles conseguirá esquentar o lugar? Pelo ritmo em que as coisas caminham na Prefeitura, parece difícil. LB ### Sinal de problemas à vista, diz analista Para o cientista político Alberto Saldanha, as constantes mudanças no primeiro escalão do governo municipal evidenciam a dificuldade do prefeito Cícero Almeida (PTB) em gerir a máquina pública. ?Sem experiência, ele continua pensando com o fígado?, observou. Saldanha lembra que no episódio do rompimento do prefeito com a vice Lourdinha Lyra, ficou claro que, diante das dificuldades enfrentadas, Cícero Almeida optou por dar poderes para que o então secretário de Planejamento, Elionaldo Magalhães, atuasse como uma espécie de ?gerentão? da prefeitura, até mesmo pela experiência administrativa que ele tem, por ter sido superintendente de um órgão como a extinta Sudene. ?Para surpresa de todos, numa espécie de ?ronaldízio? [termo usado para se referir às constantes mudanças de titulares de cargos nos governos de Ronaldo Lessa], o prefeito cedeu a pressões da Câmara Municipal e do deputado João Lyra, rebaixou a secretária Ivone Torres e aceitou a exoneração de Elionaldo?, comentou. Azeite na máquina Para Saldanha, a conseqüência da saída de Elionaldo Magalhães do governo pode ser o comprometimento da própria administração. ?Ele [Elionaldo] levou seis meses para arrumar a casa e para sair de um conflito com os vereadores. E então, de repente o gerente cai fora: para mim, é sinal de problemas à vista?, avaliou. ?O prefeito perde a figura que estava colocando azeite na máquina e colocando a administração para funcionar?, complementou. Alberto Saldanha lembra ainda que, se adotar a postura de ceder sempre a pressões, o governo Cícero Almeida ?se transformará no que mais ele próprio e a sociedade condenaram no governo anterior, da ex-prefeita Kátia Born: o total loteamento de cargos da administração entre políticos, inclusive o deputado João Lyra, que tem interesse em ter visibilidade visando à campanha de 2006?. Em relação ao futuro, o cientista político diz que a questão crucial, que pode definir o rumo - para o melhor ou o pior - está na postura que o prefeito vai assumir de agora em diante. ?A Câmara só está olhando para o próprio umbigo ao pedir a cabeça de secretários, não por critérios de competência, mas simplesmente por desagradar seus interesses corporativos ou eleitorais. A Câmara coloca em xeque a capacidade do prefeito de conduzir a máquina administrativa?, disse. Em relação aos reflexos dessa forma de administrar junto à população - nas pesquisas de opinião -, Alberto Saldanha diz acreditar que só haverá desgaste do prefeito se o troca-troca representar paralisação de obras e projetos tocados pelas pessoas substituídas. |LB